Introdução da Edição 2009 das Lições de Escola da Vida

Lições de Escola da Vida
Autor: Robert Baden-Powell
Editora: União dos Escoteiros do Brasil, 2009

A oportunidade de incluir as notas para esta edição de Lições de Escola da Vida foi uma oportunidade única de aprendizado. Baden-Powell era um homem em todos os sentidos a frente do seu tempo.

Como militar soube respeitar os seus comandados, procurando escutar suas opiniões e preferindo, sempre que possível, soluções pacíficas em lugar às beligerantes, chegando ao ponto de se tornar amigo de alguns antigos rivais no campo de batalha.

Como artista conseguia se expressar de todas as formas: teatro, pintura, escultura, texto. Era um homem habituado a observar detalhes e conseguia reproduzi-los com riqueza, encantando os demais.

Como viajante soube aproveitar as oportunidades não apenas para simples “turismo”, mas para realizar um rico aprendizado, que se traduziu em soluções práticas em sua vida profissional e posteriormente para o movimento escoteiro.

Era comunicador nato, e isto auxiliou, sem dúvida, a que galgasse os mais altos postos no exército britânico. Conseguia conversar com todos, desde o soldado mais simples, com quem poderia falar na linguagem carregada de gírias e expressões – e que por vezes ele transcreve neste livro – até com reis e rainhas. Sim, Baden-Powell era um homem que se tornou tão popular que freqüentava ambientes repletos de nobres lordes, tendo conhecido pessoalmente diversos reis e rainhas europeus, além de outros chefes de estado. Em todos ambientes B-P conseguia ficar a vontade e se destacar com inteligência, cultura e bom humor.

Sem dúvida ele deveria ser um “bom papo”. Conhecia todo mundo, e os citava como “velhos conhecidos”. Seria como hoje alguém ser amigo, ou pelo menos conhecido do Presidente Lula, da Rainha Elizabeth da Inglaterra, dos Presidentes Bush e Clinton e dos primeiros-ministros espanhol, inglês, alemão e francês. Isso sem falar que, ao mesmo tempo freqüentaria a casa de cientistas famosos, como o astrônomo Ronaldo de Freitas Mourão, do médico Dráuzio Varella; de atletas como Pelé, Bernardinho e os Irmãos Grael (provavelmente, por ser esportista nato, teria jogado uma “pelada” com Ronaldo, Ronaldinho e Romário, além de Beckham, Zidane e Figo), de atores (com certeza teria jantado na casa de Fernanda Montenegro e teria conversado com Steven Spielberg sobre seus últimos filmes, ao qual daria conselhos). Mas B-P faria isso sem perder a humildade e sem nunca se sentir “o cara”.

Ele, com certeza ficaria mais a vontade e feliz escrevendo uma reportagem na revista Caminhos da Terra onde convivesse com remanescentes quilombolas e dormisse no chão de suas casas rústicas  ou em que descrevesse uma pescaria com indígenas do Xingu do que em qualquer reportagem da revista Caras.

Esta mistura, B-P que transitava livremente por mundos diferentes vai mostrando neste livro, que escreve como um incentivo aos jovens para que batalhassem na mistura que, para si próprio, haveria provado ser de grande sucesso: trabalho árduo com dedicação, e amor, bom humor, boa vontade e agradecimento a Deus pelas oportunidades concedidas. Sim, porque B-P ainda era um homem que conseguia ver Deus nas pequenas e grandes coisas, em todo seu dia-a-dia.

E o que faz este homem ainda mais surpreendente, e o que me faz escrever no início deste texto que era um homem “a frente do seu tempo” é o que talvez possa causar repulsa ou uma simples estranheza em quem lê este livro hoje, com olhos de século XXI. Apesar de sua modernidade, B-P nunca poderia ser considerado alguém fora de seu tempo. Ele construiu suas idéias com base no que aprendeu em uma família tipicamente inglesa e cristã, em Charterhouse, escola britânica tradicional e na disciplina do exército britânico. Ele aprendeu o que na época eram consideradas “verdades universais” e aceita em todos os meios de saber científico, legal e moral. B-P aprendeu a ser um guerreiro, a conquistar, a matar, se preciso fosse para fazer valer a “glória da Coroa”. Ele foi ensinado que os homens eram diferentes como era diferente a cor de sua pele. Aprendeu que as mulheres deviam ficar em casa enquanto os homens iam ao trabalho ou a guerra. Aprendeu que a melhor utilidade para os animais, além do trabalho e da alimentação era servirem como caça, de forma que os homens tivessem oportunidade de praticar um esporte considerado “saudável”.

Todas as afirmações acima, que soam como heresia nos dias de hoje eram inquestionáveis a época. Por soarem tão ofensivas atualmente, talvez estas passagens tenham ficado de fora nas primeiras edições deste livro no Brasil. Talvez alguém tenha ficado com medo de “macular o mito”. Mas este livro, em sua versão integral mostra exatamente o contrário.

Mostra como, ao longo de sua vida, com a convivência com outros povos, com o encanto causado pela visão de uma manada de elefantes ou a majestade de uma montanha, por ter conseguido aos poucos entender que os hábitos são diferentes em diferentes regiões, mas nem por isso os homens são melhores ou piores, por ter conhecido mulheres que conseguiam fazer tudo que os homens realizavam, muitas vezes até com mais competência, por ter observado homens brilhantes, mesmo vindo de camadas mais simples da população, B-P muda sua visão de mundo. A observação de diversas situações em sua vida, descritas neste livro, fazem com que ele mudasse, se transformasse, ou simplesmente, como uma pedra-bruta que já tendo a beleza em seu interior, se lapidasse.

B-P valoriza a mulher e defende que elas, há quase cem anos atrás, tivessem oportunidades de viver uma vida ao ar livre, acampando da mesma forma que os rapazes, algo impensável na época, e pudessem aprender a serem independentes desde novas (fato que muitos homens ainda hoje insistem em tentar impedir).

Ele, por sua paixão pela natureza, continua a valorizar a tocaia, a arte de seguir um animal como forma de aprendizado, mas afirma, sem medo, que se fosse jovem, já não praticaria a caça, mas sim utilizaria as recém-popularizadas máquinas fotográficas, dizendo preferir imagens do que troféus em suas paredes.

Por fim ele se torna pacifista intransigente, criando o Escotismo como um ideal de fortalecimento de caráter e como uma força agindo pela união e paz mundial. No escotismo B-P consegue encontrar, talvez pela primeira vez em um mundo extremamente colonialista –  lugares IGUAIS para todos, sem preconceito de classe, de cor ou de origem. O Escotismo era para todos, fossem antigos inimigos bôeres, britânicos ou negros sul-africanos.

O Escotismo completa a transformação de Baden-Powell, que em seus últimos anos, vai para o Quênia acompanhado de sua querida esposa, onde se dedica a tarefas simples: escreve para escoteiros de todo o mundo, pinta cenas das savanas africanas que tanto amou e contempla a presença de Deus no mundo e em sua vida.

É neste livro, sua auto-biografia, que esta transformação pode ser percebida, ainda que o próprio autor não se dê conta disto. É este livro, pela primeira vez editado em sua versão integral no Brasil, que temos oportunidade de aprender a admirar ainda mais este gênio que foi Robert Stephenson Smith Baden-Powell, lorde e cidadão do mundo.

Boa Leitura.

Altamiro Vilhena
Comissão Nacional de Programa de Jovens

Uma opinião sobre “Introdução da Edição 2009 das Lições de Escola da Vida”

  1. Oi, Altamiro.
    Estou encantada com a nova edição do Livro “Lições da Escola da Vida”.
    Em 1986 eu ganhei um exemplar do Chefe Jost ( membro da CENA ) quando ele veio ministrar o I Seminário Nacional de Expansão, que foi realizado aqui em Manaus. Eu me apaixonei pelo livro, só que tanto colocar nas exposições que faziamos, findou perdendo.
    Agora comprei novamente e tive uma maravilhosa surpresa, a apresentação feita por você, que coisa linda, parabéns !!! Quanto orgulho eu tenho do meu Assessor Pessoal.
    Você é 10 !
    Abração
    Edna

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