Impressões Sertanejas 93

         Estar no Ceará e não se fartar de comer não é o mesmo que não estar ao Ceará. No litoral o prato imperdível é o caranguejo “toc-toc”, cujo dia, já institucionalizado, é a quinta-feira. Não tem idade, sexo ou classe social – todo mundo se reúne ao redor da panela onde boia a refeição, já temperada. Toc, toc fazem os martelinhos que quebram os caranguejos. Chupamos perninhas, patinhas e abrimos a casca, que é comida com farinha e temperada com molho e pimenta. E prepare-se, pois não há como não sair lambuzado, melecado e satisfeito.

31101_big

        Quem não quer se aventurar pelo sertão, mas quer sentir seus sabores, tem uma alternativa em plena Fortaleza: Arre Égua! Restaurante pro almoço e casa noturna a noite, é o local certo para escutar – e dançar – forró pé de serra e fotografar ambientes recriados como os típicos do interior: a casa da luz vermelha, a barbearia, a bodega, o botequim, a capela e a pensão. No cardápio buchada de carneiro, feijão verde, baião de dois, baião com nata, paçoca de carne, manteiga de garrafa, panelada, guisado de carneiro, rabada e língua. Para a sobremesa doce de jaca, cocada de forno e cartola – banana com canela e queijo coalho. Saí de lá abestado, encantado com os vridinhos da janela (tem que ir para ver!). Peguei o beco avexado e me mandei para a praia. Ah!! E se acha que meu português está errado, lembre-se que é “vridinho” mesmo, e nunca “vidrinho”!

299662_244265328944536_4247995_nAssim é a decoração do restaurante. Estas fotos são lá dentro do Arre Égua.

images (1)

__ xx __ xx __ xx __ xx __ xx __ xx __ xx __ xx __ xx

Vou falar das praias, mas vai ser bem ligeirinho. O Ceará tem ótimas praias. Agitação, gente bonita, forró, caranguejo, lagosta, passeio de buggy e jangada, pousadinhas, camarões, luas e estrelas nas falésias, garrafas de areia pintada, dunas e voos sobre o mar. Gostoso. Maravilhoso. Imperdível. Infelizmente as mais badaladas – Futuro – em Fortaleza, Morro Branco, Canoa Quebrada, Cumbuco, Icaraí – se tornaram praias genéricas e globalizadas. Então tanto faz estar ali, Porto de Galinhas, Porto Seguro, Ilhabela ou Búzios. As belezas de confundem com o “de-sempre”. Não deixei de dar, meu mergulho, de escorregar na duna ou me deliciar com o sabor dos camarões fresquinhos, mas prefiro buscar – e contar – outros caminhos, aqueles que você não encontra nas revistas de turismo.

1620936_616215325115879_831352495_nCanoa Quebrada. Estive aqui pela primeira vez em 85… quanta diferença!284217_378614545542626_909180445_nO símbolo de Canoa Quebrada, a lua e a estrela.

548765_378614632209284_1277312687_nCriatividade local na fonte de água.10014702_616212278449517_1502564896_n
E eu me divertindo… Ninguém é de ferro!

__ xx __ xx __ xx __ xx __ xx __ xx __ xx __ xx __ xx

SERTÃO

O sol queima minha pele. Cerro meus olhos e sinto minha boca seca. Andar no sertão não é de foram alguma confortável, mas é uma experiência única. Espinhos, farpas, espetos, carrapichos. Chame como quiser, eles estão lá, desafiando seus jeans, ferindo os joelhos. Subitamente compreendo porque o sertanejo vivia de armadura – couro: única proteção contra os açoites da natureza. Estou no sertão do Ceará, terra de valentes que ousaram desafiar o clima, a distância e a natureza para construir lugares que aprenderam a chamar de lar. Quixeramobim, Juazeiro, Ibaretama, Banabuiú, Quixadá. Em cada destas cidades o homem ousou contrariar os desígnios de Deus e construiu casas, vilas e cidades.

148797_378614105542670_1017905430_nSó com roupa de couro o sertanejo enfrentava todos estes espinhos.

1780790_616213438449401_551532241_n

563211_616209471783131_1950906982_n
Imagine viver aqui… sem ar condicionado. 1184842_616212895116122_15052835_n


O maior desafio – mais terrível que espinhos ou cangaceiros – foi aprender a viver sem água.
Hoje muitas casas têm cisternas com um sistema que permite máximo aproveitamento da água da chuva, que chega de repente e de um dia para outra transforma a paisagem, de cinza-queimado em verde-vida.

1779758_616214361782642_80445810_n

Cada casa uma cisterna.

1779220_616214328449312_709730517_n

No passado grandes projetos juntavam águas em imensos açudes. De tão importantes e celebrados em prosa e verso de cordel, muitos se tornaram míticos, a fantasia superando a realidade. Assim são Orós, na região de Igatu, e Cedro, em Quixadá, este último construído a mando do Imperador Pedro II. Obra imperial, de primeira, com engenharia inglesa e construção avançada para a época, que trouxe a vitória definitiva do homem sobre o sertão. O tamanho e a boniteza me impressionam quando percorro a sua parede principal. Me transporto no tempo e mergulho em paz e tranquilidade. O vento percorre as águas e chega até mim quebrando o silêncio e aliviando o calor.

47076_378614995542581_1947945380_nAçude do Cedro247748_378614968875917_665291473_n

1800449_616209661783112_294511881_n1002659_616210435116368_1267298970_n 
Açude do Cedro. Ao fundo a Pedra da Galinha Choca, que foi destaque em filme dos Trapalhões.

Ao meu redor, gigantes de pedra testemunham meu caminhar. Elefantes, tatus e uma enorme galinha brotam do solo e ganham os céus. Elas se espalham por Quixadá e enfeitam a paisagem para onde quer que se olhe. Nos lembram como somos pequenos, ainda que por vezes consigamos vencer a natureza, como ocorre no açude. Mera ilusão, pois sou interrompido pelo meu amigo Rocélio, que me fala num sussurro.
– Bonito, não? Imagine isso seco. Quando eu vi, chorei, pois não conseguia acreditar que toda esta água um dia poderia acabar.

1796521_616210718449673_1446965563_n

530332_378615172209230_203748645_nBarragem do Cedro, bem abaixo de seu limite de águas, como pode-se ver na foto abaixo.1098064_616210331783045_830303844_n

Açude seco é açude sem vida. A vitória sobre a natureza nem sempre é definitiva. Se a chuva tarda muito, o sol seca as tetas das cabras e esturrica toda planta verdosa que insista em nascer, e a gente do sertão perde. Hoje, depois da globalização e da onipresença da antena parabólica, o prefeito grita: “estado de calamidade pública” – e o governo manda dinheiro, carro-pipa, vale-todotipodecoisa. No passado havia uma transformação: o sertanejo virava retirante. Para o norte foram os soldados da borracha. Para o sul os paus-de-arara. Para Brasília os candangos. Os que ficaram tiveram como companhia: a fome, a miséria e as cruzes. Para conciliar-se com Deus, afrontado com a ousadia sertaneja, cria-se igrejas, paga-se penitência, organiza-se uma procissão, tentando um meio-termo que permita a vivência.

41036366
Santuário de Nossa Senhora Imaculada

Maria
foto:http://blog.opovo.com.br/

Vista-550x412
foto:http://blog.opovo.com.br/

260374_2226944677126_1353083176_32619687_6906530_n
foto: http://paroquiamissionaria.blogspot.com.br/

Ainda em Quixadá, no alto de uma imensa rocha, descubro um santuário construído no alto de um dos gigantes de pedra, onde Nossa Senhora Imaculada é a Rainha do Sertão. De forma simbólica e concreta o homem se aproxima dos céus. A procissão, se arrastando feito cobra pelo chão (obrigado por essa Gil) leva romeiros a enfrentar poeira, sol e uma pirambeira sem fim em busca da proteção divina. Dos céus, espera-se chuva e busca-se Deus.
Espero que possam encontrar. E que cada um de nós possa também.
Fiquem em Deus,

Altamiro

Uma opinião sobre “Impressões Sertanejas 93”

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s