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Impressões Épicas da Comic Con 2016

Vocês podem não acreditar, mas acabo de tirar uma foto com Wolverine. E logo depois com Batman, Indiana Jones, Coringa e até mesmo com os Power Rangers. Não estou sonhando, nem mesmo delirando. Estou na Comic Com Experience, maior evento brasileiro nerd, geek, pop ou como queira rotular.

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Eu com meus amigos, Logan e Indiana.

                E não pense que sou só eu e meus filhos, Kim e Marcos. Este ano 196 mil pessoas se espalham e fazem filas intermináveis para conhecer os lançamentos de filmes e séries para 2017, comprar quadrinhos nacionais e internacionais editados por gigantes do mercado, como a DC e a Marvel ou por independentes de todo o Brasil na Artists´ Alley – Beco dos Artistas. Este é inclusive um dos pontos fortes. Mais de 200 expositores se espalham pela área central, lado a lado, dando oportunidade a todos de ver e ser visto, me animando a sonhar com Japinha e Curumim e toda a turma do Balaio Quadrado por ali ao lado de tantos feras.

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Pude encontrar vários feras que admiro muito. Taí o mestre Ernani Cousandier, de Nenhum dia sem um traço e de Menegato.

                Aproveitamos para nos divertir. No stand da Fini os meninos tentam pegar pacotes em gruas. Na Abril Jovem fazemos um tour em realidade virtual por um museu da Disney com direito a Moedinha nº1 do Tio Patinhas e tudo. Lógico que, virtualmente, tento pegar a moeda. E o que acontece??? Péééé! Pééééé! Pééééé! Soa o alarme, pois o milionário não é bobo. De repente, andando na frente de um espelho percebo que me tornei Lanterna Verde e o Kim, Homem de Ferro. Muito legal. Kim logo pega o jeito da coisa e em um instante começa, com movimentos da mão, a mudar de roupa. se tornando Batman, Hulk, Homem Aranha, Homem de Ferro, mas também todas as Princesas da Disney, para seu desespero ao me ver fotografando.

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Eu de Super-Homem e Lanterna Verde e Kim de Hulk e Homem de Ferro

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Kim no tour virtual da Disney, e depois entrevistado sobre a experiência.

                Falando em fotografias, não quero parar de fotografar e já me arrependi terrivelmente de estar só com o celullar. Não é todo dia que encontro com Cavaleiros de Jedi ao meu lado. Nem com Tartarugas Ninjas. E a Arlequina? Aliás, várias Arlequinas, como vários Deadpools, Wolverines e Batmans. Encontro Tarzan, Rosrchach, Mulher Maravilha, Ísis, as Princesas Barbadas da Disney, além de vários alunos de Hogwarts.

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Deadpool ou um Jedi? Quem vence esta batalha?

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Olha as Princesas Barbadas da Disney.

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Eu e os Power Rangers… para minha filha Elga que curtia tanto.

                Ver Harry e seus amigos por ali me anima, e decido ir na loja da franquia. A fila é maior do que minha coragem, e assim desisto de um cachecol da Sonserina, do casaco da Grifinória ou do Chapéu Seletor, pois a média de espera na fila é de três horas.

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                Gasto menos tempo para entrar na loja da Panini, cerca de meia hora. As muitas revistas com ótimos descontos animam todo mundo e até o Marcos escolheu as dele. A surpresa é na hora de sair, pois já estou na fila para desembolsar a grana há mais de uma hora. Sorte que em companhia de dois mineiros do HQueijo, clube dedicado aos quadrinhos, que, experientes em Comic Com estão me dando as dicas e ainda me fotografam o Homem de Ferro em tamanho real que está por aqui.

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Marcos felizão na loja da Panini… e teve gente que fez a festa e voltou cheio de quadrinho para casa.

                Falando em ferro… o trono de Guerra dos Tronos está aqui. E você pode sentar nele se enfrentar outros candidatos a rei ou… se esperar três horas em uma fila, o que muita gente faz sem hesitar, afinal, não é todo dia que se pode se sentir rei de Westeros.

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                Corro para o stand dos Cavaleiros do Zodíaco. Vou ser sincero… quando os cavaleiros estavam no auge do sucesso eu já era pediatra, e só por isso conhecia os personagens, todos nas mãos, camisetas e revistas dos pequenos pacientes. Mesmo assim, ver as armaduras douradas enche meus olhos de alegria. A quantidade de gente bestificada diante de cada armadura é impressionante, mas nas de Seiya e Shiryu ainda muito maior. Acho que tem gente que vai precisar ser arrastada daqui, ou não sai nunca.

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Tinha marmanjo chorando emocionado ao ver as armaduras em tamanho real dos Cavaleiros do Zodíaco          

     As pessoas deliram quando veem os grandes atores, roteiristas e desenhistas internacionais, especialmente Frank Miller, criador de Batman, Cavaleiro das Trevas, obra-prima que levou muita gente a colecionar quadrinhos. Para conseguir seu autógrafo em uma revista ou pôster (cada um leve a sua), cada felizardo que conseguiu um ingresso  investiu 200,00 (todos se esgotaram em quatro minutos de venda pela internet), além de aguardar horas na fila e não poder tirar nem uma fotinho. Dura esta vida de fã.

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         Tudo era assim, com fila… mas o pessoal aguentava com calma e paciência… até o Charada estava lá!

       Melhor fotografar o dragão, em tamanho real (?), que exala fumaça. Épico. Ou então imitar o Salto da Fé de Assassin´s Creed, – este sim exigindo mais coragem do que as horas de fila do Harry Potter. Sou corajoso, mas após pensar e considerar sobre o tempo necessário para tal proeza, prefiro me dirigir as Cataratas do Niágara. E você sabe bem ao que estou me referindo, pois é impossível que não tenha assistido a este desenho (se não assistiu, comente que envio o link, pois você deve ser o único ser humano sobre a terra que nunca assistiu). Vou refrescar a memória: Pica-pau descendo uma barrica nas cachoeiras e um monte de gente com capa de chuva amarela que levanta os braços quando a barrica desce, se espatifando lá embaixo. No stand da Piticas ganho a capa amarela e posso fotografar como se estivesse no desenho. Épico de novo! E sabe o que é melhor? Ficar na fila atrás de uma venusiana, provavelmente parente do Dr. Spock acompanhada pela Princesa Leia.

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Não sei se dá para identificar, mas eu juro… é a Princesa Leia na foto do Pica-Pau

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E aí? Encara o salto da fé de Assassin´s Creed??

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Dragão em tamanho real? Dúvida? É sim, pode conferir!!!

                Já estamos cansados e resolvemos comprar alguma coisa. Camisetas de Guerra dos Tronos, Simpsons ou Hulk? Filas e mais filas. Escudo do Capitão América, Martelo do Thor, Máscara de Darth Vader ou Marreta da Arlequina? Filas enormes. Caneca do Batman, cuequinha do Demolidor, boneca da Arlequina, gorro do Yoda? Filas e mais filas enormes. Comprar bonecos… ops! Acabo de cometer uma heresia que pode ser punida severamente… comprar Action Figures? Filas e filas de gente disposta a gastar até mais de 5000 reais em um simples… ops de novo!!!… em uma incrível e exclusiva Action Figure… Muita grana para um enfeite de prateleira.

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E aí? Pode escolher… espada da Mulher Maravilha, action figures do Gavião-Negro e do Super-Homem 

                Hora de ir embora. Estamos cansados, suados, com pés doloridos. Tem gente que vem de todo Brasil, tem gente que vem todos os quatro dias, para poder enfrentar com calma as filas, para não perder uma única foto com cosplay e para poder ver em primeira mão trailers de lançamentos de filmes como Jumanji, Homem Aranha, Guardiões da Galáxia 2, Mulher Maravilha, Valerian, Tropa dos Lanternas Verdes e até… Smurfs, Turma da Mônica Jovem e o novo filme do Didi… Os Trapalhões rumo a Holywood. É esta mistura que torna a Comic Com uma experiência realmente fascinante, divertida e que me faz feliz de estar aqui. Tem de tudo para todos. É só vir. Ano que vem tem mais! E vou voltar, porque Vai ser Épico!!!

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CosPlay também tira self: Besouro-Suco (Beatle Juice) tirando selfie com Coringa

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Stand do Maurício de Souza, na abertura da sexta.

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Pra todos os gostos: Baymax, Darth Vader feito de Lego, Athena dos Cavaleiros do Zodíaco, Arlequina, personagens de Watchman e um grande encontro, inclusive com Logan e Wolverine….

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Não basta ser Jedi, tem que entrar no clima!

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Tarzan também entrou no clima e prestigiou os artistas brasileiros da Disney

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Super Mario Bros!!!

IMG_20161202_174725926 Chamem o Batman!!!

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O Coringa quer me capturar!

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Roncos e Rock´n Roll–Encontro de Motoqueiros

Do lado de fora já se escutam os roncos das motos. Uma multidão de todas as idades participa todo ano do Encontro de Motos em Boa Vista, que desta vez, em sua décima edição, recebe o Ira!, icone de minha adolescência. É por isso que estou aqui.IMG_20161105_233032123.jpg

Quando a gente pensa em um encontro de motoqueiros, o que nos vem a mente? Além das motos potentes e barulhentas pensamos logo em rebeldia, transgressão, gente de preto e estilo. Bem, o preto e o estilo ficaram, mas a rebeldia e transgressão hoje parecem, nem mesmo uma reminiscência de um passado antigo, mas um ideal cultivado com carinho no íntimo de cada motoqueiro.

Sim, porque quem está aqui, muitos vindos de Manaus, Guyana ou Venezuela, tem com certeza uma reserva financeira razoável que lhe permita ter uma moto possante, decorá-la e ainda se vestir a rigor para o evento, com coletes bordados, capacetes estilosos e ainda sobrar um generoso troco para a cerveja. E quem está bem na vida dificilmente pensa ou quer ouvir falar de transgressão! Prova disso são os vários motoqueiros que vieram da Venezuela mesmo em sua crise sem igual.

Além disso a organização dos motoclubes mostra que não sobrou muito da rebeldia do início. Toda uma hierarquia é seguida, respeito mútuo e confraternização, fazendo um ambiente famíliar. Eventos de motoqueiros são sempre eventos tranquilos e repletos de famílias celebrando juntas este estilo único. Até mesmo os nomes dos grupos hoje já começam a ser menos agressivos. Se os motoclubes antigos se chamavam Ratazanas da Estrada, Abutres do Asfalto, Bodes das Pistas, Caveiras, Piratas e similares, hoje já encontramos Catavento e Cavaleiros, tornando até mesmo a identificação menos agressiva.

Tudo isso para dizer que é muito bacana ver como as pessoas incorporam o estilo, alguns até irreconhecíveis no alto de suas motos, usando bandana, roupa de couro e botas pesadas. E para melhorar… rola muito Rock’n Roll. E é para isto que estou aqui! Que venha o Ira!

Uma tarde caçando Pokémons

O Campo de São Bento é a principal área verde de Icaraí, bairro tradicional de Niterói. Lá, sob a sombra de suas árvores, crianças correm, jovens namoram, adultos se exercitam e todos podem desfrutar de momentos de relaxamento em meio a natureza. Nos finais de semana uma feira de artesanato e de bike foods lota o parque que se torna um divertido formigueiro humano.

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Recentemente um estranho fenômeno começou a acontecer. No meio da semana, em horários geralmente vazios, o Campo de São Bento está ficando lotado. Mais estranhamente ainda o público é formado prioritariamente por jovens, a maioria acima dos 15 anos. Eles se espalham pelo coreto, pelos bancos, pela área dos vovôs, estão por todos os lados. O ponto em comum? Todos tem olhar atento em seus celulares, em busca de oportunidades de caça. São caçadores de Pokémons.

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A estratégia da fabricante do game é boa. Talvez seja a primeira vez em muito tempo que estes jovens – dentre eles o meu filho Kim, de 12 anos – pedem voluntariamente para caminhar na praça e circular, pois além de caçar Pokémons, precisam “chocar os ovos”, que, espertamente, só podem ser chocados com o caminhar do proprietário do celular… ou seja, um convite para o movimento.

E subitamente a turba parece ter sido tocada por algum cowboy misterioso, pois todos se levantam e começam a caminhar. O que procuram? Pergunto ao meu filho que partilha do mesmo frenesi.
– Apareceu um Dragonair! Apareceu um Dragonair! Vamos lá!
E desaparece no meio da turba em busca do Dragonair, que eu nem mesmo sei o que é. O jogo estimula a andar, correr e até mesmo interagir, pois todos que estavam ali tinham a mesma chance de pegar o Dragonair com suas pokebolas virtuais.
Mantenho meu passo, mas meu filho logo retorna – novamente junto com a multidão.
– Não é para lá! Alarme falso, é para o outro lado!
Rapazes e moças, meninos e meninas, gente da minha idade, mãe com filhos, todos fazem parte da busca louca. Até que de repente ouvimos um grito:
– Uhuuu! Peguei!
A massa se desloca então com velocidade dobrada, tentando aproximar-se do feliz novo proprietário de um raro Dragonair. Todos teclam alucinadamente em seus celulares, tentando capturar o dragão.

“Calma, dá para todos”, parece dizer o jogo. Realmente é assim, mas nem todos tem a habilidade para capturar o monstro de bolso, o que faz com que rostos alegres se alternem com olhares desiludidos.

IMG_20160805_173546840Caçador em ação.

Pouco a pouco todos esgotam suas tentativas e retornam ao ponto de partida, aguardando o surgimento de um novo Pokémon raro, que mereça a caminhada frenética. E lá vou eu junto!

Pedalada inspiradora–Louise Sutherland

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Ela era a mais velha de cinco irmãs na Nova Zelândia. Na idade de 19, tendo crescido com a bicicleta como principal meio de transporte, ela se mudou para Hospital Oamaru para cursar quatro anos de formação em enfermagem. Para visitar seus pais em Dunedin,ela pedalava durante 7 horas, percorrendo 100 km; este foi o início de seu gosto por aventuras com ciclismo de longa distância.

Em 1945, os Otago Daily Times relatou que Louise Sutherland tinha completado um passeio de 700 km de Dunedin a Invercargill para visitar um tio e também voltara pedalando, apesar de ser o início de um forte inverno na região. Com a idade de 21 anos, Louise Sutherland estava fazendo viagens de bicicleta regulares, como o roteiro de 6 dias ‘Mount Cook trip’.

Em 1949, trabalhando como enfermeira em Londres, Louise realizou o circuito Land’s End, Cornwall. No entanto, essa viagem foi só a inspiração para uma viagem muito maior e mais pela Europa e na Índia. Tudo isso foi feito com uma bicicleta comprada em um bazar por £2.10. Mais tarde, suas bicicletas foram patrocinadas Raleigh (1950 e 1960) e, em seguida, Peugeot (1970).

Em 1978, aos 52 anos,apesar de ainda saber relativamente pouco sobre mecânica de bicicletas, não sabia ao menos consertar um pneu furado, Louise Sutherland partiu sozinha em uma viagem de 4,400 km pela Transamazônica. O roteiro auto-planejado era muito mais duro do que qualquer Tour de France, algo que muitos consideravam "impossível!" Especialmente  se considerarmos que grande parte da Rodovia Transamazônica havia sido recentemente construída. Ela foi a primeira pessoa a percorrer a rota e escreveu um livro sobre sua viagem, apropriadamente intitulado, The Impossibel Ride( Amazônia, A Viagem Quase Impossível, na versão brasileira).

Em sua vida Louise Sutherland pedalou mais de 60 000 km através de 54 países. Durante suas viagens de bicicleta e da carreira de enfermagem, Louise Sutherland demonstrou uma crença no melhor da natureza humana, especialmente dos povos indígenas que ela conheceu. Ela passou muitos anos levantando dinheiro para a assistência médica das pessoas que vivem na Floresta Amazônica e esses esforços foram reconhecidos oficialmente. Em 1991, Louise Sutherland tornou-se o primeiro estrangeiro a receber o Prêmio Golden Fish por serviços prestados ao Brasil e, em 1993, o Governador Geral da Nova Zelândia concedeu-lhe a Medalha de Serviço da Rainha por seus esforços na obtenção de ajuda para as pessoas no Peru e no Brasil.

Eu li o livro desta viagem, Amazônia, A Viagem Quase Impossível. Fiquei impressionado! Como ela conseguiu ir tão longe? Além de otimista incansável, capaz de interagir com tudo e todos pelo caminho, Louise vinha com um bom humor que abriu portas e – literalmente – porteiras. Onças, indígenas, garimpos, jagunços, buracos-crateras. Tudo estava em seu caminho. Livro que vale a pena para quem se interessa pela Amazônia da década de 70, tão diferente da de hoje.

Para quem ficou curioso:
Amazônia – A Viagem Quase Impossível
Editora Totalidade
1992

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O privilégio de assistir Arthur Moreira Lima na Amazônia

Outubro de 2013 – Boa Vista

Final de tarde quente, saio para um sorvete. O calor é tanto que enrolo para chegar em casa, dirigindo vagarosamente. De repente me deparo com uma aglomeração em frente a Igreja Matriz. Curioso, paro o carro e pergunto o que está acontecendo.
– Vem um pianista famoso tocar aí. Parece coisa boa.

Coisa boa? Logo descubro… É Artur Moreira Lima e seu piano… “Um piano na estrada”. Este é o show número 484 realizado pelo pianista pelo Brasil. Em Roraima tocou em cidade de 20 mil pessoas. Até confesso que não sou muito de piano, mas assistir um virtuoso, um fora de série, não é todo dia. É como encontrar um diamante em meio as pedras brutas.

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O show começa. Se pensei por um único segundo em não ficar, já me arrependi. Ele conversa com o piano – e as teclas respondem. A velocidade dos dedos é incrível, fico tonto só de tentar imaginar fazer o mesmo. O repertório inclui músicas mais conhecidas. Abertura com Bach – Alegria dos Homens. Depois Villa-Lobos, Carlos Gomes, Ernesto Nazaré, Pixinguinha, Beethoven e até mesmo Luiz Gonzaga desfilam pelo palco nos fazendo sorrir de encanto.

Olho em volta e fico imaginando… algumas pessoas pagam caro para assisti-lo em uma casa de concertos. Assistem de longe e ficam realizadas. Aqui, acho que deve ter no máximo umas duzentas pessoas. Estou em cadeiras de plástico, nada confortáveis, mas tenho a lua como teto, a catedral como moldura e apenas cinco metros de distância do pianista. Se tentar acho que consigo enxergar notas musicais no céu.

O palco é parte do próprio caminhão, que leva o piano. O piano é tão chique que tem um afinador exclusivo. O som, iluminação, tudo vem dentro dos caminhões que conduzem o pianista pela estrada. No Amazonas, em São Paulo de Olivença (minhas Impressões sobre esta cidade você pode acessar clicando AQUI), o piano não pôde desembarcar, e o pianista tocou embarcado, com a população toda no barranco.

IMG_20131012_212256Prestem atenção. O palco – e o piano – está dentro de um caminhão!

Uma super-dentista na saúde indígena

Minha amiga Flávia costuma dizer que um dos maiores privilégios do trabalho nas regiões mais distantes da Amazônia é conhecer um monte de gente interessante. São pessoas que abrem mão das suas rotinas, de seu conforto, da vida da cidade, para fazer um trabalho único, diferenciado, que por vezes consegue transformar não apenas uma pessoa, mas toda uma população.

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Nos meus anos de Amazônia, uma das pessoas que tive o privilégio de conhecer foi a dentista Dalila, que por nove anos trabalha com os Kaiapó. Quando estive por lá ela era responsável pela aldeia Moikarakô, e eu costumava dizer que podíamos reconhecer as crianças desta aldeia pelo seu sorriso.

Palestras, profilaxia nas casas, restauração, paciência mesmo diante das maiores necessidades de improviso. Tudo isso fazia parte das vivências que Dalila superava com um sorriso.

Aos poucos ela foi se apaixonando por eles de tal forma que se tornou uma índia loura. Mandou fazer um “vestidinho Kaiapó” branco para usar como uniforme, chamava as pessoas para atendimento com um berrante (não peguei esta época), traduziu músicas infantis para o Kaiapó e com elas ensinava as crianças a cuidarem dos dentes. Assim Dalila conquistou respeito e admiração dos desconfiados Kaiapó. Seu envolvimento era tão grande que em seu casamento, em São Félix do Xingu, a dama de honra e o pajém eram crianças Kaiapó completamente enfeitadas.

Ao seu lado a aldeia nunca havia silêncio, pois ela sempre estava pronta para conversar, contar um causo, falar da entrevista que um dia fará no Jô Soares, contando de suas aventuras nas aldeias.

Em 2014 os Kaiapó vão chorar de saudade, pois depois de nove anos, com planos de aumentar a família, ela deu adeus a vida em aldeia.
Sucesso Dalila. Sempre cito o seu trabalho como uma  referência em saúde bucal indígena. Tenho certeza de que o sucesso será semelhante na cidade.

 Dalila se despedindo da aldeia, que foi sua morada por 9 anos.

Natal no Hospital

25 de dezembro. Manhã. Estou de folga, mas sei que a escala está apertada, com poucos colegas no plantão – e muitas crianças internadas. Estou sozinho em Boa Vista, então para ocupar a mente, resolvo ir ao hospital, ver se consigo ajudar a dar alta para as crianças, afinal, lugar de criança – na medida do possível – é em casa, e não internado. Chego cedo e o trabalho flui bem.

Escuto um barulho de violino. Legal, trouxeram um som para animar o ambiente. O som aumenta. Estranho, pois não temos sistema de som. Percebo um violão e logo uma risada chama a minha atenção:

– Ho! Ho! Ho!

Só pode ser brincadeira. Papai Noel  no hospital?
Logo chega Papai Noel, acompanhado de Mamãe Noel e alguns assistentes, uma violinsta e um violonista. Música, alegria, presentes. As crianças correm de todas as enfermarias. As que não podem são visitadas. Em cada leito, um presente, algumas lágrimas e muitos sorrisos.

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Discretamente um pai se aproxima.
– Papai Noel, o senhor pode ver minha filha! Ela está no isolamento.
Papai Noel se preocupa e eu explico.
– Podem ir dois, Papai e Mamãe Noel. Os músicos tocam fora. É só colocar a máscara de isolamento e não demorar.
Orgulhoso, coloco a máscara em Papai Noel enquanto ele lava suas mãos.

Os músicos se posicionam. A pequena espera ansiosa, presa em seu quarto que a isola do mundo, mas a protege de uma infecção enquanto aguarda a transferência para o tratamento em outro Estado (nenhuma criança merece um diagnóstico de leucemia, ainda mais no Natal). Papai Noel entra e ela esquece onde está, esquece o soro em seu braço, esquece a distância da família.
A música toca, Papai Noel entrega o presente, todos ganham sorrisos e eu ganho lágrimas nos olhos.

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Papai Noel trouxe o melhor presente de Natal, a possibilidade de fazer mais uma criança feliz. Então foi um dia de Natal de muito sucesso. Qual o sucesso maior do que fazer uma criança feliz?

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FELIZ NATAL PRA TODOS!!!