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Impressões do que eu li… O Rio – uma viagem pela Alma do Amazonas

Recentemente tive o privilégio de percorrer o rio Amazonas de sua nascente, no Peru, até a sua foz, próximo a Macapá, capital do Amapá. O trajeto de meses foi feito em dois dias, em uma leitura rápida e muito agradável do livro O Rio, de Leonencio Nossa.

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Se o rio – e a viagem = tem o ritmo lento de quem não tem pressa para chegar porque sabe que tem todo o tempo do mundo, não se pode dizer do que sentimos quando lemos o livro. Mergulhamos nas águas barrentas, dormimos em rede, navegamos, provamos frutos exóticos, espantamos carapanãs e conversamos com personagens que tornam a viagem, mais que folclórica, única e inesquecível.

Certos trechos do Rio deixei fluir mais lento e mergulhei no passado ao me descobri de volta para o recreio que passa por Caballo Cocha no Peru, deslumbrado com a água verde no porto de Santarém ou dando risadas com o futelama em Macapá, quando a dança das águas faz o rio subir e descer com um ritmo que, mesmo que nós contemos, não se consegue entender sem vivenciar.

Em outros trechos o Rio, corria veloz ao percorrer os lugares que – ainda – não conheço: os Andes, peruanos, sonho distante e alto; Mamirauá, terra de jacarés-gigantes e ribeirinhos preservando a mata; Marajó, dos búfalos, palafitas e de moradores meio gente-meio peixe, verdadeiros anfíbios.

De quebra pegamos um afluente que nos conduz aos diversos autores que contam as histórias da Amazônia e de seus homens: ribeirinhos, imigrantes, indígenas. O livro deságua na foz, onde  uma extensa bibliografia nos conduz a novas navegações.

As fotos de Celso Junior permitem o deleite até daqueles que tem preguiçar de ler e nadar. De um jeito ou de outro o livro é um clássico para quem quer se aventurar pelo Amazonas..

Quer comprar?

O RIO: UMA VIAGEM PELA ALMA DO AMAZONAS

Leonencio Nossa (texto) e Celso Júnior (fotos)
EDITORA Record, 2011
QUANTO R$ 49,90 (350 págs.) – em outubro de 2011

Quer uma prévia?

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Não perca a revista Horizonte Geográfico, edição 137 que está nas bancas (out 2011). Ela também mergulha no rio com reportagem e fotos da mesma dupla do livro. Vale a pena conferir e seguir o fluxo do maior rio do mundo

Quer ver as fotos?

O Blog do Estadão tem fotos do livro, algumas de perder o fôlego:
http://blogs.estadao.com.br/olhar-sobre-o-mundo/o-rio-amazonas/#

RIO AMAZONAS Esta foto e muito mais estão no blog acima:
Porto na beira do rio Amazonas em Macapá/ AP. Foto: Celso Júnior/AE

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Macarrão de Palmito? Comida peruana

Recebi um post da Eloise que visitou o IA e pediu fotos das comidas peruanas (Impressões de Iquitos 16). Atendo o pedido:

Imagen 078 A comida chaufa do post é na verdade a comida chinesa adaptada para a região. Aqui vemos na verdade, fotos da comida tracional: Bife com mandioca e abacate (“palta” – que se come salgado em mutios países de língua espanhola).

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Variedade de molhos. A cor indica o grau de ardência. O vermelho pega fogo…

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  Um close mais destacado do talharim de “chompa”, que é um macarrão de palmito. Na verdade nada mais é do que o palmito cortado em tiras finas e que fica, portanto, com o formato de talharim.

Somos Kalyente! Iquitos! Peru!

Encarei o Beer Dance da Dona Venância, para assistir o Kaliente. Se você nunca ouviu Kaliente, não sabe o que está perdendo. Esta banda de Iquitos, selva Peruana, tem um ritmo envolvente, e clipes sem igual. Sem igual de tão ruins… Eles ganhariam com facilidade os dez primeiros lugares nos “Piores Clipes da MTV”. Modelitos cafonérrimos, bailarinas “baleiarinas”, interpretações de clipes… cafajesticas… Terrível. Ao menos o som é bom, e tocaram das 22h30min as 4h da manhã sem parar. Eu desisti após a terceira vez que eles reiniciavam o repertório. Quem ficou garante que bailou sem parar com os vocalistas, baterista e um ótimo naipe de metais, que lotava o palco e fez com que uma amiga exclamasse assim que chegou no salão: “Nossa, nunca vi tanto homem feio junto em um palco só!!!” Coisas da selva…

Entre os Yaguas e os Bora

De lá fomos visitar os índios. Fui em duas tribos. Nos yaguas, atirei zarabatana e assisti algumas danças. Eles usam roupas de palha e foi até interessante a visita. Vergonha fui eu atirando zarabatana. Tão mal que as índias velhas davam risadas… “shame on me”… 🙂
Depois fui nos Bora. Gostei muito. Fui recebido pelo curaca (cacique) que me explicou logo: a comunidade fica há duas horas de caminhada de onde estávamos (beira do rio Nanay). Ali moravam 4 famílias em sistema de rodízio mensal, de forma a todos poderem vender seus artesanatos aos turistas e mostrar suas danças, usadas nos cerimonias. Explicaram que se eu quisesse assistir e fotografar seria muito bem vindo, não precisava ter pressa e iria inclusive dançar com eles, pela quantia de 30,00 soles (cerca de 25,00). Só estava eu lá… e então resolvi pagar para ver. O curaca então chamou o pessoal e surgiram alguns índios. Na verdade uma meia-duzia, mas bastante sonoros, e foi bem divertido.
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Uma das índias, que ficavam de peito de fora todo o tempo, estava amamentando uma menininha de uns dois anos. Ela dançava amamentando, era muito engraçado. Os meninos pequenos também queriam dançar, mas ainda não sabiam e então se atrapalhavam e davam risadas. Ainda havia uma adolescente, bem com vergonha – afinal, no dia-a-dia eles usam roupas normais – que passava o tempo todo com seus longos cabelos negros sobre os seios… Foi uma experiência “profissional” mas bem divertida, que rendeu fotos como a que estou enviando.

No mercado de Belém com guarda-costas

No meu segundo dia de Iquitos fui conhecer as comunidades indígenas “pra turista”. Fui com um motorista de motocarro, que havia conhecido guiando dois alemães em Quistococha e que havia sido recomendado. Em primeiro lugar fomos a agência de turismo onde fui comprar meu bilhete de volta para o Brasil. Lá, sobre um grande mapa ele começou a dizer… “conheço Brasília, conheço Manaus, conheço Belém, conheço Fortaleza, conheço São Paulo, conheço Campo Grande, conheço o Rio…” Logo concluí que ele tinha sido hippie ou era um grande mentiroso. Como não tinha cara de hippie e estava mais para aprendiz de rambo, nem liguei muito. Depois, quando conversamos mais ele me contou… “vou lhe falar a verdade. Do Brasil só conheço bem o Rio, onde fiquei quatro dias”. E perguntei… “e os outros lugares”. Ele me respondeu “só ficava um dia”. E eu perguntei… “porque tão rápido?” e ele respondeu…. “fui a trabalho”… e silêncio. Não perguntei mais, mas quando voltamos ao assunto das viagens ele me contou. “Eu conheci o Brasil porque era “guarda-espalda” (guarda-costas) de um chefão colombiano. Assim chegávamos, fechávamos os “negócios” e já viajávamos de novo. Conheço o Brasil, a Argentina, Bolívia, Chile…”. Bem, não precisa dizer que não perguntei mais nada e comecei até a ficar preocupado. O alívio só veio quando ele disse. “Larguei isso porque resolvi que queria uma família, e não queria levar um tiro”. Com esta segurança toda, fomos nós passear em Belém.
Belém é uma mistura de Rua da Alfândega, no Centro do Rio, com mercadão municipal e com camelódromo. É sensacional. Em ruas estreitas demarcadas somente pelas barraquinhas se amontoam vendedores de tudo. E tudo eu encontrei por lá: brinquedos chineses, utilidades para o lar e para tudo, garrafadas, peixes de todos os tamanhos e formas, peixes para aquários, periquitos, tartarugas retalhadas em pedaços, tartarugas vivas de cabeça para baixo esperando a morte ou o comprador, o que chegar primeiro, tartarugas embaladas em alças como uma bolsa, pronta para a viagem, galos de briga, pintos, camisetas, sapatos, bananas, mangas, ingás, aguajes, sucos de pêssego, aguajina, chicha morada, coco, pimentas de cheiro, pimentas de gosto, pimentas de cores, de todas as cores. Havia uma ala inteira com roupas e sapatos reformados, mas usados. E tudo isso em meio a um vai-pra-lá, vem-pra-cá de cheiros, empurrões, crianças correndo por baixo de nossa cintura, cachorros andando na contra-mão em busca de um resto qualquer, pessoas comendo naquele caos, crianças brincando, vendedores anunciando. Uma linda loucura.
Belém é o bairro pobre, conhecido como “cidade flutuante”. Isto porque todas as casas se situam em duas zonas. Zona alta, onde todas as casas tem dois andares e zona baixa, onde todas as casas são flutuantes. Na seca, como estávamos, havia uma boa distinção entre estes dois mundos, o da pobreza e o da pobreza absoluta. Na cheia os flutuantes sobem e as águas cobrem os primeiros andares das casas, lojas, templos, igrejas, e então todos se irmanam no mesmo nível. No nível da água.
Sim, porque o rio é vida lá como é em toda Amazônia. Navegando no rio pelo pequeno trecho do Rio Itaya com meu guia e um barqueiro encontrei as onipresentes mulheres lavando roupas, barcos carregados com bananas, crianças brincando na água e na lama, Impressoes1605 banheiros feitos somente por um cubículo de plástico diretamente no rio e até mesmo uma pocilga de porcos landrazes… aqueles grandes e rosas, que depois encontram seu destino diretamente acima, fatiados no mercado de Belém.

Comida Chaufa com Aguajina

A noite fui comer comida chaufa. Sabem o que é isso? Comida chinesa. Achei caro e pouco servido, tudo com forte gosto agridoce. São muitos os restaurantes chaufas em Iquitos e é grande a influência japonesa no peru. Dentre os destaques o ceviche, que é o peixe cru curtido em limão e o arroz chaufa, que é um arroz marrom por ser feito com shoyu.Outra coisa muito tradicional em Iquitos é o aguaje, no Brasil buriti. Há suco (aguajina) em toda esquina, há curiche (sacolé, chupchup), há sorvete e há a fruta inteira, que a gente come como um esquilo, tirando a casca. O melhor é o sorvete, aliás, só de escrever me lembro dos sorvetes de Iquitos… duas bolas enormes a 2 soles… (1,70)… a boca já até saliva.

Fui dentro de uma lata de sardinha até Quistococha, ver os otorongos

Fui conhecer Quistococha, um zoológico a beira de um lago que vira balneário nos finais de semana. Resolvi ir de van… e por sorte entrei no ponto de embarque inicial. Como tinha ar condicionado, achava maravilhoso, até que contando as pessoas haviam 20 adultos e 12 crianças. Os últimos a entrar, já no meio do caminho, foram um casal com um bebê. O “arrumador” (que outro nome poderia dar para o cobrador da van??) despachou o pai para o fim, pegou a criança da mãe, deu para outra mulher que estava sentada com um filho já maiorzinho e colocou a mãe em pé ao lado da porta. Cheguei a pensar em dar o meu lugar, mas como uma sardinha pode mover do seu lugar dentro da lata…? Fiquei somente assistindo o que para todos era algo perfeitamente normal. E as crianças, como na Bolívia, não soltaram um único pio em toda viagem… Ah se fosse no Brasil…
O parque em si era bem legal. Muitos otorongos (onças), jibóias, macacos, jacarés, pirarucus (paiches), jacutingas (pucacunga), jaçanãs (trompetero) e muitas árvores como abacates e jambos (pomorosa). Na praia do lago algo inusitado. Haviam muitas mulheres de biquini, mas nenhuma tirava sua roupa… tomavam banho com roupa por cima do biquini… coisas de peruano.