Impressões Amazônicas 83

Este texto foi escrito em 2006 e fala de uma das primeiras visitas que fiz as aldeias Kaiapó. Encontrei perdido em um caderno e resolvi digitá-lo e partilhar com vocês. Os Kaiapó vivem hoje uma situação delicada. Eram 11 aldeias fortes quando trabalhei com eles, até 2008. Hoje já são quase o dobro, conseqüência da possibilidade de ganhar dinheiro das mineradoras e hidrelétricas na região. Divididos se enfraquecem, e se repete a mesma tática utilizada pelos portugueses na época da colonização.
Na época que escrevi este texto Payakan se encontrava impossibilitado de sair da terra indígena, procurado pelo crime de estupro, que lhe rendeu até a capa da Veja. Verdade? Mentira? Não sei, deixo o julgamento aos juízes. Ficam aqui as minhas impressões sobre alguns dias únicos em minha vida.

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Estou sentado sob um teto de palha esperando para consultar na pequena aldeia Rio Vermelho, a menor dos Kaiapó. Esta é a segunda aldeia Kaiapó que visito, e venho a ela antes das demais aldeias maiores porque aqui mora uma das principais lideranças indígenas nacionais, o cacique Paulinho Paiakã.

A pista de aterrissagem é bem curta e o pouso assusta. O piloto reclama:
– Ninguém gosta de pousar aqui. Além de pequeno tem alguma coisa que sempre puxa o avião para baixo, principalmente quando a gente decola.

IMG_2257 No meio da floresta a aldeia Rio Vermelho.

Da pista vejo uma cachoeira que deve ser majestosa na época de chuva, escorregando graciosa por um alto paredão. Um rapaz de cabelos longos presos em um rabo de cavalo chega com um carrinho de mão para transportar minha carga. Ele vem de calça sapatos sociais. Estranho em um mundo que sou recebido de bermuda e chinelos. Caminho atrás dele e mergulho na Amazônia que imaginava e difícil de encontrar: a exata mistura entre a cultura nativa e a civilização de fora. É por instantes como este que estou aqui.

Enquanto aguardo a chegada de Paiakã observo o que há ao meu redor. Todos fazem o mesmo e vem me olhar – eu sou a atração turística. Não é muita gente de fora que vem aqui. Médico é a primeira vez. Paiakã chega, me cumprimenta com muita simpatia e pede para aguardar, pois está “resolvendo um problema no rádio”. A aldeia é limpa, não há uma sujeira no chão, o rio passa bem perto e escuto pássaros cantar. Esse lugar é bem próximo do que eu chamaria de paraíso. Duas grandes malocas, crianças brincando, natureza…

IMG_2264 Terreiro sempre limpo.

Só tenho um medo. Pisei na bola, não trouxe repelente. Confesso que estou preocupado com isso, pois no aeroporto um cineasta que havia acabado de chegar da aldeia me fez a mesma pergunta do piloto: “Tem bastante repelente?”.

Logo conheço toda a aldeia. Payakã me explica: “Eu já criei uma aldeia grande (Aukre). Já fui cacique em Gorotire (a maior aldeia Kaiapó). Agora quero um lugar pequeno, no máximo com cinco famílias”.

Parece estar dando certo. Cada maloca tem seu próprio banheiro, há um buraco para queimar o lixo. Uma casa alta, diante do rio, serve de cozinha. Como estamos na seca se atinge o rio descendo por uma pequena escada escavada na terra. Na margem inúmeras borboletas proporcionam um lindo espetáculo. Um cupinzeiro deu origem a um forno onde Irekrâ, a dona da casa, digo, da maloca, assa pães. Um pássaro negro, rabo longo e bico cor de lacre me olha curioso. Continuo com minha visão inicial de estar próximo ao paraíso.

Rio Vermelho (79) Banheirinho top!

Rio Vermelho (23) Forno para pães.

Rio Vermelho (98) Chapolin Colorado

 

6:30h Estou ainda na rede ouvindo o canto dos pássaros. O cacique acabou de ligar a TV (a bateria) para ver o noticiário. As crianças brincam e o sol conquista a noite lentamente.

A noite até que não foi tão terrível. Fui “atacado” sem dúvida, mas assim que coloquei a manga comprida e tapei o rosto consegui dormir em paz. Tenho que realmente que agradecer a Deus pelo privilégio do que estou vivendo.

Rio Vermelho (48)a 

Após o atendimento vou banhar. O rio tem água morna! Não quente como em Caldas Novas, mas suficiente para entrar sem hesitação (e quem me conhece sabe como tenho medo de água fria!!!). Desci um trecho de cerca de 300 metros. Logo a mata se fecha e escuto sons diferentes também dos que escutava no Amazonas. Vejo peixinhos, pássaros, sapos e logo me arrependo de estar descalço e não poder seguir mais a trilha.

Rio Vermelho (56)

Rio Vermelho (60) Na época de chuva, tudo vira leito de rio.

Aproveito para fotografar a aldeia e as crianças, que adoram se ver no LCD. Estava com vergonha de pedir autorização, mas foi simples e moderna. Durante o atendimento o cacique saiu e voltou me mandando ficar a vontande para que pudesse fotografar o atendimento. Depois se colocou a disposição até para uma foto juntos…sinal dos tempos.

Payakan e Alt Eu e o Cacique Payakan. Como eu estava magro…

Rio Vermelho (44) Rio Vermelho (45)

Pra quem não leu as primeiras impressões… os Kaiapó retiram cílios e sobrancelhas… e na época das festas ainda raspam o cabelo em triangulo, como a menina da segunda foto.

Final de tarde diante do Rio Vermelho. Payakan vem me perguntar sorridente se prefiro lanchar ou jantar. Além de educado é muito inteligente e simpático, sempre sorrindo. Me lembra muito o Sr. Kakeya e sinto saudade das conversas no sítio. Aliás, Payakan me conta que é muito amigo de um médico nissei, e que sempre lhe preguntavam se eram irmãos.

Já era para eu ter ido embora, mas ainda estou aqui porque o avião não veio me buscar. Assim, hoje não tive nada para fazer além de escrever. Me distraio descendo e subindo o rio. Payakan me emprestou uma faca: "a mata sempre tem perigos, é melhor estar preparado". A natureza é rica, mesmo com os rios secos. Um casal de araras grandes, daquelas azuis e amarelas passa sobre nós. Nunca havia visto isso. O cacique saiu para pescar e voltou com quatro grandes peixes. Saiu também com arco e flecha e depois com uma espingarda, mas não teve a mesma sorte que na pescaria.

Rio Vermelho (80)

Não reclamo do trabalho, só me incomoda a incerteza do avião. Atrasos,mudanças de rota, dificuldades de comunicação, são uma constante pior do que os mosquitos, dormir em rede, banhar no rio ou a ausência de banheiros. Esta parte para mim se assemelha ao bom e velho acampamento escoteiro, e eu, realmente gosto disso.

Rio Vermelho (27) Cozinha por cima do rio. Com o rio cheio da para pescar de lá.

Rio Vermelho (54)

Rio Vermelho (16) 

Payakan me convida para pescar. Fui e não me arrependi. Aprendi sobre frutos do cerrado, vi rastros de anta, tracajás (tartarugas de rio) boiando e poraquês (peixe-elétrico) subindo a tona. Mergulhei na Amazônia. De cada peixe pescado (um tucunaré e um trairão) Payakan tirava um pedaço de carne com gordura atrás da cabeça e devolvia para o rio. Ele me ensina: "Temos que usar a sabedoria dos kuben (brancos) e a sabedoria dos kaiapó. Isto é inteligência. Agradeço ao rio devolvendo parte do que ele me oferece, mas uso equipamento bom". Vejo isto na prática: molinete, alicate Coleman, peixe atraído com fruta, pendurado em galho, limpo na hora a moda indígena. Depois,tudo limpo, seco e arrumado. Quem ensina quem, cara pálida?

Rio Vermelho (120) Frutinhas para chamar os peixes.

Rio Vermelho (109)Paciência.

Rio Vermelho (128) Sucesso.

Rio Vermelho (123) Tucunaré sem o pedaço que voltou para o rio. Agradecimento..

Payakan transita com facilidade entre dois mundos. Preserva tradições e aproveita a modernidade. Cedo falava via rádio com a filha sobre desbloqueio de cartão e a faculdade (ela estuda Relações Exteriores). Logo depois, ele, que anda pintado, emitia um grito agudo a beira do rio comunicando sua saída para a caça.

As refeições são momentos de conversa, e me conscientizo de que, pela primeira vez estou na intimidade de um grande líder. Payakan fala sobre sua visão de mundo, de como a floresta é importante para todos os seres vivos; índios, brancos, animais, insetos. Conta que os jornalistas às vezes entendem errado e escrevem mesmo assim. Diz que o mais importante é preparar o Kaiapó. " Não basta ensinar a gostar de café. Tem que ensinar a preparar, usar garrafa, tomar e depois lavar tudo. Kaiapó tem que aprender a ler e escrever, tem que aprender inglês. Tem que usar rádio, lancha, mas sempre lembrar que tudo isso deve ser em proveito da comunidade e não por uso pessoal."

Rio Vermelho (41) Mistura perfeita… rede e barraca sobre estrado… O novo se mistura ao tradicional.

Ele conta de suas viagens e palestras pelo mundo, muitas juntas com o roqueiro Sting. Pergunto de que país gostou mais: " Japão.Todo mundo correndo. Até os mais velhos correm com suas pastas de trabalho. Aquilo me incomodou, mas depois perguntei porque eles corriam tanto. Ouvi que tinham muito trabalho a fazer e por isso o país era tão avançado. Gostei. Índio tinha que correr pelo menos um pouquinho."

Rio Vermelho (151)Hora de seguir caminho…

4 opiniões sobre “Impressões Amazônicas 83”

  1. Tudo que diz respeito a nossos irmãos indígenas, diz respeito a mim e a nós,interessados na vida original da terra. Mantenham-me informado do que puderem e eu fico antecipadamenbte grato.

  2. Parabéns, por esta belíssima reportagem, gostei, Salve os Indíos, Salve Deus! Que o Pai possa manter esta riqueza por muito séculos, que o homen branco em vez de destruir, possa conservar! Viva os Kaiapós!

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