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Bioproteção nas Aldeias

As vezes as pessoas acham que só por estarmos trabalhando em aldeias, não é necessário bioproteção. Isso é que não. Vejam o cuidado para a realização dos testes rápidos de HIV, sífilis e Hepatite.

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Pode ser na malocas mais simples, mas tudo tem que ser bem feito.

Comunidade Bom Jesus… um pedacinho do paraíso

Na Aldeia Bom Jesus seu Dionísio é o tuchaua. Aqui ele “manda e faz chover”. Cansado das confusões na Raposa Serra do Sol, antes da demarcação, procurando um lugar sossegado para a família de muitos filhos, ele encontrou um lugarzinho escondido na Terra Indígena São Marcos.

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Nem todo mundo fica feliz com nosso trabalho… as crianças reclamam! kkk

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Cavalos do lavrado. Magrinhos, mas valentes!

A comunidade é longe, no meio do lavrado, mas aos poucos se tornou um refúgio para as dezenas de netos que brincam debaixo das árvores, comem frutas e correm atrás das galinhas.
– Quando cheguei aqui a vida era dura! – ele conta. – Mudou muito. Já temos escola pros pequenos, estamos construindo a dos mais velhos e já sonho com o telefone e a energia.
Um ônibus escolar parado debaixo da mangueira é motivo de orgulho.
– Minhas filhas tinham que ir “de perna”, debaixo do sol, por mais de uma hora para estudar em outra comunidade. Agora já temos até transporte escolar, enquanto a escola nova não fica pronta.
Na comunidade, todo mundo tem que andar na linha.
– Até um filho meu que não quis se acertar e brigava com a mulher nós mandamos embora – contou em tom sério. – Aqui seguimos a palavra de Deus, temos nossa igreja, ninguém pode beber e todos tem que se ajudar. Quem não quiser seguir, pode escolher um monte de outros lugares para morar.
Aos poucos seu Dionísio vai construindo seu paraíso na terra.

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Este post faz parte das Impressões Integrais 92

Não sou do silêncio espaçado, mas das palavras que jorram

A ansiedade me faz andar, não muito certo sobre a direção da aldeia. Logo chega um indígena de bicicleta. “É o doutor?” ele me pergunta. Ele desce e começa a me acompanhar: “Estamos sem carro”. Pronto, explicado. Caminhamos por trinta minutos em silêncio após algumas explicações iniciais. É um povo habituado mais a silêncios do que a exclamações.

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Minha visita é breve, venho para uma avaliação dos programas de saúde, e logo é hora de ir. Todos se aproximam da porta do posto de saúde e se despedem. Percebo que agora é por minha conta até a pista. Por trinta minutos minha pele recebe o sol que acho que não recebeu em todo último mês. O caminho e tem poucas referências em meio às muitas as trilhas que se cruzam. Torço para estar na direção certa enquanto penso na imensidão do lavrado e na força dos que moram aqui. Aos poucos meu pensamento seca sob o sol. Meus lábios grudam e penso se conseguiria morar aqui. Não sou do silêncio espaçado, mas das palavras que jorram umas ao lado das outras.

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Penso que por vezes tenho que voltar aqui para aprender a silenciar, mas agradeço quando o avião pousa e  retorno a cidade. É hora de falar…

Este post faz parte das Impressões Integrais 92

CONGRESSO NACIONAL.: EFETIVAÇÃO DOS PROFISSIONAIS DA SAÚDE INDÍGENA NO BRASIL.

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Por que isto é importante

A 5ª Conferência Nacional de Saúde Indígena (CNSI) foi convocada pela Portaria nº 2.357/GM/MS, de 15 de dezembro de 2012, tendo como objetivo aprovar diretrizes para as políticas de saúde executadas nas aldeias, por parte dos 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI) que integram o Subsistema de Atenção à Saúde Indígena no SUS (SasiSUS), sendo também um espaço para debates sobre a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas.
Atualmente, além dos trabalhadores efetivos do quadro do Ministério da Saúde/ Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) em exercício nos DSEI, existem mais de quinze mil profissionais contratados por entidades privadas conveniadas, através de regime CLT,e contratados por processo seletivo CTU – que já fazem parte do quadro do ministério da saúde – sendo que parte desses profissionais atua junto às comunidades indígenas há mais de dez anos, sem nenhuma garantia de estabilidade, o que não raro ocasiona rotatividade de profissional, gerando os chamados “vazios assistenciais” (locais com carência de profissionais de saúde).
A rotatividade de profissionais compromete o estabelecimento de "vínculos" entre as comunidades indígenas e as Equipes Multidisciplinares de Saúde Indígena (EMSI). Outro prejuízo ocasionado pela falta de estabilidade é o ônus financeiro ao SasiSUS, devido à necessidade permanente de investimento em capacitações de novos profissionais contratados para recompor as EMSI.
As capacitações se justificam pela necessidade de preparar os profissionais para, além de garantir o cuidado integral à saúde dos indígenas, atuarem em contexto intercultural, observando as práticas de saúde e as medicinas tradicionais, garantido o respeito às especificidades culturais.
Esses profissionais que compõem as EMSI trabalham em regime de dedicação exclusiva, sendo que a maioria atua na região da “Amazônia Legal”, em áreas de difícil e/ou dificílimo acesso, onde os meios de transporte são predominantemente fluviais ou aéreos, obedecendo a escalas de “entradas nas áreas”, onde permanecem em média um mês longe de seus familiares, se expondo diuturnamente a riscos de acidentes diversos, como acidentes por ataques de animais silvestres e peçonhentos, além dos acidentes fluviais e aéreos, que vem ceifando as vidas desses valorosos e abnegados profissionais, que normalmente são “arrimo de família”, de cujos pais/mães, companheiros (as), filhos (as), além de sofrerem a perda do ente querido, ficam desamparadas financeiramente.
Dessa forma, contamos com vossa sensibilidade e senso de justiça, para defender junto ao Congresso Nacional, Ministério da Saúde e Ministério do Planejamento Orçamento e Gestão (MPOG), as propostas e moções aprovadas na 5ª Conferência Nacional de Saúde Indígena (CNSI), que buscam estabelecer mecanismos diferenciados de trabalho aos profissionais do quadro de pessoal da Saúde Indígena, bem como minimizar as dificuldades de fixação desta força de trabalho no interior do país e em áreas de difícil acesso, garantindo incentivos ou benefícios aos médicos e outros profissionais de saúde que trabalham dentro dos territórios indígenas (aldeias) ou que permanecem em área indígena por período prolongado, conforme relacionado a seguir:
1. Criação de PEC ou PLP, para efetivação dos profissionais que atuam no SasiSUS; atualmente contratados via CLTe\ou CTU (a exemplo do que foi feito para os Agentes Comunitários de Saúde Indígena).

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Aldeia também tem Educação Alimentar

Não é somente nas cidades que a Educação Alimentar é importante. As populações indígenas no Brasil sofrem de doenças comuns no meio urbano, como a hipertensão, obesidade e diabetes, ao mesmo tempo que mantém índices elevados de desnutrição.

Assim nas aldeias o trabalho é feito por enfermeiros, médicos e nutricionistas, pois o que importa é saber o que comer, valorizando os produtos regionais e deixando de lado os que não trazem maiores benefícios.

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Nutricoinista Patrícia ensinando os meninos Ingaricó da Aldeia Serra do Sol a construírem a Pirâmide Alimentar.

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Uma super-dentista na saúde indígena

Minha amiga Flávia costuma dizer que um dos maiores privilégios do trabalho nas regiões mais distantes da Amazônia é conhecer um monte de gente interessante. São pessoas que abrem mão das suas rotinas, de seu conforto, da vida da cidade, para fazer um trabalho único, diferenciado, que por vezes consegue transformar não apenas uma pessoa, mas toda uma população.

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Nos meus anos de Amazônia, uma das pessoas que tive o privilégio de conhecer foi a dentista Dalila, que por nove anos trabalha com os Kaiapó. Quando estive por lá ela era responsável pela aldeia Moikarakô, e eu costumava dizer que podíamos reconhecer as crianças desta aldeia pelo seu sorriso.

Palestras, profilaxia nas casas, restauração, paciência mesmo diante das maiores necessidades de improviso. Tudo isso fazia parte das vivências que Dalila superava com um sorriso.

Aos poucos ela foi se apaixonando por eles de tal forma que se tornou uma índia loura. Mandou fazer um “vestidinho Kaiapó” branco para usar como uniforme, chamava as pessoas para atendimento com um berrante (não peguei esta época), traduziu músicas infantis para o Kaiapó e com elas ensinava as crianças a cuidarem dos dentes. Assim Dalila conquistou respeito e admiração dos desconfiados Kaiapó. Seu envolvimento era tão grande que em seu casamento, em São Félix do Xingu, a dama de honra e o pajém eram crianças Kaiapó completamente enfeitadas.

Ao seu lado a aldeia nunca havia silêncio, pois ela sempre estava pronta para conversar, contar um causo, falar da entrevista que um dia fará no Jô Soares, contando de suas aventuras nas aldeias.

Em 2014 os Kaiapó vão chorar de saudade, pois depois de nove anos, com planos de aumentar a família, ela deu adeus a vida em aldeia.
Sucesso Dalila. Sempre cito o seu trabalho como uma  referência em saúde bucal indígena. Tenho certeza de que o sucesso será semelhante na cidade.

 Dalila se despedindo da aldeia, que foi sua morada por 9 anos.

Hoje é fácil, mas os mais novos acham tudo difícil.

Se Rosely tem o olhar adiante e Eleniza os pés em dois tempos, dona Maria Oneide tem raízes no passado. Com seus setenta anos, tem consciência das mudanças que não aprova quando pergunto do trabalho duro de seu tempo – mudanças de comportamento.
– Antes a gente andava na pernada, com jamaxi carregado de mandioca, lenha, batata e ainda com criança no peito. Hoje as meninas só querem andar de carro, não querem andar nem para estudar, e se não tem condução, não vão pra aula. Hoje é fácil, mas os mais novos acham tudo difícil.

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Este post é parte das Impressões Integrais 89