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Não sou do silêncio espaçado, mas das palavras que jorram

A ansiedade me faz andar, não muito certo sobre a direção da aldeia. Logo chega um indígena de bicicleta. “É o doutor?” ele me pergunta. Ele desce e começa a me acompanhar: “Estamos sem carro”. Pronto, explicado. Caminhamos por trinta minutos em silêncio após algumas explicações iniciais. É um povo habituado mais a silêncios do que a exclamações.

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Minha visita é breve, venho para uma avaliação dos programas de saúde, e logo é hora de ir. Todos se aproximam da porta do posto de saúde e se despedem. Percebo que agora é por minha conta até a pista. Por trinta minutos minha pele recebe o sol que acho que não recebeu em todo último mês. O caminho e tem poucas referências em meio às muitas as trilhas que se cruzam. Torço para estar na direção certa enquanto penso na imensidão do lavrado e na força dos que moram aqui. Aos poucos meu pensamento seca sob o sol. Meus lábios grudam e penso se conseguiria morar aqui. Não sou do silêncio espaçado, mas das palavras que jorram umas ao lado das outras.

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Penso que por vezes tenho que voltar aqui para aprender a silenciar, mas agradeço quando o avião pousa e  retorno a cidade. É hora de falar…

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Mooko Kaipita, os irmãos transformados em pedra por Makunaima

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A pedra se destaca na paisagem, com duas rochas que se sobressaem no lavrado, próximo da aldeia Placas, no município de Uiramutã.

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Na medida que nos aproximamos, a pedra parece nos cumprimentar com a saudação Heavy Metal, como se estivesse com o segundo e o quinto dedo levantados.

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Segundo os Macuxi, a “pedra gêmea” na verdade são dois irmãos transformados em pedra por Makunaima: Faipita e Pé de Pua. O conjunto é conhecido como Mooko Kaipita.

A despedida da Cruz Peregrina

No dia seguinte, cedo, sou acordado com a última missa. Logo a cruz peregrina até a entrada da aldeia. Lá ela é desmontada cuidadosamente e embalada dentro da pick-up, dirigida pelos padres. Em uma seguem a cruz e a bagagem dos participantes do Grupo de Jovens que trabalha na peregrinação. Na outra, a caçamba vira carro de som, e os hinos são cantados ao vivo, com acompanhamento de violão e muita alegria. A Cruz, embalada, está pronta para seguir seu caminho, que hoje já não é mais a pé, como nas antigas procissões, mas motorizado. Junto com ela segue a esperança e os sonhos de um povo sofrido e que espera dias melhores. Fé, emoção e sonhos se misturam a poeira, suor e calor no lavrado de Roraima.

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Filosofando sob as estrelas

Depois meu pensamento questiona as motivações da fé para este povo.
Será a vontade de adorar? Quem será, para eles, este Cristo que talvez se confunda com as crenças dos antepassados, contadas de boca a ouvido, em noites ao pé do fogo e família reunida, momentos que não voltam mais nas aldeias invadidas pela energia e violentadas pela televisão.
Será o sonho de uma vida melhor? Aqui ou na cidade? O que é uma vida melhor? Cada sociedade tem os problemas que merece, os dramas que necessita, as violências que tolera. Não adianta mudarmos de lugar achando que tudo vai mudar, se quem precisa de mudanças somos nós mesmos, para encontrarmos a vida melhor dentro da gente.
A esperança de dinheiro? Quem sabe aposentadoria ? – pode ajudar a comprar um rádio novo ou o refrigerante para o bolo do neto. Aqui, aposentar não é parar de trabalhar, pois o trabalho, para quem é da roça, não há de acabar nunca.
Tantas esperanças entregues em oferenda nas três missas que se seguem… A saúde do pai, o bom parto da filha, o emprego do marido, a boa morte do avô. Um mundo sem canaimé.

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Crianças brincando na aldeia

Não posso esperar a Cruz. Tenho atendimento marcado na aldeia Triunfo, distante cerca de meia hora de carro. A noite vão acontecer missas e espero poder participar.
Além do religioso, a passagem da Cruz Peregrina é um acontecimento social no lavrado, reunindo parentes de várias aldeias. “Bem vindos a Comunidade Indígena Pedra Branca”, saúda a placa. Roupa de festa, camisa social, batom vermelho-paixão, sapato envernizado, laço de fita no cabelo. Parentes se encontram, negociam, conversam, namoram. Festa para os adultos, festa para as crianças: onde ontem brincavam dez, correndo atrás dos passarinhos, hoje brincam dezoito. Se seis meninas jogavam bola, agora são mais de onze, numa festa de gente nova.

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Lá vem a Santa Cruz Peregrina

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– Doutor, lá vem a Santa Cruz Peregrina!
Em cada aldeia, a Peregrina chega e a comunidade sai para recebê-la. A entrada da aldeia está repleta de gente. Cruzes miúdas enfeitam pescoços, outras maiores ocupam as mãos de quem até bem pouco segurava estilingues e as grandes indicam bênçãos recebidas – ou promessas sendo quitadas.

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