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Impressões da culinária paraense

Para os que não conhecem a deliciosa comida paraense, maniçoba é o prato mais desafiante da culinária brasileira, pelo seu aspecto e história. Até para os apreciadores, como eu, a maniçoba não é uma refeição nada bonita, um misto de lama com terra preta, daquelas onde esperamos encontrar caranguejos, ou seja, uma refeição com cara de mangue. No meio deste mangue encontramos os “pertences”, como em uma feijoada: paio, linguiça, partes de porco e as vezes carne de sol. Este mangue é como um mingau grosso feito da maniva, a folha da mandioca. E aí entra a história incrível. Para eliminar todo ácido das folhas, que é altamente venenoso, a maniva deve ser cozida por sete dias. Sete dias! Como alguém inventou isso? Algum dia alguém cismou que queria comer a folha e tome de cozinhar… O detalhe é que não provou, mas colocou os outros para provarem – e morrerem – em seu lugar, até que um dia alguém disse… “Está feio, mas está no ponto”. Pronto. Estava inventada a maniçoba.

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Maniçoba com arroz

Mas se você é menos radical, vamos de arroz paraense, que é arroz feito no molho do tucupi com jambu, a deliciosa folhinha paraense que anestesia a língua e acompanhado de camarão. Bom, bonito e muito gostoso.

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Maniçoba com arroz.
Ao lado bolinho feito com farinha de piracuí, feita de peixe seco. Delícia paraense!

Este post é parte das Impressões Integrais 96 – Clique e leia o texto na íntegra.

Impressões de Santarém–primeira parte

Chegamos em Santarém a noite, e o estômago já dá sinais de vida. A solução foi virmos direto a orla, onde encontramos o Massabor, pizzaria que se espalha em um píer por sobre as águas calmas e verdes do rio Tapajós e que também oferece pratos regionais. Como já estamos habituados com pizza, preferimos os sabores locais e vamos de maniçoba com arroz paraense, embalados por uma bela seleção de MPB, o que é uma grata surpresa para quem imaginava só escutar tecnobrega, forró e o onipresente sertanejo.

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Restaurante no Pier e vista noturna de Santarém

Este post é parte das Impressões Integrais 96 – Clique e leia o texto na íntegra.

Pedalada inspiradora–Louise Sutherland

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Ela era a mais velha de cinco irmãs na Nova Zelândia. Na idade de 19, tendo crescido com a bicicleta como principal meio de transporte, ela se mudou para Hospital Oamaru para cursar quatro anos de formação em enfermagem. Para visitar seus pais em Dunedin,ela pedalava durante 7 horas, percorrendo 100 km; este foi o início de seu gosto por aventuras com ciclismo de longa distância.

Em 1945, os Otago Daily Times relatou que Louise Sutherland tinha completado um passeio de 700 km de Dunedin a Invercargill para visitar um tio e também voltara pedalando, apesar de ser o início de um forte inverno na região. Com a idade de 21 anos, Louise Sutherland estava fazendo viagens de bicicleta regulares, como o roteiro de 6 dias ‘Mount Cook trip’.

Em 1949, trabalhando como enfermeira em Londres, Louise realizou o circuito Land’s End, Cornwall. No entanto, essa viagem foi só a inspiração para uma viagem muito maior e mais pela Europa e na Índia. Tudo isso foi feito com uma bicicleta comprada em um bazar por £2.10. Mais tarde, suas bicicletas foram patrocinadas Raleigh (1950 e 1960) e, em seguida, Peugeot (1970).

Em 1978, aos 52 anos,apesar de ainda saber relativamente pouco sobre mecânica de bicicletas, não sabia ao menos consertar um pneu furado, Louise Sutherland partiu sozinha em uma viagem de 4,400 km pela Transamazônica. O roteiro auto-planejado era muito mais duro do que qualquer Tour de France, algo que muitos consideravam "impossível!" Especialmente  se considerarmos que grande parte da Rodovia Transamazônica havia sido recentemente construída. Ela foi a primeira pessoa a percorrer a rota e escreveu um livro sobre sua viagem, apropriadamente intitulado, The Impossibel Ride( Amazônia, A Viagem Quase Impossível, na versão brasileira).

Em sua vida Louise Sutherland pedalou mais de 60 000 km através de 54 países. Durante suas viagens de bicicleta e da carreira de enfermagem, Louise Sutherland demonstrou uma crença no melhor da natureza humana, especialmente dos povos indígenas que ela conheceu. Ela passou muitos anos levantando dinheiro para a assistência médica das pessoas que vivem na Floresta Amazônica e esses esforços foram reconhecidos oficialmente. Em 1991, Louise Sutherland tornou-se o primeiro estrangeiro a receber o Prêmio Golden Fish por serviços prestados ao Brasil e, em 1993, o Governador Geral da Nova Zelândia concedeu-lhe a Medalha de Serviço da Rainha por seus esforços na obtenção de ajuda para as pessoas no Peru e no Brasil.

Eu li o livro desta viagem, Amazônia, A Viagem Quase Impossível. Fiquei impressionado! Como ela conseguiu ir tão longe? Além de otimista incansável, capaz de interagir com tudo e todos pelo caminho, Louise vinha com um bom humor que abriu portas e – literalmente – porteiras. Onças, indígenas, garimpos, jagunços, buracos-crateras. Tudo estava em seu caminho. Livro que vale a pena para quem se interessa pela Amazônia da década de 70, tão diferente da de hoje.

Para quem ficou curioso:
Amazônia – A Viagem Quase Impossível
Editora Totalidade
1992

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Impressões do que li… National Geographic – Jan 2014

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Foi como reencontrar velhos amigos.
A National Geographic de janeiro traz uma reportagem incrível sobre os Kaiapó, povo guerreiro e animado, com quem eu tive o privilégio de conviver por dois anos.
Hoje os Kaiapó possuem terras indígenas cobrindo uma área maior do que o Estado de Pernambuco, onde fauna e flora estão preservados, apesar do avanço e da “fome” das mineradoras e do atual desenvolvimentismo brasileiro.

O texto de Chip Brown é enxuto e preciso. Mostra como os Kaiapó conseguem viver bem entre dois mundos. Na verdade eles conseguem, mesmo na cidade, mesmo quando assitem televisão, se manter como são: mebengokré, o povo do buraco do rio, orgulhoso de sua língua, de seus costumes, seus hábitos e suas tradições.

As fotos de Martin Schoeller são sensacionais, com retratos que mostram porque eu sempre os chamei de índios fashion. O Cacique Pukatire, citado e fotografado na reportagem, me fez vivenciar um dos momentos mais inusitados em minha saga amazônica, quando me acordou com o seguinte diálogo:

– Good morning, doctor!
– Good morning, cacique! – eu respondi.
– How are you?
– Fine Cacique. Thank you!
– Where is the money, doctor?
Eu dei risada, e sem perder o pique o cacique prosseguiu:
– Bon jour docteaur!
– Bon jour cacique, mais uma vez respondi.
– Comment allez vou, docteaur?
– Tre bien! – eu respondi rindo. E continuei – Cacique, o senhor está muito internaiconal, hein?
E eis que ele me responde:
– Pois é doutor. Estou com saudade de uma viagem para o exterior.

DSC02814Pedra de Kendjan, aparece na reportagem também. Terra do cacique Pukatire.

ia29 eEu atendendo nos anos que trabalhei com os Kaiapó. Aí na aldeia Kokraimoro. 2006 a 2008

Se ficou curioso, confira nas Impressões Integrais. Pode clicar AQUI!
A partir da Impressão Integral 29, começo a contar minha experiência com estes índios fashion!

Time indígena disputa primeira divisão do futebol paraense com direito a artilheiro pintado e torcida de cocar

O clima nas arquibancadas foi de rara harmonia durante a partida de estreia do Campeonato Paraense, entre Paysandu e Gavião Kyikatejê, que terminou com vitória por 2 a 1 da equipe da capital paraense Belém. Entre os cerca de 1,7 mil torcedores que encararam a tarde chuvosa para ir ao estádio da Curuzu, havia cerca de cem torcedores da aldeia. No intervalo, os índios foram "tietados": todo mundo queria tirar foto com eles. O clima era descontraído entre os torcedores, como dificilmente se vê em partidas de futebol.

Torcida do Gavião Kyikatejê apoia o time na Curuzu Foto: Filipe Faraon / Especial para TerraTorcida do Gavião Kyikatejê apoia o time na CuruzuFoto: Filipe Faraon / Especial para Terra

Ligado a uma organizada do Paysandu, Gabriel Monteiro atravessou o estádio todo para ficar perto dos Kyikatejê, mas ele estava mais interessado nas meninas. "Antes do jogo a gente veio dar uma olhada, para saber se estava valendo. A gente voltou agora e eu estou a fim de casar com uma índia agora", brinca o adolescente. "O problema é que as mães delas são meio brabas", lamenta.

O clima amistoso entre as torcidas facilitou o trabalho da Polícia Militar. Mesmo assim, o major Prata, responsável pela segurança da partida, preferiu não facilitar e proibiu o encontro de torcidas durante a partida. Fotos só antes, no intervalo e no final. "Na hora do jogo vêm comentários, eles (os índios) são espalhafatosos e gritam muito, é melhor separar. Até porque para a gente seria muito complicado atuar numa situação de briga", explica.

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Em termos de animação e xingamentos, a torcida indígena é igual qualquer outra. A diferença é o apoio feminino. Mulheres não cansam de gritar, enquanto que homens ficam mais contidos, tensos. "É assim, mas os homens é que gostam mais de futebol", garante Krei Galvão, líder da aldeia que estava acompanhado dos quatro filhos e da esposa.

Krei se espantou com o assédio da torcida adversária para tirar fotos. Na primeira fase do Campeonato Paraense, o clima não era tão amistoso assim. "Em Tucuruí, quase sai briga", lembra.

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O próximo jogo do Kyikatejê é na quarta-feira, contra o Cametá. Como o município da aldeia, São Jesus do Tocantins, não tem estádio, os jogos em casa são na cidade de Marabá, a cerca de 60 km.

Especial para Terra
http://esportes.terra.com.br/paysandu/artilheiro-pintado-marca-mas-1-time-indigena-perde-para-paysandu,452753dd6b883410VgnVCM20000099cceb0aRCRD.html

Uma super-dentista na saúde indígena

Minha amiga Flávia costuma dizer que um dos maiores privilégios do trabalho nas regiões mais distantes da Amazônia é conhecer um monte de gente interessante. São pessoas que abrem mão das suas rotinas, de seu conforto, da vida da cidade, para fazer um trabalho único, diferenciado, que por vezes consegue transformar não apenas uma pessoa, mas toda uma população.

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Nos meus anos de Amazônia, uma das pessoas que tive o privilégio de conhecer foi a dentista Dalila, que por nove anos trabalha com os Kaiapó. Quando estive por lá ela era responsável pela aldeia Moikarakô, e eu costumava dizer que podíamos reconhecer as crianças desta aldeia pelo seu sorriso.

Palestras, profilaxia nas casas, restauração, paciência mesmo diante das maiores necessidades de improviso. Tudo isso fazia parte das vivências que Dalila superava com um sorriso.

Aos poucos ela foi se apaixonando por eles de tal forma que se tornou uma índia loura. Mandou fazer um “vestidinho Kaiapó” branco para usar como uniforme, chamava as pessoas para atendimento com um berrante (não peguei esta época), traduziu músicas infantis para o Kaiapó e com elas ensinava as crianças a cuidarem dos dentes. Assim Dalila conquistou respeito e admiração dos desconfiados Kaiapó. Seu envolvimento era tão grande que em seu casamento, em São Félix do Xingu, a dama de honra e o pajém eram crianças Kaiapó completamente enfeitadas.

Ao seu lado a aldeia nunca havia silêncio, pois ela sempre estava pronta para conversar, contar um causo, falar da entrevista que um dia fará no Jô Soares, contando de suas aventuras nas aldeias.

Em 2014 os Kaiapó vão chorar de saudade, pois depois de nove anos, com planos de aumentar a família, ela deu adeus a vida em aldeia.
Sucesso Dalila. Sempre cito o seu trabalho como uma  referência em saúde bucal indígena. Tenho certeza de que o sucesso será semelhante na cidade.

 Dalila se despedindo da aldeia, que foi sua morada por 9 anos.

Encerrando a série do Marajó

Tudo bem, já está na hora de mudar o tema… a Amazônia é grande… mas o Marajó rendeu fotos que ficaram fora de qualquer classificação e não gostaria de deixar de postar.

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Praia de Joanes

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Igrejinha de Salvaterra

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Búúúúúúúfalos!

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Gaivotaaaaaas!!!

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Dois troncos de mangue que se abraçam!

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Praia de Pesqueiro

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Obrigado Marajó!!!

Este post faz parte das Impressões Integrais 90