Peixes-boi em Balbina

Não conheci o Encontro das Águas, que ficou para a próxima, mas aproveitei para ir a Presidente Figueiredo, a Cidade das Cachoeiras. O nome não vem a toa, pois a cidade é realmente repleta de cachoeiras. Aproveitando o seu relevo, nesta região foi construída a hidrelétrica de Balbina, mega-obra de engenharia, que, no Brasil só perde para Itaipu em termos de tamanho. O lago formado pelo represamento do rio afogou muitas árvores que morreram e secaram, deixando somente os seus galhos apontados para o alto, a “cacaia” que se projeta da superfície do lago como pedindo socorro em um sinistro e ao mesmo tempo lindo panorama. Para que os animais não tivessem o mesmo destino uma equipe de zoólogos e veterinários foi contratada para resgatar os que se encontravam “ilhados”. Embora o lago tenha demorado dois anos a encher, alguns animais mais lentos como cobras e tartarugas e outros mais territoriais como os macacos guariba tiveram que ser realmente salvos do afogamento. Uma das veterinárias que foi para lá, a Dra. Estela Maris, continua até hoje, ainda em Balbina, mas trabalhando em um interessante projeto que visitamos. Ela faz parte do Projeto de Preservação dos Mamíferos Aquáticos e da Associação Amigos do Peixe-Boi (http://www.amigosdopeixe-boi.org.br/).
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Eles tem um centro de recuperação para animais capturados por vendedores, caçadores ou simplesmente doados por seus antigos donos. São várias aves, lontras, ariranhas, mas o destaque fica por conta dos peixe-bois. O animal é muuuito simpático, e você pode inclusive ajudar e dar mamadeira para os filhotes que adoram carinho. Vocês sabem como um peixe-boi é morto? Arnaldo, você vai ver que o que fazem com as galinhas nas granjas não é nada. Como o animal é dócil, eles aproximam-se de barco no remo até chegar bem perto deles, que flutuam com as narinas para fora da água. Então simplesmente eles colocam dois pedaços de madeira que tapam as narinas do animal e então amarram suas caudas e esperam que morram. Simples e cruel. E a caça continua, como mostram os filhotes. Um deles, a Laia (que veio de AtaLAIA do Norte) de apenas 4 meses, e que a Alzira amamentou, apresentava no seu dorso vários cortes de facão… feitos por maldade, pois pequena ela ainda não poderia ser vendida. Triste não? Lá também tinha uma anta solta, que o Kim, puxando a mãe, não deixou de fazer carinho.
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Eirunepé

A noite conheci meu companheiro de quarto, o Eone, que vem de Eirunepé e é muito gente boa. Já procurou Benjamin Constant no mapa? Achou longe? Eirunepé está mais ou menos na mesma direção (longitude), mas ao sul em direção ao Acre. Eu juro que já achava Benjamin longe, mas descobri que os 4 dias de barco para Manaus são um passeio, uma distância curtíssima em termos amazônicos. Eles levam de barco quase 16 dias para fazer a viagem ao seu município de origem. Dentro da mesma cidade, povoados mais isolados como o de Mochila (isto é o nome do lugar, e em Benjamin tem um lugar chamado “Capacete”) são atingidos em 7 dias de barco… e só quando o rio está cheio. Isto mostra como a Amazônia é sui-generis. Cada região tem características tão próprias que não há como generalizar nunca. Ele conta que lá é mata mesmo. Por trás da casa dele há um igarapé onde nadam botos-cor-de-rosa, e as seis etnias indígenas locais são presença constante na cidade, sendo que muitos nem falam português. Este grau de Amazônia eu vou deixar mais para o futuro… ou para as visitas. Me acompanhem…!!!

Parque do Mindu

Como queria ver bichos fui no Parque do Mindu, indicação do Daniel. Os animais símbolos de lá são os Sauis-de-cara-branca, pequena espécie de macacos, dos quais não vi nem sombra. Em compensação vi muitas cutias, preguiças e muitos carapanãs (mosquitos) me viram. Numa cidade que é responsável por mais de 60% dos casos de malária registrados, há que ficar preocupado. Lá fui brindado em ver uma das preguiças descendo da árvore e caminhando, mas é um processo tão leeeeeeeeeeeeento que até desisti de ver onde ela queria chegar. Ao menos é fácil de fotografar.

Você sabe o que é um Manauara?

Pois saiba que é assim que se chama quem nasce em Manaus. Desta vez vou falar um pouco da capital do Amazonas, onde fiz um treinamento na semana passada e onde passei a Páscoa. As pessoas tem me perguntado muito sobre quando escrevo. Muito do que vocês lêem é escrito no meu palm, assim sempre escrevo no auge da inspiração e nos lugares mais inusitados como o restaurante, barco, posto de saúde… Manaus, como toda metrópole é um tanto impessoal. Com cerca de 1.800.000 moradores vivendo no coração da floresta, é uma cidade de contrastes, onde a riqueza e a pobreza convivem todo o tempo. Para vocês entenderem conheçam a Rua 10 de julho. Esta rua em pleno centro, passa pela lateral do glorioso Teatro Amazonas e em pouco mais de duas quadras se encontram lado a lado lojas de artesanato chique para turistas endinheirados, uma boate de strip-tease, uma igreja católica muito bonita (São Sebastião), alguns hotéis, cyber-cafes, uma escola de segundo-grau e um cinema pornô. Andando neste trecho tanto vi hordas de turistas como alunos, e ainda fui abordado por uma profissional da noite que anunciava: “taradona, taradona!”. Vou contar um pouco do que vi no pouco tempo que permaneci por lá, poupando vocês dos meus encontros escoteiros e trocas de distintivos. Na falta de mar, o jeito é aproveitar as praias de rio quando eles estão mais baixos. Ponta Negra é a maior praia do Rio Negro, onde há shows e todo tipo de encontros populares, bem como qualquer praia do litoral brasileiro. Na orla os quiosques e o calçadão, onde se passeia com os cachorros ou se faz cooper diante de prédios modernos e caros são similares aos de toda cidade praiana. A água é escura mas não é fria e o banho é convidativo, pois as ondas são pequenas. O interessante é a faixa de areia. No período de seca, a faixa é larga como Ipanema ou Copacabana. Nestes dias, como tem chovido muito, não há areia, a não ser em pequenas áreas isoladas, que ficam com mais gente do que ônibus lotado. O rio inunda tudo, engolindo quase toda areia para, às vezes, somente reaparecer após alguns meses.
No centro histórico há o edifício da alfândega, construído na Europa e refeito aqui após ser remontado pedra por pedra. Era época áurea de Manaus, quando a borracha valia seu peso em ouro, as maiores companhias de ópera vinham se apresentar no Teatro e os ricos, não gostando do efeito das águas locais em suas roupas, mandavam lavá-las na Europa. Um destes milionários, alemão, morava no Palácio Rio Negro e tinha além do porto particular, um terminal de bonde construído especialmente para ele. Circulava tanto dinheiro por lá que a cidade foi a primeira do Brasil a receber rede de energia elétrica. O Teatro Amazonas é deste tempo. Não é a toa que o Guia 4 Rodas o considera uma das poucas atrações 4 Estrelas do Brasil. Ele é realmente impressionante, com um estilo bem clássico, mas com uma cúpula verde-amarela de azulejos que eu juraria ter sido feita durante uma Copa do Mundo. O interior é fascinante, com o que havia e há de mais moderno em termos de acústica e recursos sonoros. Todo construído em madeiras nobres, sua acústica é considerada a quarta melhor do mundo. Eu fui visitar com um grupo de cerca de 40 pessoas, sendo que eu era o ÚNICO que falava português. Japonêses, europeus e americanos eram quem dominava. O grupo vinha de um passeio de cruzeiro, atravessando todo o Amazonas até Iquitos no Peru, pois o rio é totalmente navegável.
Estive na Zona Franca, mas…se sonham com produtos baratos e modernos, desistam. Embora todos os CDs que vocês escutem sejam produzidos por lá e ainda tenhamos entre outras a Panasonic, LG, Nokia, Caloi e Honda, os preços são quase os mesmos do resto do Brasil, e o que impera mesmo são os importados coreanos e chineses.

Mais da comida

O mais marcante mesmo aqui por enquanto são as comidas, então volto pro tema. Os peixes de água doce daqui são completamente diferentes dos do Sul, pois não tem gosto de terra. É tudo muito bom. Espero na próxima semana ir a Islandia comer ceviche, que é o peixe cru peruano… aliás… vai ser o melhor jeito de chegar na Islandia e não sentir frio. O problema e escorregar por lá… afinal, vou estar no Peru e depois de comer anta e veado… sei não!!! Aqui tem muitos pratos feitos com macaxeira (aipim ou mandioca aí para baixo). Usam para farinha, fazem cozido, usam na massa de pão. Outro alimento de toda refeição são as bananas… As peruanas, as grandes, verdes são usadas cozidas ou para fazer o tacate, uma farinha de banana que é comida salgada e pode ser misturada com calabreza, cebola ou o que se quiser. Nas manhãs se tem as frutas como o camu-camu para os sucos, o açaí em todas as refeições (inclusive em biscoitos), o tucumã que parece um super pequi (os goianos sabem o que é isso), só que sem espinhos e um outro que não me lembro o nome que parece um super cacau e que o gosto lembra de graviola vagamente. Depois de comer se pega as sementes para fritar. Fica mais gostoso do que amendoim. A selva dá de tudo mesmo!! Ah! Está na época de cupuaçu. Os sucos são ótimos, e a árvore fica linda, o problema é só não cairem na sua cabeça, como hoje quase fez na minha um mari… um fruto que tem gosto de…  mari… não lembra nada que tem por aí. Venham que vão provar!!!! Na próxima vou contar um pouco da saúde daqui… já tenho boas histórias em alguns dias… mas já estou enchendo muito o saco de vocês, e ainda tem duas fotos para verem como é a comida. Estas são do churrasco, e bati com a digital de um amigo. Em um se vê os bichinhos no fogo. E no outro o meu prato: carne, macaxeira, banana e farinha com caldo…
Abraços,
Altamiro
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Escola em Letícia

O médico, Maurício, e a esposa, Ana Lucia, também médica têm um projeto fantástico. Eles construíram uma escola para que os filhos possam ter boa educação. Nâo somente do ponto de vista acadêmico, mas humano. Os prédios são todos circulares como ocas, todos de madeira. A escola está ligada a net, tem laboratório de fisica, tem estufa experimental e atende até a 7a série mas só tem 45 alunos… em toda escola. Eles trabalham, e muito, pelo sonho de mudar a sociedade local. Sim, porque se fosse só pelos filhos eles voltariam a Bogotá, onde a educação é muito boa e não precisariam “construir” uma escola. A escola segue a filosofia do francês nobel de física Jorge Charpac e é muito interessante.
Além da escola também fui conhecer a feira de Letícia (muitas frutas diferentes e as bananas peruanas de meio metro), o aeroporto, a universidade, o hospital e… Acabou a cidade! .: )

Comida Colombiana

Almocei anta na casa de um amigo colombiano que mora em Tabatinga. Excelente médico, tem um consultório em casa. Aliás, não só não trabalha de branco como ainda atende de papete e…usa rabinho no cabelo. Me senti em casa pois os dois filhos dele também usam. Voltando a comida, comi as sempre presentes banana e macaxeira e… salada com mel. Uma delícia. A anta também é boa, mas meus princípios ecológicos não me permitiram aproveitar adequadamente. A mesma coisa aconteceu hoje, quando fui convidado para um churrasco… Cheguei lá a carne era de paca ou de veado. É bem gostoso, melhor dizendo… a paca é uma delícia… mas é ruim comer com culpa…
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