Impressões Amazônicas 48

Tenho tentado ao máximo aprender o idioma falado pelos kaiapós. Mebengokre kaben é como eles chamam a própria língua, significando idioma “idioma mebengokrê”. Este nome, mebengokrê significa “povo do buraco do rio” e é como eles próprios se designam, pois o termo kaiapó foi cunhado por tribos inimigas que chamavam-nos de “pessoas com orelhas de macaco”. Além dos kaiapós, os txucarramãe e os xikrin (agora famosos por terem invadido a vale do rio doce) partilham historicamente a mesma linguagem e etnia.

A língua é bem simples, e já consigo fazer a consulta, especialmente a de crianças, completamente em kaiapó. Eles ficam muito felizes quando aprendo e falo algumas frases. Riem muito, especialmente quando erro, mas é um riso complacente, pois logo tentam me ensinar. Diferente dos tikunas no AM que não gostavam de ensinar, os kaiapós adoram. Acho que isso preserva sua cultura, pois se não sei posso aprender tikuna eles são obrigados a se comunicar comigo em português e assim perdem. Já se posso falar em kaiapó, eles reforçam sua linguagem com o prazer de um kuben (branco) aprender.

Como disse a língua é simples. Por exemplo as cores. Eles tem preto, branco, sangue (kamrô – vermelho) e… colorido (ngrã ngrã). Como ngrã ngrã entra tudo que é colorido… e no começo eu achava que eles eram daltônicos porque tanto o verde como o azul como o amarelo eram todos ngrã ngrã… risos.. Outra cor com nome é o rosa, que chama kaibi kamrô, ou seja, meio vermelho.

Aqui eu faço uma pausa para falar de uma simplicidade máxima, que contudo não é kaiapó. Vocês sabem como os franceses contam? Depois do setenta e nove vem o quatro vinte. Ou seja, o oitenta chama quatro vinte e eles seguem… quatro vinte um (91), quatro vinte dois (92), até quatro vinte nove (89) e… quatro vinte dez (90), quatro vinte onze (91)… tão bizarro que poderia ser lusitano, mas não é. Alguns países francófonos, como a Bélgica, contudo, já modificaram isso e já tem o oitenta e o noventa incorporados a sua língua. Voltando aos kaiapós eles também contam assim: primeiro (púdimi ou púdi), casal (amaikrut), casal sozinho (amaikrut ikieket), casal casal (amaikrut amaikrut), casal casal sozinho (amaikrut amaikrut ikieket) e por aí vai, até que chegam no muitos (kumet). O mais difícil é o raciocínio do não. Vejam o nó, ainda mais lembrando que sim é “nan” e não é “ket”. Eu pergunto em relação as doenças: kangró ket? (sem febre?) e elas respondem: nan (sim, se realmente estão sem febre) ou ket (não, se estão com febre, ou seja, se não é fato que estão sem febre). Confuso, não? Mas é assim.

Cada vez que entro em uma aldeia aprendo mais e me impressiono com os hábitos, por vezes tão distintos dos nossos. Vivemos tão perto mas ao mesmo tempo tão distantes… e esta é somente uma das centenas de etnias do Brasil… somos mesmo uma sociedade muito misturada. Só devemos lembrar sempre que todos tem que ter o seu espaço, pois cabe todo mundo no Brasil, ou, como diz um grande amigo: “olho pro tamanho do planeta e vejo que ele é tão grande, grande demais. Tem lugar para tudo mundo viver sua vida e viver em paz…”

Eu já sabia que as viúvas raspam a cabeça quando seus maridos morrem. Hoje atendi uma que, além de careca estava sussurrando. Aprendi que as mulheres – e na verdade isso também vale para os maridos que enviúvam – devem se manter contidos em tudo durante o período de luto. Isso significa, além de raspar os cabelos, falar somente sussurando, não participar de festas e nem mesmo se pintar até os cabelos voltarem a crescer totalmente, que é quando termina oficialmente o luto.

Esta semana também estava acontecendo a festa da mandioca em Gorotire.Com a minha chegada o “dono da festa” interrompeu a comemoração – mais uma vez eu fico sem ver uma festa – para que todo mundo pudesse ir a consulta e para que ele pudesse pegar mais mandioca. Esta festa é assim: de dia todo mundo de se enfeita e dança, os homens se exibindo para as mulheres e vice-versa. Os homens solteiros só podem dançar com as mulheres casadas, e os casados só com as solteiras. De noite a festa continua mas sem muita dança, apenas os casais vão dançar a dois e “namorar”. O Bedjara, um dos agentes de saúde indígenas que trabalha comigo estava me ajudando. Aí eu perguntei para ele. “Então se você dançar com uma menina e namorar ela sua esposa não vai ficar brava?” Ele respondeu: “Não pode, porque é tradição.” E eu insisti: “E se ela namorar com outro, você não fica bravo?”. E ele: “Eu fico com ciúme, mas não fico bravo porque é a tradição”. Cada um é cada um, tem muito kubem (branco) que iria adorar uma festa assim…

Bekwoikoti é uma senhora vaidosa. Nos seus quase oitenta anos, Bekwoikoti, também chamada de Luiza adora contar histórias, usar enfeites e gritar com uma voz aguda para qualquer um que fala seu nome errado: “Bekwoikotííííííííí”. Impossível não aprender. Como apareceu um tumor no pé desta senhora, a encaminhei ao cirurgião, que ao examinar marcou uma biópsia. No dia do exame estava tensa, escolheu seu melhor vestido e trocou de enfeites três vezes até escolher um que aprovasse, com a aprovação também da técnica de enfermagem que a acompanharia. Bem humorada, Luzia sempre falava de seus problemas rindo, como se a vida fosse uma alegria maior do que as dores de sua idade.
Em uma visita a Aldeia Las Casas, soube que Bekwoikoti estava por lá, e mesmo já sendo tarde (mais de sete horas da noite) resolvi visitá-la antes de ir embora desta que é a única aldeia onde chegamos de carro. Como estava chovendo em ritmo amazônico, optamos por ir de Toyota até a casa da senhora, do outro lado da aldeia. Lá dentro da pequena cabana, estavam ela e a filha. A filha cuidando da fogueira na qual Bekwoikoti sem roupa alguma se esquentava, sentada sobre um fino cobertor no chão. Consultei, falei do problema do pé e prometi enviar vitaminas. Nese momento ela começou a falar, iniciando o choro típico da mulher Kaiapó: alto, agudo, em uma ladainha incessante. Não entendi nada, mas o meu tradutor e a filha encheram os olhos de água, e logo entendi que deveria ser algo emocionante. Depois ele traduziu dizendo que ela dizia que eu saia sob chuva para cuidar dela, que isso era uma coisa que nem os filhos fazem por ela, então eu agora era mais do que um filho para ela e que eu podia chamar ela de “mamãe Bekwoikoti” e agora ela me chamaria de “filho Doutor” e por aí vai. Fiquei realmente sentido, pois fui atendÊ-la com carinho, ainda que soubesse que pouco poderia faer por ela. Assim que saímos, fomos nós tentar sair com o carro sob a chuva torrencial que não havia cessado um instante e… lama e… rodas atoladas. Saímos para ver o que fazer e logo fomos ajudados por dois outros índios que logo se somaram a mais outros dois. Nós seis após mais de uma hora de esforços sob uma chuva que não parou um instante, atolados na lama tivemos que cavar um buraco sob cada roda, preparar um “macaco baiano”, levantar o carro, calçar cada roda com pedras e finalmente sair do buraco. Acabou o problema? Não, pois o caminho estava interrompido com um rio que havia subido demais. Demos a volta por um caminho alternativo e… outro riozinho havia se tornado caudaloso… Só restou voltar para a aldeia e esperarmos mais três horas para podermos ir embora com a chuva mais fina, e ainda molhado e todo sujo de lama. Tem gente que pode dizer que isso foi literalmente um “programa de índio”, mas foi um programa que me fez sentir-me tão vivo, que valeu tudo. Os problemas são importantes, pois nos permitem achar soluções que são sempre gratificantes. Gente que não tinha nada que estar sob a chuva foi lá ajudar a desatolar o carro, mostrando que sempre tem um anjo que surge quando precisamos. Se atolei na aldeia, sei que valeu, pois deixar a velhinha feliz foi uma ótima causa. E lá fui eu com histórias para contar para os netos e os amigos… Ainda bem que vocês tem paciência para ler os meus “causos”…

Altamiro

 Eu e a esposa do Cacique Delegado, de Gorotire.

 O agente de saúde Takakmakoro e a anciã Kadoj.

 Jovens após uma noite animada de festa “daquelas”.

 Crianças em Aukre.

2008-01-grt-66 Mulheres voltando do traabalho em Gorotire.

 Crianças em Kikretum.

2008-01-grt-7 Menire em Gorotire.

download Esta senhora é a Kadoj… 


29 opiniões sobre “Impressões Amazônicas 48”

  1. Olá meu amigo querido
    Não pude ler tdo q escreveu, só vi as fotos q como todas que vc envia são muito lindas!
    To sem computador em casa e quando entro (raramente) na net não dá tempo de ler tudo, mas procuro logo se vc me mandou algo rsrs. Sei q estou um pouco atrasada mas tbm sei que para amigos todo dia é dia para se desejar tdo d bom: alegria, saúde, paz, prosperidade, amizade, discernimento, reconhecimento, disposição e muito, muito AMOR, que a luz de amor e compaixão pelas vidas que brilha em vc, resplandeça cada dia mais e mais e… enfim… pra vc…
    FELIZ 2009
    Bjs, Evanir
    Petrópolis-Rj

  2. Bom Dia, Altamiro!

    Acabei de receber seu e-mail.
    Fico embevecida e cada vez mais interessada na história desse nosso imenso país.
    Sinto orgulho de vc.Eles o enriquecem com a cultura deles.E vc a nós seus leitores aue o admiramos cada vez mais.
    Obrigada.
    Um abração,

    Ana

  3. Altamiro,

    Tudo ok com você?
    Irmão, cada dia que você me envia estas mensagens, eu fico mais orgulhoso de te conhecer.
    Imagino como deve ser gratificante para um médico poder ajudar minorias excluídas nesse mundo globalizado.
    Os índios merecem ser respeitados e ser tratados como legítimos donos dessas terras.
    Muito bonito o seu trabalho.
    Obrigado meus Deus por ter colocado no mundo pessoas como Altamiro. Um verdadeiro médico das causas sociais.
    Um grande escoteiro.
    Um grande e fraternal abraço.

    SAPS

    Cecilio Aguiar Neto

  4. pow cara fico muito feliz em saber que cada dia tu esta divulgando estes trabalhos maravilhosos pelo amazonas, mas se tratando de area indigena, que tambem corre dentro de mim o que tu esta fazendo, lhe desejo todo sucesso para ti e familia que deus possa te abençoar muito.

  5. Altamiro,

    Vc é uma pessoa muito linda!!! Amei ler seu relato e as culturas jamais deveriam se perder
    imaginem em pensar q já se perderam tantos dialetos e tantas belezas…
    Já fui missionária – tenho bastante coisa para contar desse Brasil – Suas Histórias
    e sua dedicação me fascina.
    Que tal escrever um livro? Assim nada dessa maravilha se perderá.
    Desde já aguardo meu exemplar – Livro de relatos com fotos.
    Bjão
    Em breve tornaremos a nos ver.

  6. amigo da paz altamiro, bom dia.

    como é bom ganhar mais uma mãe! Como é bom fazer o natural o simples! Como é bom fazer com amor a nossa profissão! Como é bom ler suas impressões amazônicas.
    muita paz
    everardo

  7. Caro Altamiro,
    A D O R E I o teu relato. Peço que não esqueças de mim em outros emails desse tipo.
    Para quem tem uma vida digamos, “normal”, é apaixonante ter a oportunidade de conhecer um pouco dessa experiência extraordinária que estás vivendo. És muito generoso em dividí-la conosco.
    Agradeço imensamente e espero receber outros relatos e fotos.
    Um grande abraço e que possas continuar ajudando esses brasileiros tão esquecidos pelos demais brasileiros.
    Cora

  8. Altamiro:
    sempre me emociono com tuas histórias. A foto das mulheres voltando do trabalho me lembraram um Debret. Se a arte dele fosse fotografia seria exatamente assim. Que maravilha poder compartilhar de tuas vivências.
    Um beijo meu amigo,
    Tere

  9. Prezado Amigo Altamiro,
    Vibro com suas Historias e reportagens.
    Obrigado por me ter em sua lista.
    Um grande abraço e Deus te dê força e coragem sempre.
    Tarzan 72 – SP
    G. E. Cassiano Ricardo.

  10. Acredito que a nossa valorização com o reconhecimento profissional surgem destes “pequenos” grandes gestos que fazemos e muitas das vezes não são entendidos por outros membros da EMSI. Vc tem um diferencial: ser médico!! Mas a despeito de ser´o médico, tem uma pessoa atrás disto… quando li o relato do atendimento da “mamãe Bekwoikoti” me vi, também, em algumas situações semelhantes aqui com os Maxakali/MG.
    Roberto Carlos de Oliveira

  11. oie….
    Muito legal o seu trabalho ! parabens !!
    Gostaria de estar tb vivenciando “estes ” vários “mundos” inseridos dentro no nosso mundo e que nem sempre temos conhecimento…muito legal … se eu nascesse novamente com certeza estaria por ai e não teria recusado quando terminei a faculdade por aqui o convite que me foi feito pela Universidade Federal de Roraima para trabalhar por lá..mas eu nos meus 25 anos nem pensava sobre os nossos vários mundos…mas quem sabe eu possa um dia “ver” de perto o que acontece no Norte deste nosso país e “tentar” fazer alguma coisa, pois parado é que não dá pra ficar ….
    Bom ter noticias .. espero que esteja td bem contigo..
    Valeu !
    Sucesso!
    Denise

  12. Ta Altamiro, nao to entendendo muito bem….você está novamente com os kayapó ou apenas contando uma história menos recente? Confesso que quando leio suas histórias quase morro de saudades e ao mesmo tempo me sinto tao presente!Muito legal..saudades de vc tbm, espero que esteja tudo bem por ai! beijos
    Anapaula

  13. Altamiro,
    É impressionante mesmo essa cultura indígena, não ?
    Tenho certeza que você vai aprender logo o idioma deles.
    Essa tradição deles é bem engraçada, o periodo de luto é levado a sério, os
    brancos as vezes não deixam nem o defunto esfriar direito, melhor dizendo,
    não deixam nem morrer. Risos…
    Beijos.
    Edna

  14. Oi Altamiro, ainda bem que tenho um amigo com “causos” tão interessantes e bonitos para contar.
    Ler suas vivências é sempre muito gratificante.
    Um grande abraço.
    Cris

  15. Parabéns!!!
    As impressões estão cada vez melhores!! E cada vez sinto mais vontade de conhecer estas bandas daí!!
    Dá para você me enviar um mapa com a localização (pelo menos aproximada) de onde você está?
    Abraços e boa sorte!!
    Marco Santana
    Santos, SP

  16. Oi Altamiro,
    Quanto tempo heim amigo? Não vem mais à SJC? Sempre leio sua histórias e adoro….Acho que sua alegria e envolvimento ao cuidar destas pessoas, me faz muito bem e o admiro cada vez mais ..por essa sua escolha e projeto de vida.
    estou aqui em Belem para ver minha mãezinha de 96 anos e também pro Fórum social Mundial..você está por aqui?
    ABRAÇOS,
    DULCE

  17. Qual é a tinta usada nas pinturas?, ou melhor qual a planta usada?, será a mesma usada em Benjamin Constant?
    Aabraços , Ah! eu estou trabalhando Na Penitenciaria de Segurança Maxima de Catanduvas.

  18. obrigada por manter-me informada, parabens pelas belissimas fotos…
    estou morrendo de saudades de todos, estarei regressando no dia 7 de fevereiro. beijos thati…

  19. Foi muito bom ler toda essa história. Na verdade fazemos parte dessas histórias e para quem gosta do que faz é um prazer divulgá-las.
    Na semana passada estive em Belém participando do Fórum Social Mundial. Fui como participante, mas ao chegar lá fui convidada a participar da equipe de apoio da Funai, colaborando na parte de alimentação dos indígenas. Fui pega de surpresa, mas graças a Deus deu tudo certo. Fiz o cardápio da alimentação para todo o evento e acompanheie diariamente a execução, produção, distribuiçao das resfeições. Deu muita mão de obra, afinal pouca coisa estava organizada na parte da alimentação. Quase não´participei das dicussões, mas vi o sucesso, a coisa andar na área da alimentação. Refeições , café , almoço e jantar para 2000 índios, sem uma nutricionista para acompanhar os trabalhos.Depois dessa experiência voltei mais confiante, e certa do dever cumprido.Um GRANDE abraço.

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