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Nem tudo são flores por aqui

Infelizmente, nem tudo é fácil. Tempestades amazônicas atrasam bastante o curso, além de impedir a vinda de alguns participantes. Um chefe chega de galocha. Outros que vem de uma comunidade indígena próxima, Filadélfia, tem que contornar um rio, transformando uma linha reta de vinte minutos em uma odisseia de mais de uma hora. Outros nem mesmo ousam sair de suas casas, diminuindo o público alvo, mas não tirando a animação dos participantes, que são de três diferentes cidades e de seis grupos.

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Despeço-me de Benjamin, na garupa do Valdir, indígena Marubo que me conta orgulhoso estar há cinco anos no Grupo Escoteiro de Atalaia do Norte. No caminho para o rio, ele decide abastecer a moto. Como não existem postos de gasolina, ele para em uma das várias barraquinhas familiares que vendem gasolina peruana no cocão. Cada cocão, cinco reais. O que é um cocão? Uma garrafa de dois litros de coca-cola… abastecida com um funil.

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Vai um “cocão” de gasolina?? Neste posto também tem “litrinho”.

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Meus amigo Jacaré e minha missão em Benjamin

Aliás… Encontrar Jacaré vale a ida a Benjamin. Vigia de escola, conselheiro tutelar e fundador de um grupo escoteiro, Jacaré, que um dia chamou-se André, tem o maior projeto social da região. Morador do bairro mais populoso e carente da cidade, Jacaré lembrou-se dos tempos de alegria no escotismo e começou a oferecer recreação para suas filhas e outras crianças nos seus momentos de folga. Logo começou a ser seguido por uma legião de infantes, vindo daí a piada: “Lá vai o Jacaré e seus jacarezinhos”. Pronto, logo estava funcionando o ProJac – Projeto Jacarezinho, não tão famoso quanto seu homônimo global, mas muito importante, levando diversão, valores, ocupação e educação para muitas crianças, que de outra forma teriam pouco mais a fazer do que nada fazer.

Minha missão é um curso para chefes escoteiros. Existem nesta região sete grupos ativos, e mais três em processo de abertura, sendo que cinco são formados apenas por indígenas da etnia Tikuna, e estão localizados dentro de suas comunidades. Por que tanto interesse? Fácil entender a preocupação de pais e professores: drogas, prostituição, alcoolismo, tráfico de mulheres são alguns dos termos cotidianos por aqui. O escotismo surge como uma opção para ocupação dos jovens utilizando um método baseado no aprendizado pela ação, em valores e uma série de atividades que permitem incorporarem o novo, sem deixarem de ser o que são, sem se descaracterizarem como indígenas e, especialmente, como Tikunas.

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Acima: Eu, Jacaré e sua esposa Josina, do Grupo Escoteiro Marecelo Maia e do Projac – Projeto Jacarezinho
Abaixo: Eu e Athos, Pastor e antigo Conselheiro Tutelar, que está abrindo o Grupo Escoteiro Filadélfia, na aldeia com o mesmo nome.

Encantos de Benjamin

E o que me encantou tanto nesta terra? Suas gentes, mistura de migrantes com os reservados Tikuna, orgulhosos guardiões de suas tradições, como sua língua, sem semelhantes em qualquer outro lugar. Gente meio anfíbia, que vive em palafitas, habituado a alagações, ao peixe frito do dia a dia, que planta quando o rio baixa e caça quando ele sobe. Gente que forjou o espírito no ritmo da natureza e, assim vive com um tempo próprio, que as vezes nos incomoda em nossa frenética pressa ocidental-capitalista, mas que está bem consigo mesmo. Gente que leva a vida sem muita preocupação além de comer, beber e ter onde dormir e criar os filhos. Gente para quem o perto chama-se Atalaia do Norte, que fica há pouco mais de 30 km, na única cidade onde se chega de carro, e onde hoje, se gasta uma hora para chegar pela quantidade de buracos. Gente para quem o mais longe que existe é Manaus, alguns dias de barco, Bogotá, com ótimos preços a partir da cidade colombiana Letícia e Iquitos, no Peru, que todo mundo já ouviu falar, mas ninguém nunca foi. Assim se resume o mundo nesta região.

Fico no Cabana’s, único hotel que merece de fato este nome por aqui. A beira de um lago, em seu restaurante mato a saudade do suco de araçá, da farofa de banana verde, chamada tacate, do pirarucu desfiado, da pupunha e do tempero puxado no açafrão. Para completar minha alegria, meu amigo Jacaré traz um saco de abiu e um grande cacho de mapati, a uva amazônica. O abiu cola a boca da gente até no sul do Brasil, mas o mapati… ah o mapati… delícia única, que não é comum nem mesmo pela Amazônia. É como uma grande uva preta, com casca grossa e repleta de sumo. Docinha, pode ser consumida in natura ou transformada em geleia ou licor… Já deu saudade!

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Patacáo, banana peruana verde, prensada, frita.

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Mapati, a deliciosa uva do Solimões.

Comércio em Benjamin Constant

Logo chegamos em Benjamin Constant. As bambolejantes passarelas parecem nos transportar. Emergimos da paz do rio grande e sereno para mergulhar na agitação da cidade. Cada loja expõe no menos espaço possível o maior número de roupas, bonés, brinquedos e refrigerantes multicoloridos, que formam padrões tão únicos quanto o de caleidoscópios. Roncos de motos, forró brasileiro, reggaeton colombiano e cumbia peruana marcam o ritmo enquanto as pessoas passam apressadas, pouco respeitando o primeiro e único sinal de trânsito da cidade. Morei aqui em 2005 e 2006. Aqui fiz bons amigos, aqui me iniciei na Amazônia, aqui me percebi com potencial de transformação do mundo, ainda que às custas de abrir mão de tanta coisa preciosa para mim.

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Fotos do IA 27

Estas são as fotos que acompanham o IA 27 (ver Impressões Integrais) Infelizmente não são as originais que acompanhariam o texto…perdidas no meu velho laptop):
1 – Vista da “beira” de Benjamin Constant, após reforma.
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2 – Produção Artesanal de Açaí – Foto do meu querido amigo Clauber.
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3 – Anciã tikuna pre
parando banana prensada. Uma delícia. Foto do amigo Cleber.
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4 – Olha o “barquinho” no porto de Tabatinga. Como o rio é sempre navegável, os portugueses e espanhois passavam por aí há mais de 300 anos.
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5 – Vista da “beira” de Tabatinga, após reforma.
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6 – Posto de Gasolina flutuante em Benjamin Constant.
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Somos Kalyente! Iquitos! Peru!

Encarei o Beer Dance da Dona Venância, para assistir o Kaliente. Se você nunca ouviu Kaliente, não sabe o que está perdendo. Esta banda de Iquitos, selva Peruana, tem um ritmo envolvente, e clipes sem igual. Sem igual de tão ruins… Eles ganhariam com facilidade os dez primeiros lugares nos “Piores Clipes da MTV”. Modelitos cafonérrimos, bailarinas “baleiarinas”, interpretações de clipes… cafajesticas… Terrível. Ao menos o som é bom, e tocaram das 22h30min as 4h da manhã sem parar. Eu desisti após a terceira vez que eles reiniciavam o repertório. Quem ficou garante que bailou sem parar com os vocalistas, baterista e um ótimo naipe de metais, que lotava o palco e fez com que uma amiga exclamasse assim que chegou no salão: “Nossa, nunca vi tanto homem feio junto em um palco só!!!” Coisas da selva…

Bati meus recordes: andar de moto, comer peixe e… banho gelado!

Sinto que está chegando a hora de ir embora de Benjamin Constant, e faço um balanço do que tenho feito. Pelo menos três coisas eu fiz muito mais aqui do que em toda a minha vida: andar de moto, comer peixe e tomar banho gelado.
* As motos foram veículo de tantas caronas e algumas “moto-taxeadas”. A região de Letícia + Tabatinga tem a maior concentração de motos por habitante do planeta. Está no Guiness.
* Os peixes foram alimento pelo menos três vezes por semana. Cozido, caldo, assado, pupeca… Tambaqui, pacu, matrinxã, surubim, bodó… Bom demais, e sem aquele gosto de terra que os peixes de rio tem no sul.
* O banho gelado, que considerava algo inimaginável se tornou um hábito.