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Impressões do que li… National Geographic – Jan 2014

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Foi como reencontrar velhos amigos.
A National Geographic de janeiro traz uma reportagem incrível sobre os Kaiapó, povo guerreiro e animado, com quem eu tive o privilégio de conviver por dois anos.
Hoje os Kaiapó possuem terras indígenas cobrindo uma área maior do que o Estado de Pernambuco, onde fauna e flora estão preservados, apesar do avanço e da “fome” das mineradoras e do atual desenvolvimentismo brasileiro.

O texto de Chip Brown é enxuto e preciso. Mostra como os Kaiapó conseguem viver bem entre dois mundos. Na verdade eles conseguem, mesmo na cidade, mesmo quando assitem televisão, se manter como são: mebengokré, o povo do buraco do rio, orgulhoso de sua língua, de seus costumes, seus hábitos e suas tradições.

As fotos de Martin Schoeller são sensacionais, com retratos que mostram porque eu sempre os chamei de índios fashion. O Cacique Pukatire, citado e fotografado na reportagem, me fez vivenciar um dos momentos mais inusitados em minha saga amazônica, quando me acordou com o seguinte diálogo:

– Good morning, doctor!
– Good morning, cacique! – eu respondi.
– How are you?
– Fine Cacique. Thank you!
– Where is the money, doctor?
Eu dei risada, e sem perder o pique o cacique prosseguiu:
– Bon jour docteaur!
– Bon jour cacique, mais uma vez respondi.
– Comment allez vou, docteaur?
– Tre bien! – eu respondi rindo. E continuei – Cacique, o senhor está muito internaiconal, hein?
E eis que ele me responde:
– Pois é doutor. Estou com saudade de uma viagem para o exterior.

DSC02814Pedra de Kendjan, aparece na reportagem também. Terra do cacique Pukatire.

ia29 eEu atendendo nos anos que trabalhei com os Kaiapó. Aí na aldeia Kokraimoro. 2006 a 2008

Se ficou curioso, confira nas Impressões Integrais. Pode clicar AQUI!
A partir da Impressão Integral 29, começo a contar minha experiência com estes índios fashion!

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Uma super-dentista na saúde indígena

Minha amiga Flávia costuma dizer que um dos maiores privilégios do trabalho nas regiões mais distantes da Amazônia é conhecer um monte de gente interessante. São pessoas que abrem mão das suas rotinas, de seu conforto, da vida da cidade, para fazer um trabalho único, diferenciado, que por vezes consegue transformar não apenas uma pessoa, mas toda uma população.

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Nos meus anos de Amazônia, uma das pessoas que tive o privilégio de conhecer foi a dentista Dalila, que por nove anos trabalha com os Kaiapó. Quando estive por lá ela era responsável pela aldeia Moikarakô, e eu costumava dizer que podíamos reconhecer as crianças desta aldeia pelo seu sorriso.

Palestras, profilaxia nas casas, restauração, paciência mesmo diante das maiores necessidades de improviso. Tudo isso fazia parte das vivências que Dalila superava com um sorriso.

Aos poucos ela foi se apaixonando por eles de tal forma que se tornou uma índia loura. Mandou fazer um “vestidinho Kaiapó” branco para usar como uniforme, chamava as pessoas para atendimento com um berrante (não peguei esta época), traduziu músicas infantis para o Kaiapó e com elas ensinava as crianças a cuidarem dos dentes. Assim Dalila conquistou respeito e admiração dos desconfiados Kaiapó. Seu envolvimento era tão grande que em seu casamento, em São Félix do Xingu, a dama de honra e o pajém eram crianças Kaiapó completamente enfeitadas.

Ao seu lado a aldeia nunca havia silêncio, pois ela sempre estava pronta para conversar, contar um causo, falar da entrevista que um dia fará no Jô Soares, contando de suas aventuras nas aldeias.

Em 2014 os Kaiapó vão chorar de saudade, pois depois de nove anos, com planos de aumentar a família, ela deu adeus a vida em aldeia.
Sucesso Dalila. Sempre cito o seu trabalho como uma  referência em saúde bucal indígena. Tenho certeza de que o sucesso será semelhante na cidade.

 Dalila se despedindo da aldeia, que foi sua morada por 9 anos.

Moradores da área de Belo Monte ficam sem indenização

Eu prefiro manter meu brado de protesto que um lamento conformista. Gasto minha energia sem pena, pois esta é renovável de fato, como o rio, novo a cada instante.
Crescimento a qualquer custo…. Para quem? Os beneficiados será os grandes de sempre, já desenvolvidos e ricos. As políticas para os menos favorecidos só surgem quando estes começam a incomodar, respingar em quem está por cima.
Toda danação – miséria, prostituição, violência, desequilíbrio social – estará bem longe de nós. Tapajós, Xingu, Teles Pires são tão longe quanto Biafra ou Somália. Não dizem nada, além de um ponto no mapa para a maioria dos brasileiros..
É como diz Mark Zuckerberg, criador do Facebook: “Um esquilo morrendo na frente de sua casa pode ser mais relevante para você neste momento do que as pessoas morrendo na África”.

Altamiro

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05/08/2012 – 06h30
http://www1.folha.uol.com.br/mercado/1132069-moradores-da-area-de-belo-monte-ficam-sem-indenizacao.shtml

AGUIRRE TALENTO
ENVIADO ESPECIAL A ALTAMIRA E VITÓRIA DO XINGU (PA)

A agricultora Maria das Graças Militão, 40, lucrava até R$ 8.000 por semana com a produção de cacau de sua fazenda, onde estão hoje as obras da futura terceira maior hidrelétrica do mundo: Belo Monte, em Vitória do Xingu (a 945 km de Belém).

Expulsa de sua casa em fevereiro por uma decisão judicial de desapropriação obtida pela Norte Energia, empresa responsável por Belo Monte, a agricultora não recebeu dinheiro nem outra casa. "Entraram com os tratores e derrubaram nossa horta", diz.

Como seu título de terra estava duplicado -outra pessoa tinha registro da mesma propriedade-, a empresa parou a negociação e acionou a Justiça para expulsá-la. Sem renda fixa, Militão vive na casa de um amigo e vendeu o carro para sustentar o marido e quatro filhos.

A situação tem se repetido. Em tese, as famílias afetadas por Belo Monte devem receber uma indenização em dinheiro ou ser reassentadas.

Mas há vários casos de famílias removidas sem compensação e que se dizem até ameaçadas a aceitar a proposta da Norte Energia. "Os técnicos diziam a elas: ‘Ou você aceita ou vai para a rua e briga na Justiça’", afirma a defensora pública Andréia Barreto. Segundo ela, as ofertas são baixas e desconsideram algumas posses dos moradores….

Veja a matéria completa em: http://www1.folha.uol.com.br/mercado/1132069-moradores-da-area-de-belo-monte-ficam-sem-indenizacao.shtml

Vamos correr ao menos um pouquinho…

Ele conta de suas viagens e palestras pelo mundo, muitas juntas com o roqueiro Sting. Pergunto de que país gostou mais: " Japão.Todo mundo correndo. Até os mais velhos correm com suas pastas de trabalho. Aquilo me incomodou, mas depois perguntei porque eles corriam tanto. Ouvi que tinham muito trabalho a fazer e por isso o país era tão avançado. Gostei. Índio tinha que correr pelo menos um pouquinho."

Rio Vermelho (151)

Este post faz parte das Impressões Integrais 83

Um indígena entre dois mundos

Payakan transita com facilidade entre dois mundos. Preserva tradições e aproveita a modernidade. Cedo falava via rádio com a filha sobre desbloqueio de cartão e a faculdade (ela estuda Relações Exteriores). Logo depois, ele, que anda pintado, emitia um grito agudo a beira do rio comunicando sua saída para a caça.

As refeições são momentos de conversa, e me conscientizo de que, pela primeira vez estou na intimidade de um grande líder. Payakan fala sobre sua visão de mundo, de como a floresta é importante para todos os seres vivos; índios, brancos, animais, insetos. Conta que os jornalistas às vezes entendem errado e escrevem mesmo assim. Diz que o mais importante é preparar o Kaiapó. " Não basta ensinar a gostar de café. Tem que ensinar a preparar, usar garrafa, tomar e depois lavar tudo. Kaiapó tem que aprender a ler e escrever, tem que aprender inglês. Tem que usar rádio, lancha, mas sempre lembrar que tudo isso deve ser em proveito da comunidade e não por uso pessoal."

Rio Vermelho (41) Mistura perfeita… rede e barraca sobre estrado… O novo se mistura ao tradicional.

Este post faz parte das Impressões Integrais 83

Pescaria com o cacique

Payakan me convida para pescar. Fui e não me arrependi. Aprendi sobre frutos do cerrado, vi rastros de anta, tracajás (tartarugas de rio) boiando e poraquês (peixe-elétrico) subindo a tona. Mergulhei na Amazônia. De cada peixe pescado (um tucunaré e um trairão) Payakan tirava um pedaço de carne com gordura atrás da cabeça e devolvia para o rio. Ele me ensina: "Temos que usar a sabedoria dos kuben (brancos) e a sabedoria dos kaiapó. Isto é inteligência. Agradeço ao rio devolvendo parte do que ele me oferece, mas uso equipamento bom". Vejo isto na prática: molinete, alicate Coleman, peixe atraído com fruta, pendurado em galho, limpo na hora a moda indígena. Depois,tudo limpo, seco e arrumado. Quem ensina quem, cara pálida?

Rio Vermelho (120) Frutinhas para chamar os peixes.

Rio Vermelho (109)Paciência.

Rio Vermelho (128) Sucesso.

Rio Vermelho (123)

Tucunaré sem o pedaço que voltou para o rio. Agradecimento..

Este post faz parte das Impressões Integrais 83