Impressões Amazônicas 92

Janeiro de 2014 – Aldeia Pedra Branca

O avião pousa na pista da comunidade Pedra Branca. O piloto nem desliga o motor e levanta voo, me deixando no meio do lavrado. Espero o carro que deve vir me buscar. O sol que atravessa a linha do Ecuador queima meu rosto e começo a ficar inquieto. E se não avisaram de minha chegada? E se tiveram problema com o carro? Procuro uma sombra inexistente sob as raquíticas árvores do lavrado.

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A ansiedade me faz andar, não muito certo sobre a direção da aldeia. Logo chega um indígena de bicicleta. “É o doutor?” ele me pergunta. Ele desce e começa a me acompanhar: “Estamos sem carro”. Pronto, explicado. Caminhamos por trinta minutos em silêncio após algumas explicações iniciais. É um povo habituado mais a silêncios do que a exclamações.

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Minha visita é breve, venho para uma avaliação dos programas de saúde, e logo é hora de ir. Todos se aproximam da porta do posto de saúde e se despedem. Percebo que agora é por minha conta até a pista. Por trinta minutos minha pele recebe o sol que acho que não recebeu em todo último mês. O caminho e tem poucas referências em meio às muitas as trilhas que se cruzam. Torço para estar na direção certa enquanto penso na imensidão do lavrado e na força dos que moram aqui. Aos poucos meu pensamento seca sob o sol. Meus lábios grudam e penso se conseguiria morar aqui. Não sou do silêncio espaçado, mas das palavras que jorram umas ao lado das outras.

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Penso que por vezes tenho que voltar aqui para aprender a silenciar, mas agradeço quando o avião pousa e  retorno a cidade. É hora de falar…

 

Duas casinhas (identificadas pela seta na foto de cima) no lavrado, vizinhas apenas do nada, distantes de tudo que podemos considerar essencial para viver.

 

Outubro de 2013 – Boa Vista

Final de tarde quente, saio para um sorvete. O calor é tanto que enrolo para chegar em casa, dirigindo vagarosamente. De repente me deparo com uma aglomeração em frente a Igreja Matriz. Curioso, paro o carro e pergunto o que está acontecendo.
– Vem um pianista famoso tocar aí. Parece coisa boa.

Coisa boa? Logo descubro… É Artur Moreira Lima e seu piano… “Um piano na estrada”. Este é o show número 484 realizado pelo pianista pelo Brasil. Em Roraima tocou em cidade de 20 mil pessoas. Até confesso que não sou muito de piano, mas assistir um virtuoso, um fora de série, não é todo dia. É como encontrar um diamante em meio as pedras brutas.

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O show começa. Se pensei por um único segundo em não ficar, já me arrependi. Ele conversa com o piano – e as teclas respondem. A velocidade dos dedos é incrível, fico tonto só de tentar imaginar fazer o mesmo. O repertório inclui músicas mais conhecidas. Abertura com Bach – Alegria dos Homens. Depois Villa-Lobos, Carlos Gomes, Ernesto Nazaré, Pixinguinha, Beethoven e até mesmo Luiz Gonzaga desfilam pelo palco nos fazendo sorrir de encanto.

Olho em volta e fico imaginando… algumas pessoas pagam caro para assisti-lo em uma casa de concertos. Assistem de longe e ficam realizadas. Aqui, acho que deve ter no máximo umas duzentas pessoas. Estou em cadeiras de plástico, nada confortáveis, mas tenho a lua como teto, a catedral como moldura e apenas cinco metros de distância do pianista. Se tentar acho que consigo enxergar notas musicais no céu.

O palco é parte do próprio caminhão, que leva o piano. O piano é tão chique que tem um afinador exclusivo. O som, iluminação, tudo vem dentro dos caminhões que conduzem o pianista pela estrada. No Amazonas, em São Paulo de Olivença (minhas Impressões sobre esta cidade você pode acessar clicando AQUI), o piano não pôde desembarcar, e o pianista tocou embarcado, com a população toda no barranco.

IMG_20131012_212256Prestem atenção. O palco – e o piano – está dentro de um caminhão!

Março de 2013 – Aldeia Bom Jesus
As horas escorrem vagarosas em Bom Jesus. Acabo de atender e passa pouco das três da tarde. O sol se esconde acima das árvores, galinhas ciscam entre as casas, rapazes jogam sinuca, passarinhos beliscam as mangas e pelo rádio o rei Roberto me diz que é O Cara. Com este sol a vida só existe sob a sombra, e é preguiçosa, muito preguiçosa. Estou tão perto da cidade e descubro, na tranquilidade, quem é o civilizado… que certamente não está na cidade. Jogo meu relógio no lixo, me sinto o senhor do tempo e permito que para mim, as horas também escorram vagarosas em Bom Jesus.

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Aqui seu Dionísio é o tuchaua. Aqui ele “manda e faz chover”. Cansado das confusões na Raposa Serra do Sol, antes da demarcação, procurando um lugar sossegado para a família de muitos filhos, ele encontrou um lugarzinho escondido na Terra Indígena São Marcos.

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Nem todo mundo fica feliz com nosso trabalho… as crianças reclamam! kkk

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Cavalos do lavrado. Magrinhos, mas valentes!

A comunidade é longe, no meio do lavrado, mas aos poucos se tornou um refúgio para as dezenas de netos que brincam debaixo das árvores, comem frutas e correm atrás das galinhas.
– Quando cheguei aqui a vida era dura! – ele conta. – Mudou muito. Já temos escola pros pequenos, estamos construindo a dos mais velhos e já sonho com o telefone e a energia.
Um ônibus escolar parado debaixo da mangueira é motivo de orgulho.
– Minhas filhas tinham que ir “de perna”, debaixo do sol, por mais de uma hora para estudar em outra comunidade. Agora já temos até transporte escolar, enquanto a escola nova não fica pronta.
Na comunidade, todo mundo tem que andar na linha.
– Até um filho meu que não quis se acertar e brigava com a mulher nós mandamos embora – contou em tom sério. – Aqui seguimos a palavra de Deus, temos nossa igreja, ninguém pode beber e todos tem que se ajudar. Quem não quiser seguir, pode escolher um monte de outros lugares para morar.
Aos poucos seu Dionísio vai construindo seu paraíso na terra.

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As vezes reclamamos das distâncias que percorremos para o trabalho ou estudo. Aqui tudo é mais difícil, além de não haver transporte público, o sol é equatorial, cega e esgota, e mesmo assim as pessoas não reclamam… ou reclamam pouco.
Um dos que reclamou foi seu Hernesto, professor de língua materna e que dá aula em duas comunidades diferentes. Ele sai da comunidade do Milho todo dia meio dia e dez, para chegar no Lago Grande após pedalar 40 minutos pelo lavrado. Veio a consulta pedir uma vitamina, pois sente fraqueza. Imaginem como deve ser quando ele está em forma…

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Até com chuva seu Hernesto tem que encarar a pedalada!


Ele me ensina também algumas palavras de Wapixana, e com elas me despeço. Só não escrevo a pronúncia, pois a língua enrola pra falar e não consigo reproduzir o som e a entonação necessários, mas vale a intenção:

Ungary naydap pygary!
Gosto de você!

Abraço no coração e até a próxima.

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