Impressões do Jamboree 49

Acabo de me despedir dos escoteiros paulistas do Grupo Caio Viana Martins. São três da tarde e ainda tenho mais quatro horas de espera pelo meu vôo e cerca de 24 horas até chegar em casa, onde me aguarda um plantão médico ainda amanhã. Passei a semana toda trabalhando com diversas pessoas que nunca vi antes, para milhares de jovens de todo o Brasil que não tive nem tempo de conhecer, mas estou feliz. Muito feliz.

É difícil expressar para quem não é escoteiro toda a essência de um Jamboree, o acampamento nacional que reuniu cerca de cinco mil pessoas em Foz do Iguaçu. É um mundo de barracas, sotaques e vivências únicas, transformadoras. Aceita-se, aprende-se, convive-se, harmoniza-se e supera-se dificuldades em conjunto. Sim, porque não pense que um encontro desta magnitude não tem dificuldades. Claro que tem. Estruturar local para acampamento, com a organização adequada para higiene, alimentação e atividades atraentes e variadas para jovens entre 11 e 17 anos não é fácil. E não pensem que tudo isso é feito por profissionais regiamente remunerados que trabalham incansavelmente. Embora existam cinco (sim, são apenas cinco) funcionários remunerados da União dos Escoteiros do Brasil, que atuem principalmente na parte estrutural, o grosso do trabalho é feito por voluntários como eu e como poderia ser você. Marcos, analista de sistemas, vem do interior do Rio Grande do Sul e passa uma semana inteira trabalhando na limpeza. Varejão, engenheiro de Taubaté coordena a segurança do alto dos seus dois metros, suficientes para impor respeito. Lá ele coordena, entre outros, o Cícero, que vem de Roraima, onde é guarda municipal. Anelise, pediatra gaúcha se torna fotógrafa por uma semana, vendo suas fotos publicadas no jornal de campo, de tiragem “quase” diária. Sandra, funcionária pública de Fortaleza, Carla, odontóloga de Santos e Glen, designer brasiliense são alguns dos oito líderes que dividem a função de “chefes de sub-campo”, responsáveis por campos com mais de quinhentos jovens em cada, garantindo que tudo saia como planejado pela “equipe de programa”.

Esta equipe, ao longo de um ano planeja tudo que será feito pelos jovens: dos passeios (afinal, a viagem de barco até as Cataratas do Iguaçu, mas do que um bom banho, é adrenalina e emoção garantidas), as atividades responsáveis por manter as mentes ocupadas. A ordem é não ter tempo para o ócio. Assim os jovens alternam passeios com atividades divididas em quatro grandes grupos. Nas “manualidades” constroem bancos de madeira, utilizam biscuit e argila para dar forma aos mais diversos objetos, criam enfeites com sementes e estampam suas próprias bandanas. Na “aldeia global de desenvolvimento” pintam com as bocas e pés, percorrem caminhos de cadeiras de roda, discutem alternativas para a paz e aprendem como cuidar de sua postura e evitar problemas ortopédicos. Em “sustentabilidade” constroem fornos solares, sistemas de aquecimento de água e aprendem até a utilizar alimentos alternativos na cozinha. Depois de um dia de atividade, um bom banho, um bom jantar e… mais atividades. No festival do folclore os jovens apresentam um pouco da cultura de seus estados e são protagonistas de um espetáculo de som e animação: do carimbó paraense, as lendas do Maranhão; do forró do Ceará a dança da marreca de Blumenau, do samba carioca as danças gaúchas, todos se misturam com animação única. Como uma noite é pouca, há a Feira das Cidades, onde cada um leva o que é mais representativo de sua terra de origem: folderes, pôsteres, artesanato e música ambientam o campo, por onde os escoteiros passeiam conhecendo o novo e aprendendo novos sabores: da cajuína de Teresina a cocada de Salvador, do chimarrão de Pelotas a bananada de Morretes. Do doce de cupuaçu ao inesquecível Guaraná Jesus de São Luiz, o “guaraná cor de rosa”.

Como eu disse, toda programação, estrutura e trabalho é feita por voluntários em uma semana de trabalho, que, em muitos casos como do cirurgião-dentista Roberto, de Chapecó é o início de sua semana de férias, e para outros, como para o educador físico Pery, de Goiânia, a semana de folga ansiosamente aguardada. E como toda semana de trabalho dá direito a um dia de folga, os voluntários tem um dia para passeio diurno e uma festa a noite. Na folga o roteiro é inesquecível: Foz do Iguaçu.

Gente,é muita, muita, muita água nas Cataratas. E como no segundo dia do acampamento fomos brindados com o maior volume de chuva em um único dia na região há mais de dez anos, foi suficiente para, não só alagar muitas barracas, como também para que o Rio Iguaçu estivesse com muita, muita, muita, muita, muita água! E lá fomos nós, não apenas vislumbrar esta que é, com certeza uma das sete maravilhas da natureza, caminhando por uma trilha em meio a borboletas e quatis, como também encarar de perto, e por baixo, para conferir o volume de água. O passeio as cataratas é bacana, é legal, é ótimo, é sensacional, é superlativo o bastante para que torne impossível qualquer descrição. Posso dizer, contudo que foi o chuveiro mais alto que já experimentei e que o banho foi completo, pois o barco fica alagado, e o piloto é mais veloz do que o Barrichelo, fazendo com que a emoção da adrenalina se somasse a emoção do deslumbramento. Pausa para os aplausos ao Criador, pois lá ele caprichou muito: Clap! Clap! Clap! Clap!

Em Itaipu, onde foi realizado o acampamento, conhecemos a Usina, com seu tamanho de gigante, obra do esforço titânico de brasileiros e paraguaios e que mostra a nossa competência e nos faz orgulhosos de sermos brasileiros.

Na festa para o staff (assim é chamado o pessoal que trabalha), animação completa com música ao vivo até a madrugada. Ninguém parou de pular, de dançar, e quando os músicos se cansavam, sempre tinha alguém pronto para cantar um canção ou colocar todos para dançarem. E, só por curiosidade: animação total, mas zero de álcool. Quem disse que só se tem festa animada se tem cerveja?

Encontros como este são também oportunidades de encontrarmos amigos de anos, de décadas e de fazermos os mais novos velhos amigos. Muitos se encontram uma vez a cada um ou dois anos, mas é como se a distância do tempo fosse pouco mais de uma semana. O Escotismo proporciona a magia de fazermos com facilidade única os mais novos velhos amigos.

Um dia de folga, um dia de passeio e uma semana de trabalho. Por que tanto esforço? Vale a pena? A resposta vem quando pergunto para o Sabá, escoteiro de 14 anos que acabou de se despedir de mim no aeroporto, sobre o que gostou mais: “Tudo! Foi a melhor coisa que fiz na vida!” E eu fiz parte disso.

Boa semana, ou, como dizemos, Sempre Alerta!

Altamiro, escoteiro desde 1980

                                                 Cenas do Jamboree

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17 opiniões sobre “Impressões do Jamboree 49”

  1. Eu já havia lido muitos artigos sobre Jamborees
    Eu já havia participado de muitos destes eventos
    Eu já havia me recordado de tantas coisas inesquecíveis
    … e me esquecido de outras tantas irrecordáveis

    Mas esta “Impressões do Jamboree 49” é uma obra-prima !
    Se para aqueles que não são de BP o impacto foi sensível… imagine para aqueles que o são, eternamente ?

    Altamiro, obrigado por compartilhar suas impressões.
    Eu e amigos (Cidalia, entre els) ficamos quase uma hora conversando sobre os “tempos de Gilwell”.

    Abraço,
    Melhor Possível…

    Jorge Pinheiro

  2. Olá Altamiro !!!
    Tudo bem ??? Espero que sim.
    Aqui estamos tds bem, graças a Deus !!!
    Adorei esta edição das “impressões do Jamboree”….sinceramente, fiquei emocionada…..bateu uma saudade daquela ” muvuca “… rsrs…. era uma confusão de crianças…para lá e para cá…. chefes e coordenadores às vezes meio atucanados….rsrs…. mas o sentimento de ” paz de espírito “….. ah! … esse era comum a tds….. que saudades !!!
    Comentei com o Marcos q vc citou a pessoa dele , em seu texto…. e pode ter certeza…. ele ficou muito feliz.(repassei o email para ele)
    Sempre Alerta!!!
    Patricia

  3. Tenho sempre me emocionado com as suas narrações.Leio todas como se estivesse lendo um livro tenho todas guardadas.
    Mas particularmente essa me tocou muito ,como vc sabe sofro do virus do escotismo.
    Muitas saudades de tudo que já participamos juntos,estou te respondendo para especialmente te dizer que concordo que é impossivel a descrição.
    Costumo dizer que todo brasileiro deveria conhecer as Cataratas do Iguaçu,já viajei muito pelo Brasil e também pelo exterior nada se compara a essa grande emoção ,não dá pra descrever.Gostei muito do comentário do Zero Alcool e animação total
    Beijos sua amiga
    Cidalia

  4. Fala Altamirinho…. (Tami)
    O seu texto faz trazer a mente a recordação dos bons e velhos tempos da Jangal… Dos Montes Seeone, do Povo Livre e sobretudo dos meus lobinhos que hoje já são Velhos-Lobos. Mas como na história a “Embriaguez da Primavera”, já vai longe as noites enluaradas da Alcatéia de Seeone. Pude através do seu texto reviver e e relembrar momentos e pessoas tão queridas, como a sua prórpria mãe Gilda, pessoa para mim inesquecível.
    Valeu o texto e espero que você guarde pra sempre esses momentos que são e sempre serão únicos.
    Existe um texto, que eu guardo para mim como proposta de vida. É mais ou menos assim. “A vida é como uma grande peça de teatro. Por isso, cante, dance, ria, pule, chore e grite. Antes que as cortinas se fechem e a peça termine sem aplausos.”
    Abraços,
    Guaraná.

  5. Caro Altamiro:

    hoje foi o dia certo para receber estas impressões do Jamboree. Tua poesia,
    passados dois meses do evento, tornam todas as lembranças doces: a chuva se
    transformou em uma pausa necessária e o vento uma canção escoteira. Imagens
    que falam….
    És um poeta escrevendo ou fotografando. És um poeta da vida meu amigo.
    Um beijo, Tere

  6. Parabéns Altamiro este relato da maneira que vc colocou é digno de uma grande matéria vou repassar para os Irmãos escoteiros SAPS

    Eder Branchini

  7. Querido Altamiro,

    Amei o texto que voce me enviou sobre o Jamboree!!!!…
    Quero a sua autorizacao para posta-la no Jornal Sempre Alerta da UEB. Pode ser?
    O Miro ficou “reclamando” que voce nao mandou pra ele este texto…rs..
    Aguardo sua resposta em breve.
    Obrigada
    Megumi

  8. Oi amigo Altamiro, espero que tudo esteja bem por aí.
    Sua veia de escritor está cada vez mais apurada ! Parabéns ! Lendo seu texto , dá até vontade de voltar a ser junior / escoteiro, senior, pioneiro, lobinho, rsrsrsrs..
    Grande Abraço,
    Marcelo F. Puente

  9. Maneiro.
    Lembra o Jamboree de 1986.Um dia ainda vou ser voluntario num negocio desse.
    Dos meus amigos de fé, 90% foram escoteiros.
    Isso eu devo a BP…
    Abraços
    Charles

  10. É por essas e outras que eu acredito que o mundo ainda tem jeito…
    Por isso vale a pena lutar!!!
    Gostei especialmente da parte do álcool…
    Sempre Alerta!!!
    Abraço,
    Ricardo Loureiro

  11. Querido Altamiro
    Voce, como sempre, vibrante! gosto de ler seus escritos, pois consigo ver os seus zoinhos brilhando de contentamento. Realmente essa experiencia deve ter sido inesquecível, não só pelo encontro humano, não é sempre que se consegue reunir 5000 pessoas, mas também o encontro com essa natureza exuberante, as cachoeiras, borboletas, matas… Que coisa magnífica, não é mesmo? eu fiquei emocionada, quando fui pela primeira vez em Foz. Fiquei impactada com o colosso da usina. Fantástica obra humana! Enfim, o que voce viveu nessa oportunidade será inesquecível, tenho certeza. Um beijo grande dessa tia que te acompanha ” em paralelo”. Bjs prá turma,
    Tia Isolda

  12. Altamiro,
    A cada email seu, me faz resgatar um passado de aventura e um amor a uma causa.
    Obrigado por suas vivências.
    Como vc está? tudo bem?
    Um abraço, Luisinho

  13. Altamiro, mesmo estando com muitas saudades em saber mais sobre a vida em Boa Vista foi bom conhecer um pouco deste super acampamento nacional de escoteiros. Maravilhosa experiência.
    Um abraço.
    Cris

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