Impressões Amazônicas 87

Quando o avião pousa no Maturuca, centro cultural e histórico da região da Raposa Serra do Sol, somos saudados por um grupo de jovens que canta e dança parichara, animados por nos receber. Acompanho a equipe dos Expedicionários da Saúde, que veio escolher o local onde será realizada uma grande ação de saúde, com direito a centro cirúrgico e quatro toneladas de equipamentos.

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Em cada aldeia que chegamos, a recepção me faz sentir como se eu estivesse indo inspecionar as candidatas a receber uma Olimpíada, mas no Maturuca tudo é especial.

IMG_0316 Dançando Parichara

IMG_0341 Recebendo os visitantes

Aqui, nesta aldeia, o presidente Lula assinou o decreto da demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, pondo fim a décadas de conflitos entre indígenas e fazendeiros. Aqui os parentes habituados a receberem visitas e organizar festas, nos tratam com carinho e discursos, propagandeando as vantagens de escolher a aldeia.
Tomo limonada enquanto o grupo de dança anima a recepção. Nos intervalos dos cantos fala o tuchaua (cacique), depois o coordenador local de saúde e outras lideranças. Trazem cocos – e nunca vi um coco com tanta água dentro. Vejo que os visitantes estão felizes. Eu estou.

IMG_0355 Discurso de boas vindas.

IMG_0356 Olhem que malocão legal..

Antes de inspecionar as instalações é servido o almoço: peixe, carneiro, galinha caipira, legumes cozidos, feijão verde, salada – tudo plantado e criado ali. Sinto falta da tradicional damurida – o caldo de pimenta – e quando vou perguntar, escuto mais discurso:
– Doutor, espero que estejam gostando do almoço, mas a damurida e o caxiri estão reservados para quando vocês voltarem para fazer as cirurgias.
Este pessoal sabe fazer propaganda. Preciso aprender com eles.

IMG_0365 Mesa farta. Comemos de nos fartar e ainda sobrou.

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Lago Caracaranã – Município de Normandia

Este é um lago sagrado para os povos do lavrado. A moldura de serras torna o lago de águas transparentes um lugar especial.

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Vida boa… lendo no lago… e ainda ganho para isso!!!

A noite é um grande espelho refletindo a vaidade da lua. De dia, refresco para os olhos e para o corpo. Parece perfeito.

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Apesar disso, com sua irreverência de sempre, Makunáima não deixaria um lugar assim sem algum tipo de “atrativo especial”. Carapanãs (pernilongos)? Muito banal. Piuns (a praga amazônica)? Muito previsível. Assim o criador dos seres do lavrado, de um passado distante nos envia as SOVELAS. Espécie de mosquito preto, bem comprido e bem fininho, não notamos a sua presença, até que… Ai! Isso dói! A sovela parece que não pica, mas, como dizer… cutuca! Espeta!. Você está sossegado e de repente, como do nada, sem zumbido ou aviso… ai! Lá vem uma cutucada! Parece uma agulha fininha, e de nada adiantam as roupas. Ele não respeita nem tecido, nem mesmo o das redes, cujos usuários, sem mosquiteiro, terão noites inquietas…. Ai!

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Aldeia Flexal – Município de Uiramutã

Vim conhecer um pequeno sítio arqueológico, ao lado de um riacho esquecido no lavrado. Mais do que um refresco para o calor, aqui artistas nos deixaram recado de seu mundo. Um telefone sem fio que tentamos, em vão, decifrar. Impressionado com o que vejo, volto no tempo.

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A pedra é dura, mas pacientemente a mão vence a rocha, buscando trazer forma para o que a mente pensa e quer dizer. A firmeza é vencida com delicadeza por círculos, peixes, losangos, uma espiral. As margens do riacho, que escorre indolente na proximidade da atual aldeia Flexal, se transformaram em caderno de escrita pré-histórica. Por que ali? Por que só ali? Não encontro respostas, por mais que tente escutar as pedras.

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Deito minha cabeça no centro do espiral, cavado há séculos de distância de mim. O rio canta, acompanhado do vento. De olhos fechados me transporto no tempo e sou eu raspando a pedra… raspando… raspando… Já não sei se o homem dominou a pedra, mas eu me sinto dominado, inquieto, em busca de um significado maior para o que vejo e não consigo decifrar. A serra tem muitos mistérios. 

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Aldeia Caraparu – Município de Uiramutã

São cinco e meia e já não temos mais pacientes. Me preparo para o banho, no banheiro público, que nas comunidades de Roraima se chamam “chafariz”. Não chove há muito tempo e uma brisa fresca empurra nuvens cinza diretamente para nós. Corro para o chafariz. As nuvens correm mais do que eu e resolvem iniciar meu banho antes da hora. Espero debaixo de um telhado para vencê-la – a chuva – pelo cansaço. O tempo passa. Cada vez que me preparo, a chuva aumenta sua força. Resolvo encarar. Pego um guarda-chuva emprestado e disparo para o chuveiro. O vento faz com que o guarda-chuva pouco valha, mas chego no chafariz. O banho está delicioso, e o som da água que cai supera o “pinga-pinga” da chuva, me fazendo crer que o aguaceiro passou. Desligo o chuveiro e percebo que o barulho continua tão forte quanto antes. Era a água da chuva que havia superado o “pinga-pinga” do chuveiro. Quando abro a porta o céu cinzento derrete ao meu redor, lavando a terra por todo lado. Não consigo abrir o guarda-chuva por causa do vento. Ai, ai, ai… Respiro fundo, desisto de guarda-chuva e de camisa, enrolo minhas coisas na toalha e corro. Ou tento correr, pois o chinelo prende na lama, me fazendo chafurdar… meus pés estavam tão limpinhos… Me consolo imaginando que lama faz bem para pele. A chuva fica ainda mais forte e começam a cair raios na hora que chego a casa que serve de cozinha. Confesso que não é uma sensação boa ver os raios brincando de pique nos céus quando minha proteção é uma casa de taipa. A equipe se divide. Uns oram, outros falam para fechar a janela para o raio não entrar. Uma lembra que temos que tampar os espelhos – mas não temos nenhum na cozinha. O café esquenta, a chuva aperta ainda mais e decidimos ir embora. Vamos de carro para o local onde dormimos, e os raios são tantos que parece desnecessário ligar o farol – a claridade faz crer que estamos de dia.

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Chove, chove, chove e continua a chover. Agora escrevo dentro da barraca. Os trovões cantam em voz grave, respondendo o coro de pingos no telhado de zinco. Hoje não tem morcego voando ou vacas passeando lá fora. O sono vai chegando. Aquecido, na barraca penso em vocês e escrevo esta história. A batalha nos céus ainda não acabou, mas quando acabar, quem vai vencer será a natureza, renovada após uma noite de lavar a alma.

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Boa noite e um abraço no coração!

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3 comentários em “Impressões Amazônicas 87”

  1. Querido! Meu município também tem preciosidades como o “Lago do Caracaranã” no qual passei parte de minha infância e adolescência visitando. Amo este lugar.

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