Reflexões Pessoais sobre a Raposa Serra do Sol

Como meus amigos sabem que trabalho com saúde indígena, recebo muitos
e-mails que abordam a questão dos índios brasileiros das mais diversas
formas. Alguns defendendo-as, outros atacando-as, mas de modo geral
todos mostrando desinformação pelo tema. Recentemente me perguntam
sobre a questão da terra Raposa Serra do Sol, especialmente após a
polêmica provocada pelo General Heleno.
Resolvi então partilhar com vocês meus pensamentos sobre este tema. Em
primeiro lugar é importante dizer que não posso falar com domínio
porque nunca vi um macuxi na minha vida, e, muito menos convivi com
eles. Embora possamos não ter visto um piauiense, um tocantinense ou
mesmo um carioca, todos têm características que os unem como
brasileiros. Já os “índios” não são assim. Esta alcunha foi apenas o
primeiro equívoco dos portugueses e outros europeus que aqui chegaram,
e que, em sua etnocentria, conseguiram agrupar com um mesmo rótulo,
povos tão distintos como Tikuna e Guarani, povos que tem menos em
comum do que portugueses com franceses ou ingleses com alemãos, que ao
menos partilham uma língua com raiz semelhante e um território muito
mais próximo do que os povos indígenas citados.
O termo que atualmente assusta os “defensores da pátria”, prontos
para uma teoria conspiratória em que vêem indígenas independentes –
ainda que dependentes e sustentados por nós, “Nação Indígena”, nada
mais é do que uma forma de individualizar-se. Um Tukano não é um
Kaingangue, que por sua vez não tem nada a ver com um Waiãpi ou um
Krahô. Apesar disso, nunca ouvi falar em nenhum texto, fórum,
discussão, fofoca e nem mesmo conversa ao pé do ouvido, de qualquer
tentativa de emancipação. Os indígenas estadounidenses, mesmo com toda
sua autonomia – tem direito a explorar a terra como bem entendem,
chegando ao ponto de ter cassinos em territórios indígenas localizados
em estados onde o jogo é proibido – não pensam em independência. Como
pensariam os indígenas brasileiros, se na maior parte dos aspectos são
dependentes do nosso governo, dos nossos impostos e que, embora se
sentindo “usurpados” historicamente, se sentem tão a vontade de ser
brasileiros? Tanto no interior do Amazonas, como em aldeias no
interior da terra indígena Kaiapó, o 7 de Setembro, data nacional do
Brasil é tão comemorado como muitas de suas festas principais.
Finalmente e por fim, a questão fundiária. Nós não temos como
entender a concepção indígena de terra. Não adianta. Pensamos a terra
como lucro, comércio e geração de divisas, uso, partilha, herança. Os
índios pensam em terra como vida. Local de moradia, obtenção de
alimentação e descanso dos antepassados. Estão intimamente ligados a
terra, que, em muitos aspectos, especialmente para as etnias que não
foram desalojadas historicamente de suas terras, se repercute de
função social, religiosa e não apenas alimentar e produtiva.
E não é só isso. Pensem nos sem terra. O que eles são? Em sua maioria
– não vamos falar aqui dos aproveitadores – trabalhadores que não
possuem um pedaço de chão onde possam plantar uma horta ou criar
algumas galinhas e uma vaca que lhes garantam sua subsistência. São
figuras, na maior parte das vezes, sem estudo, sem leitura, sem um
conhecimento maior do que os da dura lida do campo. Ou seja, são a
margem da sociedade rural. E sem sua terra, o que são os índios? Como
eles são onde não tem terra, como no Mato Grosso do Sul? Menos do que
os sem terra, porque serão “sem terra indígenas”, ou seja, além de
desprezados pela sociedade, desprezados também pelo único grupo que
poderia se igualar em sua situação. Porque não pensem que o fato de
falar português os faz iguais. Não é assim. O pensar é outro, a
mitologia é outra, o entendimento da vida e das relações sociais é
outro. Eles se vêem com características próprias e são vistos como
diferentes. E muitas vezes tratados com um desprezo que outros grupos
que criaram e recriam nosso imenso Brasil a cada nova geração já
sentiram.
Para concluir, qual a minha certeza final?. Índio sem terra não deixa
de ser índio, mas com certeza, não é mais índio por inteiro.

Altamiro Vilhena
Médico, trabalhando desde 2005 com povos indígenas
2009

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