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Tem uma ponte no meio do caminho… acredite

As vezes os caminhos na Serra são duros… se chove um pouco, logo sobem os rios… e se chove muito, ninguém passa… olhem o que acontece com a ponte.

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As pernas fracas de seu Hernesto

As vezes reclamamos das distâncias que percorremos para o trabalho ou estudo. Aqui tudo é mais difícil, além de não haver transporte público, o sol é equatorial, cega e esgota, e mesmo assim as pessoas não reclamam… ou reclamam pouco.
Um dos que reclamou foi seu Hernesto, professor de língua materna e que dá aula em duas comunidades diferentes. Ele sai da comunidade do Milho todo dia meio dia e dez, para chegar no Lago Grande após pedalar 40 minutos pelo lavrado. Veio a consulta pedir uma vitamina, pois sente fraqueza. Imaginem como deve ser quando ele está em forma…

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Até com chuva seu Hernesto tem que encarar a pedalada!

Este post faz parte das Impressões Integrais 92

Comunidade Bom Jesus… um pedacinho do paraíso

Na Aldeia Bom Jesus seu Dionísio é o tuchaua. Aqui ele “manda e faz chover”. Cansado das confusões na Raposa Serra do Sol, antes da demarcação, procurando um lugar sossegado para a família de muitos filhos, ele encontrou um lugarzinho escondido na Terra Indígena São Marcos.

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Nem todo mundo fica feliz com nosso trabalho… as crianças reclamam! kkk

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Cavalos do lavrado. Magrinhos, mas valentes!

A comunidade é longe, no meio do lavrado, mas aos poucos se tornou um refúgio para as dezenas de netos que brincam debaixo das árvores, comem frutas e correm atrás das galinhas.
– Quando cheguei aqui a vida era dura! – ele conta. – Mudou muito. Já temos escola pros pequenos, estamos construindo a dos mais velhos e já sonho com o telefone e a energia.
Um ônibus escolar parado debaixo da mangueira é motivo de orgulho.
– Minhas filhas tinham que ir “de perna”, debaixo do sol, por mais de uma hora para estudar em outra comunidade. Agora já temos até transporte escolar, enquanto a escola nova não fica pronta.
Na comunidade, todo mundo tem que andar na linha.
– Até um filho meu que não quis se acertar e brigava com a mulher nós mandamos embora – contou em tom sério. – Aqui seguimos a palavra de Deus, temos nossa igreja, ninguém pode beber e todos tem que se ajudar. Quem não quiser seguir, pode escolher um monte de outros lugares para morar.
Aos poucos seu Dionísio vai construindo seu paraíso na terra.

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Este post faz parte das Impressões Integrais 92

Conhecendo a paz na Aldeia Bom Jesus

Março de 2013 – Aldeia Bom Jesus
As horas escorrem vagarosas em Bom Jesus. Acabo de atender e passa pouco das três da tarde. O sol se esconde acima das árvores, galinhas ciscam entre as casas, rapazes jogam sinuca, passarinhos beliscam as mangas e pelo rádio o rei Roberto me diz que é O Cara. Com este sol a vida só existe sob a sombra, e é preguiçosa, muito preguiçosa. Estou tão perto da cidade e descubro, na tranquilidade, quem é o civilizado… que certamente não está na cidade. Jogo meu relógio no lixo, me sinto o senhor do tempo e permito que para mim, as horas também escorram vagarosas em Bom Jesus.

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Não sou do silêncio espaçado, mas das palavras que jorram

A ansiedade me faz andar, não muito certo sobre a direção da aldeia. Logo chega um indígena de bicicleta. “É o doutor?” ele me pergunta. Ele desce e começa a me acompanhar: “Estamos sem carro”. Pronto, explicado. Caminhamos por trinta minutos em silêncio após algumas explicações iniciais. É um povo habituado mais a silêncios do que a exclamações.

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Minha visita é breve, venho para uma avaliação dos programas de saúde, e logo é hora de ir. Todos se aproximam da porta do posto de saúde e se despedem. Percebo que agora é por minha conta até a pista. Por trinta minutos minha pele recebe o sol que acho que não recebeu em todo último mês. O caminho e tem poucas referências em meio às muitas as trilhas que se cruzam. Torço para estar na direção certa enquanto penso na imensidão do lavrado e na força dos que moram aqui. Aos poucos meu pensamento seca sob o sol. Meus lábios grudam e penso se conseguiria morar aqui. Não sou do silêncio espaçado, mas das palavras que jorram umas ao lado das outras.

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Penso que por vezes tenho que voltar aqui para aprender a silenciar, mas agradeço quando o avião pousa e  retorno a cidade. É hora de falar…

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