Impressões Amazônicas 56

Normandia. Nome francês para uma região bem brasileira. Aqui neste pequeno município de cerca de 7000 pessoas, totalmente encravado dentro da área da Raposa Serra do Sol passarei dez dias visitando diferentes comunidades. Não vou encontrar indígenas “bonitos para foto” como gostam os amigos do Sul. Os Macuxi com quem irei conviver tem escolas de ensino médio em suas comunidades (professores indígenas), assistem as novelas da Globo, sonham em ter carros, exatamente como eu e você. Mas ao mesmo tempo tem medo do canaimé, acham normal as crianças de 3 anos tomarem banho de rio sozinhas, cozinham com lenha dentro da casa de um único cômodo onde todos dormem em redes e se preocupam se o diesel vai dar até o final do mês para não ficarem sem a luz noturna – e a televisão!!, bem diferente de mim e de você.

Mas se é terra indígena, porque tem este nome? Normandia é uma região do noroeste francês, invadida pelos romanos e depois ponto de desembarque pelas tropas aliadas na segunda guerra mundial. Porque nesta região nasceu também Henri Charrière, enviado para a Ilha do Diabo, presídio Frances do qual ele e seus dois comparsas foram os primeiros a conseguir escapar com vida. Devido a borboleta tatuada no peito Henri foi conhecido como Papillon, nome do famoso filme de Holywood. Após fugirem, dois dos fugitivos se estabeleceram nesta região para… plantar tomates e daí surgiu a vila dos normandos, que depois foi alçada a condição de município.

A região que visito é a Raposa, da Raposa Serra do Sol. Tem este nome porque o fundador da comunidade tinha uma raposa de estimação que um dia sumiu. Quando ele foi atrás dela encontrou um belo igarapé e resolveu ali formar sua comunidade que ganhou o nome do animal, como sua família ganhou o sobrenome Raposo.

Normandia 04 10 (95) A Raposa é assim… Grande, com quase mil moradores, escola de segundo grau e até ônibus para Boa Vista.

Normandia 04 10 (86) Este é o Posto de Saúde. A agente de saúde (AIS) Lina é Coordenadora Regional dos AIS.

Fomos conhecer a comunidade Nova Geração e chegamos ao final do culto.

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O professor da comunidade prestava contas em Macuxi das ações realizadas e apresentava o plano pedagógico, sob grande atenção. Havia grande alegria por haver transporte escolar e o grande desafio agora é construir uma escola nova, mais adequada aos cerca de 70 alunos. A comunidade discutiu ainda quais as datas marcantes que devem entrar no calendário escolar: Dia do Índio, celebração da demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, Dia das Crianças, Colheita do Milho, Dia das Mães, Colheita da Melancia foram algumas das datas lembradas. Nossa presença alterou a rotina da comunidade, que discutiu conosco as melhoras que poderiam haver na prestação de serviços de saúde. Depois de atendermos algumas pessoas que necessitavam consulta foi servido um inesperado e saboroso almoço: galinha caipira, arroz, farinha e suco. Tudo com uma simplicidade tão grande como a própria comunidade, mas ao mesmo tempo com um calor humano tão grande que tornou o sabor tão especial quanto de um restaurante cinco estrelas.

Normandia 04 10 (45) Nosso motorista Miladir e o Técnico Genival aproveitando a recepção calorosa na nova Geração.

Agora estou na Placa. Sim, esta comunidade se chama Placa e é um entroncamento onde vivem cerca de cem macuxis. Aqui é caminho para Maturuca, onde ocorrerá a festa de aniversário da homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Estão sendo esperadas 18 mil pessoas, dentre elas o presidente Lula. 300 bois já foram preparados para o abate, e toneladas de alimentos já estão sendo enviadas, junto com ambulâncias, cadeiras, material de som e tudo que se possa imaginar. Vou dormir no posto de saúde e de longe assisto a movimentação na estrada.

IMG_1094 Ônibus parado para um lanchinho antes de “subir ” para Maturuca.

Em frente ao posto o pequeno restaurante de Dona Elice, macuxi nata e do seu Vagner, galego de olhos claros e macuxi por afinidade nos garante o prato feito da janta, um frango delicioso e uma farinha servida em um pote de thinner onde sob um aviso de “perigo, veneno” uma caveira impressa nos olha zombeteira. Dispenso a farinha.

IMG_1127 IMG_1126 Eu amarelei, mas Genival encarou a “farinha do thinner”, com caveira e tudo.

Dona Elice é a “segundo-tuchaua”, algo como um vice-presidente, e se orgulha de ter toda documentação, com registro em cartório e tudo. Em frente ao pequeno comércio passam pick-ups e vans. Um ônibus já está parado há algum tempo para o lanche antes dos 90 km finais que serão percorridos em três horas por estradas esburacadas e poeirentas, ainda que discretamente melhoradas ou maquiadas por motivo da visita presidencial e da festa. Enquanto esperam o ônibus sair todos ensaiam os cânticos que serão apresentados na festa e a dança de parichara. O fundo sonoro me faz novamente pensar no privilégio que tenho de poder viajar, conhecer este Brasilzão e ainda ganhar por isso. Me preparo para o trabalho como me preparo para um passeio e realmente vivo com a sensação de estar no paraíso. De repente chega um caminhão com a carroceria abarrotada… de gente. As pessoas descem para esticar as pernas. Todas tem traços nitidamente indígenas. Todas não. Desce uma moça de seus vinte anos, pele branca de neve e bochechas rosadas como camarão na brasa, piercing no lábio, descalça e falando com sotaque gringo: “onde tein um banieiro?”. Tento imaginar sua história… ta vindo de onde, ta indo para onde? E tem gente que tem medo de viajar sozinho…

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Encontrar esta mulher foi como ouvir “Eu sou Vasco, maluco!” no meio da terra indígena. Claro que esta foi uma implicância comigo após eu revelar ser flamenguista. O que é de se estranhar é que esta frase cheia de marra foi dita por um agente de saúde orgulhoso de ser Macuxi e que nos conta a origem de sua comunidade. Tão estranho quanto descobrir que no posto de saúde que está sendo construído na serra, em uma comunidade inacessível na época de chuvas o mestre de obras é paraguaio com direito a sotaque e tudo. Alguma coisa está fora da ordem, fora da ordem mundial.

IMG_1156 Crianças indígenas indo para escola na Comunidade Placa. Todos impecavelmente uniformizados. Você imaginaria isso?

Visito a Fazenda Perfeição, abandonada por seus antigos proprietários e hoje ocupada por uma família que cuida do gado. A fazenda era modelo, grande, bonita, com grandes mangueiras que oferecem sombra generosa, inclusive para a pequena lápide onde repousa um anjo. Miladir, nosso motorista nos informa: “o fazendeiro sempre tinha uma mesa servida para convidados, com leite, pão, coalhada e bolo”. Hoje na entrada da casa o cheiro não é de bolo, mas da rês recém-abatida e me embrulha o estômago. Da cabeça, apoiada na parede, escorre sangue lambido por dois bacorinhos (filhotes de porco). A pele, jogada num canto, murcha e ainda com a cauda, parece – e é – uma veste recém-despida. Os cascos estão encostados em outra parede, o rumen, aberto, expõe a última alimentação e as tripas, em uma bacia, alimentam as moscas. O animal está dividido, mas seu cheiro espalhado por todos os lugares. Respiro raso (impossível respirar fundo) e rezo. Atendo o paciente com toda atenção possível. Na varanda, deitados pelo chão e pelas poucas cadeiras, os indígenas se espalham. Chega uma gestante, pés no chão e dentes pretos, olhar felino pintado como em Caminho das Índias. Sou visto com indiferença, mas tendo absorver cada detalhe da cena da Fazenda Perfeição. O que pensar? Não sei até agora. Não faço julgamentos, não sou juiz. Só sei que é assim. E assim vivem.

Normandia 04 10 (98) Fazenda Perfeição

O lavrado é a porção cerrado de Roraima, ao norte do estado que concentra a floresta amazônica apenas no sul. Como o sertão, o lavrado não é apenas um, mas vários. Nas áreas mais baixas o cenário é de desolação e seca. Onde na época da chuva existem lagos cheios de vida agora há pouco mais que charcos onde o gado tenta conseguir um pouco de água disputando espaço com garças e tuiuiús, que aqui é conhecido como “passarão”. Cipós-chumbo envolvem as poucas árvores em um abraço mortal sugando até a última seiva da planta, que logo se torna pouco mais do que esqueleto, tão seco quanto o solo ao redor. Nas áreas mais altas, ao redor das serras de onde descem os rios há uma quase-mata onde a vida surge vitoriosa e onde o carro assusta uma cutia ligeira e uma raposa de rabo enrolado. Sem folhagens densas as aves são vistas com facilidade e logo conseguimos fotografar passarinhos vermelhos, amarelos, laranja-cenoura, verdes, castanhos, gaviões de diversos tipos e majestosos urubus-rei – uma árvore cheia deles.

Normandia 004 10 (79)Cipó-chumbo.

Normandia 04 10 (313) Árvore cheia de Urubus-rei.

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10 comentários em “Impressões Amazônicas 56”

  1. altamiro,
    obrigada por me incluir na lista de emails, estava ha um tempão pedindo ao Pedro para pedir a você e ele sempre esquecia! risos!
    Muito legal ler tudo isso e ver as fotos tao bonitas… realmente seu trabalho é uma oportunidade unica e um grande enriquecimento cultural!
    beijos e parabens
    flavia braz

  2. Altamiro, invejo esta sua capacidade de sintetizar a pratica,
    geografia, meio ambiente, social, historia e a fotografia. Que Deus
    faca crescer cada vez mais essa sua expertise! Grande abraco Roberto
    Carlos. Em tempo, cuide e ensine com carinho a nossa ex-nutricinista
    Taise.

  3. Belas fotos e texto impecável, como sempre. Parabéns, Altamiro.
    Aqui em Santa Catarina a chuva anda castigando esses dias. E a temperatura caindo a cada dia.
    Grande abraço e muita sorte para você por aí.

    Luiz Otávio

  4. Olá amigo Altamiro, com tanta coisa interessante para ser contata nas suas vivências estamos sempre visitando o seu blog.
    Como vc diz, viver , conhecer de perto este Brazilzão e tôdas estas pessoas com vidas tão diferentes é um previlegio e que vc curte de uma maneira bonita e humana .
    Abraço amigo, Cristina.

  5. Altamiro,
    Mais um capítulo dessa sua linda jornada. Leio e fico encantada com a forma que você, dono de uma sensibilidade fantástica, percebe e comenta coisas que passariam desapercebidas a muita gente.
    Parabéns amigo por ser a pessoa que é.
    Muita paz e muita saúde para você e sua família!!!!
    com carinho
    Luciana

  6. Altamiro,
    Como também sou escritor, às vezes minha imaginação extrapola. Outras vezes ela simplesmente empaca.
    É excesso de imaginação minha ou mesmo uma cegueira que você teve uma queda pela gringa? Não deu para ver o rosto dela na foto, mas você a descrevem bem demais… :-))
    Brincadeira entre amigos… Agora, espero que curta bem a sua família em Niterói. Quando voltar, escreva mais sobre suas aventuras. Elas são simplesmente maravilhosas.
    Um grande abração do botafoguense,
    Ricardo

  7. Oi bom dia,meu amigo vc sempre surpreende a todos nós com sua inteligencia,vc e muito bom!!!!! saudades suas mande bjs pra Lídia e pro pompom,mande noticias forte abrço!!!!!!!!!

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