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Impressões Amazônicas 94

Eis que não há nada mais abaixo de nós além da imensidão verde. Mais verde. Mais e mais verde. Por muito tempo voamos sobre um mundo em que o verde só é interrompido pelos riscos castanhos dos rios. A imagem impressiona minha retina e me percebo pensando na grandeza da Amazônia, quando de repente percebo uma cicatriz na mata. E outra, e outra, e outra que se juntam formando uma grande ferida que logo se torna o que é… uma cidade. Tabatinga, a maior da região do Alto Solimões, por onde o rio Solimões, maior formador do Amazonas entra no Brasil, deixando para trás águas peruanas e o nome Maranón.

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Sigo pela avenida principal de Tabatinga, que logo se torna a avenida principal de Leticia, capital do Amazonas colombiano. Apesar de capital, não são nem 40 mil moradores, inclusive os indígenas, Tikuna e Cocama, que também estão no Brasil. Apesar de pequena, a cidade vive cheia de turistas, que contam com uma boa rede hoteleira e várias atrações, como etnoturismo, observação de animais, pescaria e vários restaurantes típicos. Com os preços bastante atraentes, é aqui que vamos comer. A dúvida é entre o tradicional Tierras de Amazônia, que tem no cardápio até gordos tapurus, larvas de coco king size, comidas cruas e em pleno movimento ou o restaurante do hotel Wairas. Vamos neste último e, apesar de ter sido voto vencido, não há arrependimento, pois o suco de lulo (fruto conhecido no Brasil como cubiu), está ótimo, o ceviche no ponto certo e a patarasca divina. Este prato é peixe assado na folha de pacova, cozido com cebola, tomate e outros legumes e acompanhado de banana frita. Na saída ainda encontro um vendedor de suco/creme de guanabana (graviola), e para manter o hábito de comer na rua, encaro a iguaria com gosto. Ainda encontrei um “assado” onde a cabeça de porco exposta mostrava a suposta boa procedência da carne. Valeu a foto, mas declinei… experiência radical demais para mim.

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Nas ruas de Letícia, os tuc-tucs são meios de transporte público.

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Experiências gastronômica em Letícia. De cima para baixo:
1 – Carrinho de creme de guanábana – graviola
2 – Cabeça do porquinho… pronta para o consumo!
3, 4 – Ceviche e Patarasca no hotel Wairás

Há três anos não vinha ao Alto Solimões, onde iniciei minha aventura amazônica. O aeroporto está novo, reformado. A cidade tem mais prédios, mais carros – embora ainda seja uma cidade de motos, e agora de tuc-tucs motorizados – mais modernidades, mas… mas a gente é a mesma. Os mesmos traços indígenas, o falar pouco, o sorrir pouco, o comércios colorido, as frutas peruanas, a vida na beira do rio.

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No aeroporto só chega um avião por dia, e nem todos os dias, mas já tem duas esteiras, esperando um grande movimento, talvez na próxima Copa do Mundo… Viu para onde vai nosso dinheiro??


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Chegando na “beira” é assim que vemos… gente, confusão e o rio ao fundo.

O calor é tropical, o suor faz as roupas grudarem, mas enquanto percorro as pontes de tábuas sobre a terra enlameada sorrio feliz. Estranhamente aqui me sinto em casa. Estou “na beira”, como é chamada a margem do rio, onde há um comércio incessante e onde os barcos atracam e partem todo tempo. O rio está bem baixo, expondo uma grande faixa de terra que normalmente se encontra submersa e criando espaço para crianças correrem entre barracas de melancias, barcos encalhados e passarelas de madeira que nos conduzem as embarcações.

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Visões da “beira” do rio Solimões! Vale lembrar que, quando vemos os barquinhos na última foto não conseguimos ter ideia de que, na cheia, eles ficam no nível das casas.

Viajo na “lancha rápida”, que sai assim que o barco lota. Isto quer dizer que se eu for o primeiro a chegar ao porto, posso esperar por horas, mas se for o último para completar a lotação, posso chegar e embarcar. Diferente de quando cheguei aqui pela primeira vez, hoje as lanchas são fechadas, possuem rádio-comunicadores e todos recebem coletes salva-vidas. Pouco a pouco o direito a segurança chega mesmo nos extremos mais distantes do país.

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Nossa lancha já tem segurança, fechada… Mas vejam a velha senhora encarando sol e vento no pec-pec. Colete salva-vidas? O que é isso???

Logo chegamos em Benjamin Constant. As bambolejantes passarelas parecem nos transportar. Emergimos da paz do rio grande e sereno para mergulhar na agitação da cidade. Cada loja expõe no menos espaço possível o maior número de roupas, bonés, brinquedos e refrigerantes multicoloridos, que formam padrões tão únicos quanto o de caleidoscópios. Roncos de motos, forró brasileiro, reggaeton colombiano e cumbia peruana marcam o ritmo enquanto as pessoas passam apressadas, pouco respeitando o primeiro e único sinal de trânsito da cidade. Morei aqui em 2005 e 2006. Aqui fiz bons amigos, aqui me iniciei na Amazônia, aqui me percebi com potencial de transformação do mundo, ainda que às custas de abrir mão de tanta coisa preciosa para mim.

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E o que me encantou tanto nesta terra? Suas gentes, mistura de migrantes com os reservados Tikuna, orgulhosos guardiões de suas tradições, como sua língua, sem semelhantes em qualquer outro lugar. Gente meio anfíbia, que vive em palafitas, habituado a alagações, ao peixe frito do dia a dia, que planta quando o rio baixa e caça quando ele sobe. Gente que forjou o espírito no ritmo da natureza e, assim vive com um tempo próprio, que as vezes nos incomoda em nossa frenética pressa ocidental-capitalista, mas que está bem consigo mesmo. Gente que leva a vida sem muita preocupação além de comer, beber e ter onde dormir e criar os filhos. Gente para quem o perto chama-se Atalaia do Norte, que fica há pouco mais de 30 km, na única cidade onde se chega de carro, e onde hoje, se gasta uma hora para chegar pela quantidade de buracos. Gente para quem o mais longe que existe é Manaus, alguns dias de barco, Bogotá, com ótimos preços a partir da cidade colombiana Letícia e Iquitos, no Peru, que todo mundo já ouviu falar, mas ninguém nunca foi. Assim se resume o mundo nesta região.

Fico no Cabana’s, único hotel que merece de fato este nome por aqui. A beira de um lago, em seu restaurante mato a saudade do suco de araçá, da farofa de banana verde, chamada tacate, do pirarucu desfiado, da pupunha e do tempero puxado no açafrão. Para completar minha alegria, meu amigo Jacaré traz um saco de abiu e um grande cacho de mapati, a uva amazônica. O abiu cola a boca da gente até no sul do Brasil, mas o mapati… ah o mapati… delícia única, que não é comum nem mesmo pela Amazônia. É como uma grande uva preta, com casca grossa e repleta de sumo. Docinha, pode ser consumida in natura ou transformada em geleia ou licor… Já deu saudade!

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Acima: Patacáo, banana peruana verde, prensada, frita.
Abaixo: Mapati, a deliciosa uva do Solimões.

Aliás… Encontrar Jacaré vale a ida a Benjamin. Vigia de escola, conselheiro tutelar e fundador de um grupo escoteiro, Jacaré, que um dia chamou-se André, tem o maior projeto social da região. Morador do bairro mais populoso e carente da cidade, Jacaré lembrou-se dos tempos de alegria no escotismo e começou a oferecer recreação para suas filhas e outras crianças nos seus momentos de folga. Logo começou a ser seguido por uma legião de infantes, vindo daí a piada: “Lá vai o Jacaré e seus jacarezinhos”. Pronto, logo estava funcionando o ProJac – Projeto Jacarezinho, não tão famoso quanto seu homônimo global, mas muito importante, levando diversão, valores, ocupação e educação para muitas crianças, que de outra forma teriam pouco mais a fazer do que nada fazer.

Minha missão é um curso para chefes escoteiros. Existem nesta região sete grupos ativos, e mais três em processo de abertura, sendo que cinco são formados apenas por indígenas da etnia Tikuna, e estão localizados dentro de suas comunidades. Por que tanto interesse? Fácil entender a preocupação de pais e professores: drogas, prostituição, alcoolismo, tráfico de mulheres são alguns dos termos cotidianos por aqui. O escotismo surge como uma opção para ocupação dos jovens utilizando um método baseado no aprendizado pela ação, em valores e uma série de atividades que permitem incorporarem o novo, sem deixarem de ser o que são, sem se descaracterizarem como indígenas e, especialmente, como Tikunas.

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Acima: Eu, Jacaré e sua esposa Josina, do Grupo Escoteiro Marecelo Maia e do Projac – Projeto Jacarezinho
Abaixo: Eu e Athos, Pastor e antigo Conselheiro Tutelar, que está abrindo o Grupo Escoteiro Filadélfia, na aldeia com o mesmo nome.

Infelizmente, nem tudo é fácil. Tempestades amazônicas atrasam bastante o curso, além de impedir a vinda de alguns participantes. Um chefe chega de galocha. Outros que vem de uma comunidade indígena próxima, Filadélfia, tem que contornar um rio, transformando uma linha reta de vinte minutos em uma odisseia de mais de uma hora. Outros nem mesmo ousam sair de suas casas, diminuindo o público alvo, mas não tirando a animação dos participantes, que são de três diferentes cidades e de seis grupos.

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Despeço-me de Benjamin, na garupa do Valdir, indígena Marubo que me conta orgulhoso estar há cinco anos no Grupo Escoteiro de Atalaia do Norte. No caminho para o rio, ele decide abastecer a moto. Como não existem postos de gasolina, ele para em uma das várias barraquinhas familiares que vendem gasolina peruana no cocão. Cada cocão, cinco reais. O que é um cocão? Uma garrafa de dois litros de coca-cola… abastecida com um funil.

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Vai um “cocão” de gasolina?? Neste posto também tem “litrinho”.

Logo estou na beira, me despedindo dos amigos e embarcando na lancha que me conduz de volta ao sinal de internet no celular, aos postos de gasolina e a correria do dia a dia, sem saber quando voltarei, mas feliz, pela missão cumprida de levar meu ideal a um Brasil um pouquinho diferente e pouco conhecido da maior parte de nós.

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7 opiniões sobre “Impressões Amazônicas 94”

  1. Grande Altamiro, é sempre uma enorme satisfação ler suas impressões Amazônicas. Esta sua frase é a que melhor define a Amazônia, parabéns pela sensibilidade.

    “Por muito tempo voamos sobre um mundo em que o verde só é interrompido pelos riscos castanhos dos rios”.

    Gostei da descrição do mapati, a uva Amazônica, eu não conhecia.

    Em minhas poucas andanças pela Amazônia aprendi que o tempo é definido pelo momento da partida e da chegada, este seu relato
    “Tempestades amazônicas atrasam bastante o curso, além de impedir a vinda de alguns participantes”
    retrata muito bem isso.

    Um parabéns especial ao Jacaré (André) pelo projeto e também a você por pela disposição da viagem para transmitir conhecimento.

    Abraços capixabas de Hilton

  2. Altamiro nos mostra “ao vivo” como existe vida diferente daquela que vivemos e como esse Brasil é grande, digo, muito grande mesmo!
    Fácil de entender e gostoso de ler, não deixa de ser uma dose medicinal de cultura, em porções homeopáticas! Só poderão fazer bem!

  3. Muito legal o texto!! Lembro de quando fui pra essas bandas há alguns anos, e pelo visto pouca coisa mudou. Continue com seus relatos de viagem!! São divertidos e, pelo menos pra mim, me faz relembrar as peculiaridades e particularidades da minha tão amada terra chamada Amazonas.

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