Impressões Indianas 70

25 mar – Sábado

Pela manhã uma mulher me aguarda em frente ao shed com a roupa que havia lhe dado ontem para lavar e passar. Para passar faz como nos velhos tempos: coloca brasas dentro de um velho ferro. Cada peça de roupa, seja uma blusa social, seja uma cueca, é lavado e passado por cinco rúpias, cerca de 20 centavos de real. O incrível é que em cada um dos muitos prédios há uma senhora destas. Elas recolhem a roupa e depois no dia seguinte, sem anotar nada em papel algum, sabem exatamente o que é de quem.

india 2 11 03 (70) Incrível como sabem o que é de quem. Olhem a cor da água onde a roupa é limpa… e sai incrivelmente branquinha.

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Dentro do ashran não há pedintes. Em compensação é só sairmos que começa: ”Sai Ram! Sai Raaam”! Gemem mulheres com a mão estendida. E se você dá para um, vários surgem. O Gherardo, de olho claro e bigodão branco tem cara de gringo endinheirado. Ele é seguido, onde quer que vá. Hoje fomos a uma farmácia e por mais de cem metros uma mulher o seguiu com uma criança no colo. Impressionante a persistência. Eles não sabem o significado da palavra não! E não adianta falar em outra língua. Uma vez fui falar que não entendia para uma menina e ela me respondeu “então amanhã?”. Pedem em português, espanhol inglês e italiano. Hoje estávamos andando e de repente escutamos gritos. O que houve? Do bolso de Gherardo caíam notas de dez rúpias. Eles avisavam e um senhor trazia uma nota caída nas mãos. Meu amigo quis lhe dar, mas pediu que não lhe desse, mas sim que comprasse açúcar para ele. Compramos açúcar, que é vendido a granel. Na venda o homem ainda resolveu pedir café… Dá-se os dedos, pedem os anéis… hehehe!

Entro em uma loja onde o Dalai Lama sorri para mim em uma grande foto. O dono faz parte da leva de tibetanos que fugiu para a Índia para escapar das perseguições do governo chinês. A loja é linda e a música ambiente perfeita. Tanta coisa diferente… Difícil imaginar como toda uma nação foi forçada a exilar-se por conta de um governo ditatorial. Pior é saber que esta é uma história que não terá final feliz.

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29 de março

Resolvo doar sangue. Pego um riquixá motorizado para o SuperHospital de Especialidades. É enorme e totalmente gratuito. Bonito, diferente do que imaginamos de um hospital. Não estava cheio e foi bem rápido. Me deram um papel para preencher, avaliaram minha pressão e pronto, já para a sala de doação. Ao acabar recebo o tradicional suco com biscoito e dois envelopes com vibhuti, cinza sagrada indiana.

IMG_0980 Este é o hospital.

No hospital todos andam descalços. Em alguns setores é até proibido andar calçado. E percebi que existem problemas de comunicação. As vezes os atendentes e pacientes não se entendem. Quem foi que disse que os indianos todos falam inglês? No estado onde estou falam telugo, em outras regiões tâmil, híndi, urdu, malaiala… E o inglês é duríssimo de entender. Imagine a confusão em um país que tem 23 línguas oficiais, fora as das minorias…

Saindo do hospital aceito o convite do motorista e vou conhecer os arredores. Plantações de girassol, arroz e flores se espalham pelos campos. Passo por um grande lago com tumbas em seu entorno, por diversos templos e lugares santos. Incrível como tem templo aqui. Cada esquina, cada casa tem o seu, com os tamanhos mais variados. Há um grande templo para Shiva no alto de um lago que fomos visitar. Lá vive um monge que mostrou fotos e me colocou para meditar em uma pequena salinha que, segundo ele, concentra toda energia dali. No passado andava como sadhu, com cabelo e barba grandes e rosto todo pintado. Hoje está mais simples, vestido de laranja, careca e com riscos cinza pintados na testa. Ele coloca um chapéu de bronze em minha cabeça, faz orações e pinta minha testa com tinta vermelha e cinza. Depois, gentilmente sugere que eu contribua para o templo, o que neste caso faço até com carinho, pois ele foi bem atencioso.

IMG_1029 A cupula do templo.

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Na frente do templo dedicado a Sai Baba de Shirdi, antigo sábio muçulmano, encontro macaquinhos. Dentro, outro monge mostra o local e depois aplicando nova pintura em minha testa, desta vez laranja, me sugere que eu contribua com algumas rupias.

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Em uma pequena vila o riquixá foi cercado por meninos, de cerca de 12 anos. Todos querem saber de onde sou e ficam felizes ao repetir “Brasil, Brasil”. O carro não pode sair antes que todos apertem a minha mão.

Os vilarejos se repetem: búfalos peludos e atarracados, carros de boi, velhas casas de pedra, crianças brincando nas ruas e senhoras recolhendo água. Nos dez dias que estou aqui não caiu uma única gota de chuva. Dizem que é assim mesmo: não chove nada até a época das monções, quando então o céu se faz cachoeira.

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A noite como em um restaurante tibetano. Prato principal: chowmen de cogumelo e momo. Pelo que entendi “momo” com recheios variados é o prato principal deles. Parece um guiozá (pastel japonês assado no vapor). O arroz é pequeno, diferente do brasileiro e bem temperado. Provamos quatro pratos e tudo não deu vinte reais.

IMG_0821 Este é o momo.

30 março

Acordo com o céu escuro para tentar assistir o nascer do sol na Árvore da Meditação, fora do ashran. No caminho vejo muitas pessoas nas ruas. Há uma procissão diária de cânticos com sonoridade incrível. O barulho dos pássaros que despertam, os inúmeros morcegos assoviando e os cânticos se fundem, inebriando minhas sensações. Aum…
Aos poucos a claridade me força a abrir os olhos. Diante de mim uma enorme bola de fogo tinge de laranja o céu cinzento. Mais um dia inicia e com ele a maravilha da criação se renova.

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31 de março

Madrugo para tomar parte da caminhada ao redor do mandir. Vou descalço, pois não se pode mesmo ir com sandálias na cantoria. Terrível engano. Parece fácil quando se vê os outros andando sem calçados, mas não é. Pedrinhas no caminho e o chão irregular logo me trazem arrependimento. Confesso que não gostei muito. Não consegui me concentrar com a caminhada, tomando cuidado para manter o ritmo sem ser atropelado nem atropelar ninguém. As músicas eram em híndi ou outro idioma local e não entendia nada.

Tomo suco de laranja diariamente nas ruas. Como é feito na hora e usam copos descartáveis, nunca tive medo. Só que hoje, não sei porque, estou mais atento. O cara corta a laranja e espreme com casca e tudo, uma metade por cima da outra, o que faz com que a sujeira que porventura tenham vá direto com o suco. Ai, ai… E para meu azar hoje o copo plástico acabou. O de vidro foi limpo cuidadosamente com água filtrada – o vendedor me garantiu. Só que sem sabão. E sem esponja… A limpeza foi com a própria mão. Ai, ai de novo…

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3 de abril

Dia de ir embora. Fiquei aqui exatamente quinze dias. É comum quem passe um mês, dois ou até mais e volte sempre. Nelson, o argentino que acompanhei no hospital, veio para passar seis meses. Gherardo, o italiano já veio 18 vezes. Sthefen veio seis vezes, a primeira em 75. Peter, australiano, começou a vir há 26 anos e não conhece nada da Índia além de Puttaparthi. Jeff, escocês, meu chefe na limpeza, já está aqui há três meses. Quando vai embora? Nem ele sabe, por enquanto “vai ficando”. Os custos são baixíssimos. Dentro do ashran você pode facilmente viver com 220 rúpias por dia, comendo bem, o que dá cerca de RS 8,15 ao dia.

Última saída para tomar suco de lichia. Delícia. Vou ficar com saudade. E a garrafinha é só 13 rúpias… cinqüenta centavos. Ah se fosse no Brasil… No caminho de volta me despeço mentalmente de cada um dos pedintes a quem não dei nada – afinal Baba sempre diz para nunca darmos dinheiro a um pedinte. Chegamos a nos acostumar com eles. Daquele tipo de costume frio de nem mais se incomodar com a pobreza e a miséria em sua porta. Triste isso.

Agora a última janta onde encontro os poucos amigos que fiz. A despedida me dá certa melancolia. Mas faz parte. Cada vez que partimos já estamos prontos para voltar. E se há dor na despedida é porque a saudade já começou, o que garante que algo importante aconteceu dentro da gente.

O táxi chega, arrumo as malas. Om Sai Ram. Hora de ir. São agora 30 horas de vôo até a chegada. Saudade de casa e já saudade daqui.
Que Deus esteja sempre no coração de voces,
Altamiro

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