Impressões Indianas 67

18 março
Vou voar por quase 24 horas em direção a Bangalore, Índia. Ao contrário do que todos imaginam, não vou passear. Nada de Taj Mahal, rio Ganges ou excursões em elefantes. Vou a um ashran que fica em uma cidade chamada Putaparthi. Não há como negar que estou ansioso. Talvez nem tanto pela extensão da viagem, que faço sozinho, mas pelo que vou fazer: rezar. Não tenho idéia de como será ou o que poderá acontecer. Se a idéia existia há muitos anos, o sonho surgiu há pouco menos de seis meses e de repente se concretizou. Era a hora, e como tal as portas se abriram. O que espero? Na verdade prefiro não esperar. O que vier será lucro. E é claro que não abro mão da máquina fotográfica e da mania de contar histórias, afinal, apesar de fisicamente estar sozinho, sei que estarei com vocês o tempo todo. Como sempre. E para cada um levarei um pensamento de luz, paz e amor.


20 de março
Acabei de chegar em Bangalore. O motorista, Mr. Mani já está me esperando do lado de fora. Ele é simpático e logo estamos dirigindo para o centro da cidade. A mão inglesa sempre é estranha, mas o diferente é que, mesmo sem transito, pois já é de madrugada, se buzina o tempo todo: para mudar de faixa, para ultrapassar e até para simplesmente fazer barulho. Alguns caminhões mais largos tem o aviso na traseira: Favor buzinar ao ultrapassar. Quando passamos percebo que não tem espelho retrovisor. Aqui o uso do cinto não é obrigatório e nem mesmo o capacete nas motos. Passam rapazes empinando as motos e concluo que os idiotas estão em todos os lugares.
Vou atento tentando captar o máximo de imagens: um tempo de Shiva, todo iluminado (o rosto de Shiva é formado por luzes, como as que usamos no Natal), um Centro de Casamentos (lembrando que aqui os casamentos são festas enormes, onde as famílias gastam o que tem e o que não tem), hospitais, hotéis, cartazes anunciando filmes com aqueles bigodudos descamisados e com senhores de cabelo branco que lembram o Lima Duarte em Caminho das Índias – Hare Baba!

11 03 estrada indiana (3) Está lá no caminhão: “Sound Horn” – Toque a buzina. E onde está o retrovisor?

Manhã
Estou no saguão do Kevali Hotel, esperando minha anfitriã esta manhã, Senhora Venugopal, mãe do meu amigo escoteiro Srinath. Este hotel é bem o que eu precisava: simples e barato. Camas limpas, água quente, imagem de Ganesha – divindade em forma de elefante que abre portas e caminhos e faz prosperar os negócios – no saguão e acima da recepção duas suásticas, tradicional símbolo indiano de boa sorte milhares de anos antes dos nazistas terem desvirtuado para o ocidente o seu sentido.

kaveri Este foi o quarto da minha primeira noite na Índia. Kevali Hotel.

Casamento na Índia é muito diferente. E muito mais colorido do que se via na novela. As cores são tão intensas quanto os sabores e os sons. Por uma feliz coincidência, após escrever de casamentos ontem hoje fui convidado para um pela família do meu amigo Srinath.

11 04 India b Casamento Castelo Bangalore (05) O casamento foi “simples”, neste lugar: Castelo de Bangalore, residência de férias do Marajá de Mysore.

Para mim começou no café da manhã, oferecido pela família do noivo. A comida é servida em longas mesas onde as pessoas sentam uma ao lado da outra e são servidas sem parar, quase como em um rodízio. O prato é uma folha de bananeira e pequenas porções de um monte de coisa que nem ouso tentar escrever são colocadas por fileiras de garçons vestidos de camisa do Buffet e descalços.

11 04 India b Casamento Castelo Bangalore (09) Olha o meu prato! Onde estão os talheres? Devem estar juntos do retrovisor do caminhão!

Aliás, muito dos convidados vem de sandália tipo “franciscano”, e o rigor está longe de ser o que vemos nos nossos casamentos. Homens de qualquer jeito, desde que de calça comprida. Não vi um terno e muito menos gravatas (adorei isso!), embora as camisas sociais alternassem com blusas de algodão. As mulheres todas de sári, em suas mil cores, colorem o salão. Para comer não há garfo ou faca, apenas a mão. Mistura-se um pouquinho de uma coisa com outra e… nheco! E nesta mistura o doce é servido na frente e se come antes, durante, depois e misturado. Aliás, delícia de doces. Já a comida, embora bastante gostosa é levemente apimentada, e tive que comer sem fazer cara feia. O entusiasmo era maior.

11 04 India b Casamento Castelo Bangalore (10) O que é isso? Não sei, mas era gostoso! E se come com a mão…

Enquanto comíamos uma orquestra tradicional já tocava em um grande (e bota grande nisso) salão onde os convidados após o desjejum aos poucos sentavam.

11 04 India b Casamento Castelo Bangalore (26)

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Enfeites de flores no chão ornamentavam os caminhos, um altar de Ganesha, o elefante, e outro de Lakshmi, uma divindade feminina enfeitavam o local onde os noivos casariam.

11 04 India b Casamento Castelo Bangalore (06) 11 04 India b Casamento Castelo Bangalore (57)

Entrada do salão de casamento, com tapete de flores.
Imagem de Ganesha, toda enfeitada!

Enquanto as pessoas vão chegando vou visitar o Castelo de Bangalore, uma das residências do Marajá de Mysore. O lugar é muito bonito, foi adaptado ao turismo, mas com uma incrível despreocupação com o acabamento, evidente em tudo que é lugar. Tudo está bom, de qualquer jeito, contanto que seja feito. Lógico que tudo seguindo a tradição e os pequenos detalhes, estes sim perfeitos. E estavam! Assim corrimões, portas e mesas ricamente trabalhadas na madeira eram remendadas e repintadas, por exemplo com tinta vermelha, o que no Brasil chamaríamos de “lambança”. Salas de recepção, jardins de inverno, fontes, tudo de muito bom gosto, contrastando com banquetas com pés de elefantes, rinocerontes e veados (que coisa! O ó!). O Marajá, que não era bobo nem nada, tinha também uma coleção enorme de nus artísticos e os quadros se espalhavam em vários aposentos, sem nenhum constrangimento.

11 04 India b Casamento Castelo Bangalore (44) O casamento mesmo aconteceu dentro daquele espaço enfeitado.

De lá voltamos ao casamento, que é de gente realmente importante (até eu apareci por lá! Hehehehe!). Sou apresentado a três atores, além de ex-governadores e até mesmo um ex-ministro. Os sáris são chiquérrimos. Muitos tem pedras incrustadas e tecidos com fios dourados. O piercing no nariz, é quase obrigatório para todas as faixas etárias. E todas recobertas por ouro, muito ouro em cordões, pulseiras, brincos, piercings e anéis enormes. As mulheres literalmente brilhavam.

11 04 India b Casamento Castelo Bangalore (155)

11 04 India b Casamento Castelo Bangalore (77)
A orquestra toca incessantemente e me pergunto se não se cansam. Um monge ou algo assim abençoa os noivos em uma cerimônia repleta de simbolismo. Primeiro o noivo vem com um saco na cabeça, somente os olhos de fora, depois há um corda que os dois se amarram, lavagem dos pés, troca de colar de flores, hora de jogar arroz pintado de amarelo sobre a cabeça dos noivos, fila de presentes.

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Enquanto tudo isso e muito mais coisa acontece, alguns olham atentos, outros não estão nem aí, crianças correm, muita gente fotografa – inclusive turistas como eu – e os noivos devem ficar ansiosos, pois são o centro de atenção do mundo daquela gente. Por fim entramos na fila para jogar novamente arroz colorido sobre eles, e abençoá-los. É bem bonito e interessante! Mais legal do que fila de apertos de mão na igreja.

11 04 India b Casamento Castelo Bangalore (82)

Volto ao refeitório.

11 04 India b Casamento Castelo Bangalore (140) Olha lá os garçons… Descalsos. O de marrom é do pessoal que prepara a comida. Os de saia branca servem. Nos baldes vai a comida que é servida com conchas como a que usamos no feijão.

Filas e mais filas de mesas e cadeiras com as “folhas-prato” e sempre uma garrafa de água mineral. Sim, pois água na Índia é coisa rara e cara e é chique servi-la, único líquido oferecido na festa que não teve nenhuma carne também. No final, como não dá para levar docinhos (todos meio melequentos), leva-se água na bolsa – o que até eu fiz. Ao sair a gente também recebe uma bolsa com um coco e uma folha chamada pan, que é um mato que refresca o hálito, espécie de hortelã local. Aliás, após a refeição também recebemos destas folhas cobertas com confeitos e fechadas em trouxinhas. Uma delícia.

11 04 India b Casamento Castelo Bangalore (150)

Mas se o café da manhã foi farto, o almoço foi mais ainda e foi maior a lista do que provei e não reconheci. Embora algumas coisas fossem mais apimentadas do que eu gostaria, posso dizer que tudo estava gostoso – bem gostoso. Havia até sorvete cobrindo frutas que não consegui identificar, mas que eram docíssimas. O difícil era só comer com a mão. Me pegava sempre tentando comer no máximo usando dois ou três dedos. Não dá certo. Tem que se usar todos, fazer um bolinho de comida e levá-la para a boca antes que ela despenque. E eles são rápidos nisso.

11 04 India b Casamento Castelo Bangalore (162) Minha refeição completa. Tirando o sorvete, o resto todo com a mão.

Depois que o cérebro aprende que “não é mais errado comer com a mão”, tudo facilita e embora não como rápido como eles, consigo não fazer feio. Os indianos adoravam me ver comendo de tudo. Ficavam sempre felizes!

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42 opiniões sobre “Impressões Indianas 67”

  1. Que viagem, meu amigo!!!!!
    Esse é um lugar que ainda vou visitar, gosto de lugares com pessoas diferentes, paisagens diferente e sabores diferentes. Por favor, mande mais fotos.
    Falando em viajem, estou nos últimos preparativos para minha viagem ao Quênia (agosto), acho que encontrarei muitas surpresas, tal qual você encontrou.
    Um abraço,
    Eduardo Campos

  2. OI Altamiro, o selo que vc tem no seu site do GENTILEZA, é selo ou anuncio?? bjs boa semana ,achei os pratos da Indias muito simples,mas gostei .

  3. Que experiência esta sua heim Altamiro?! Nossa fiquei imaginando todo este trajeto, toda esta cultura impactante, toda essa sensação de estar diante do novo… eita, parece filme.
    Bela narativa desta cerimônia, quase que eu estive lá também buscando força para comer na folha da bananeira hehehehe!
    Parabéns pela postagem, valew por me incluir nesta viagem. Fica com Deus e cuide-se, abraço amigo!

  4. ALTA,
    Que bom ver a sua felicidade estampada nas suas palavras, vc merece tudo isso…. e muito mais,
    sua familia, seus amigos, seus empregos, suas viagens… efim . um grande abraço e um enorme bjo,
    Leandra

  5. Olá! Fiquei muito feliz de receber mais um Impressões, dessa vez da cultura Indiana, um tanto diferente! Mais o que seria interessante, se tudo fosse basicamente igual? Amei, mais vou falar a verdade, consegui sorri, em alguns comentários… Um grande abraço!

  6. Bom dia!!!
    Estava curiosa para saber um pouco da sua viagem, fico imaginando vc vivendo tudo isso sua felicidade… pelo pouco que te conheçe, da uma impressao do seu eu vivendo o a realidade aqui fora… imagino que deve ter sido
    marivilhoso tudo isso… seu entusiasmo ao escrever demostra como estava feliz… beijos fico esperando mais… srsrrsrsr

  7. Tudo bem Altamiro? Tenho muitas saudades de vc e do ultimo jamborre.
    Adorei o relato da sua visita! A Índia encanta!
    E que tal o guru de Putaparthi? Um homem de Deus? Sábio realmente?
    E as relações de amizade como são? Mais afetuosas que as nossas? Mais abraços? Mais Intimidade?
    Vc já voltou para o Brasil? Visitou cristãos ae? Tenho muita vontade de conhece-los, saber como vivem. Sei que eles têm 2 ritos próprios tão antigos quanto belos, chamados malankara e malabar!
    Fique na paz!
    Um Abraço
    Rafael Moura

  8. Agradeço-lhe a mensagem!
    Tudo muito lindo e interessante.Quantos costumes diferentes.Senti um tom de simplicidade(talvez auntenticidade em tudo).
    Povo muito simpático.
    Abraços.
    José Carlos

  9. FANTÁÁÁÁÁSTICO !
    Tá cada vez melhor trocar as merdas que passam na televisão para acompanhar as Impressões de Altamiro – rsrsrs
    Uma duvidazinha: qual a máquina fotográfica que você tem usado ?
    Poderia dar a ficha técnica ?
    Uma perguntazinha = você está ligado ao escotisno como o quê ? Tem alguma função ?
    Jorge Pinheiro

  10. Ola Altamiro
    Sempre me surpreendendo com suas maravilhosas viagens e vivèncias.
    Adorei as fotos do casamento, Que oportunidade poder fazer parte desta festa.
    Aguardo seus prôximos textos e sua vida no ashran.
    Abraco
    Cristina

  11. Oi querido amigo! Saudades…
    Adorei seu mais novo desbravamento. Ultrapassando fronteiras.
    É sempre bom conhecer novas culturas, gostei bastante dessa sua viagem. Que lindo.
    Obrigada por lembrar de mim em suas orações. Bjão pra familia feliz.

  12. Acho que não tem imaginação fértil que chegue perto da realidade ou ,porque não, irrealidade pra nós, dos sonhos, das crenças , da vida, enfim, deste mundão de meu Deus,que , se não fosse pela boa vontade deste meu caro amigo, desde os idos tempos de Jardim do Edem,eu não poderia compartilhar e ficar feliz também ; espero que você continue me contando tudo. Beijos e saudades. Glória

  13. Caro Altamiro,

    Parecia ate’ que eu estava vendo um filme ao ler sua narrativa e apreciar as fotos. Deve ter sido tudo uma experiencia muito significativa na sua vida e voce teve mesmo sorte de desfruta-la. Agradeco pelas suas palavras: E para cada um levarei um pensamento de luz, paz e amor.

    Um grande abraco,
    Edmea

  14. Alta,
    quase não acreditei quando me mandou o email falando que estava na India.
    Que maravilha, e como sempre, belas fotos!
    Parabens!
    Vais para a Suécia?
    Abraços e aquele aperto de canhota!

  15. Querido Altamiro,
    Sou fã de suas aventuras…de sua liberdade…de sua sabedoria e principalmente de seu contato com Deus…pois com sua fé e sua perseverança vc alcança seus objetivos.
    Ficamos tão felizes com o nosso encontro em que nos abraçomos no meio da Rua da Assembléia..rsrsrsrsr Não tem preço esse carinho,foram quase 10 minutos mas que dá para matar as saudades, e quando será o nosso próximo encontro??? Com certeza com muitas novidades !!!
    bjussss
    te amamos
    Martha e Flavio

  16. Altaaaaa…ameiiiii as histõrias e fotos, sõ senti falta de fotos suas … nao te vi em nenhummaaaaa….ameeeeeiiiii os brilhos, me identifiquei muito com a peruice delas kkkkkkkk.
    bj mari.

  17. Altamiro, acabei de reler pela enésima vez as tuas impressões indianas e a descrição do casamento. Nunca vi uma descrição de um casamento indiano tão “brasileira”. Foi ótima. Parabéns e obrigado ! Pena que foi pequena; dá vontade de saber de mais detalhes.
    Um grande abraço, amigo !
    Namastê !

    Sídney Brasil
    Belém – PA

  18. “Os indianos adoravam me ver comendo de tudo. Ficavam sempre felizes!”

    As tias que me serviam caxiri lá entre os tuiukas adoravam me ver secar cuia após cuia… até que eu descobri que não precisava secar toda as cuias que me fossem oferecida na roda. hehe

  19. Oi, Amigo Altamiro,

    Não e a primeira vez que lhe digo, nem tampouco será a ultima: obrigado por compartilhar suas experiências conosco.
    Estou aguardando ansiosamente pelo seu livro.

    Grande abraço!

    TON KRAMER

  20. Olá altamiro,

    sô hoje na calma de domingo consegui ler seu e.mail.
    confesso que qd li o livro Comer, rezar e amar., fiquei imaginando que ir para um ashran era coisa de americano, mas qd li seu e.mail enviado da India imaginei que vc tinha ido a um. não é que estava certa.

    imagino que tenha sido uma viagem maravilhosa e melhor ainda que vc teve a oportunidades de ver coisas da cultura local.
    estou esperando o resto do relato.
    um grande abraço,

    Hellen Rose

  21. Já vi umas imagens muito lindas da Índia… eles valorizam bastante a cultura local, a religiosidade e tem obras de arte maravilhosas. Creio que muitas das obras de arte deles estão nas roupas, nas casas…
    Torri

  22. Caro Altamiro,
    Excelente, como sempre!
    Só uma correção.
    Não era uma celebração de noivado.
    Era a recepção a um candidato ao “Brazilian” CAN.
    Um grande abraço e Sempre Alerta,
    Ricardo

  23. Cara, parabéns!

    Estava curioso com o relato da viagem,e com esta formatação que vc vem usando, com as fotos no meio da narrativa, fica bem mais agradável a partilha da história.
    Dê notícias

    Alex

  24. Amigo, bom dia.

    Nossa ! Que experiência, não ?
    Fico impressionada com essas suas viagens, essa para Índia então, já dá um livro…não esqueci, viu ?
    Obrigada, por compartilhar conosco esses momentos.
    Abração

    Edna

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