Impressões Amazônicas 89

Município: Normandia
Aldeia: Jibóia

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IMG_0079Aldeia isolada é assim… os gaviões voam e os dentistas sofrem… Bem diferente do consultório onde você vai, não? Só por amor.

Dona Tereza é brava. Muito brava. Talvez tenha se tornado um pouco mais ranzinza pelos 86 anos vividos que aumentam as dores das juntas com reumatismo. Como consolo a vista já não é tão boa, e então não consegue enxergar a fuligem que se acumula em toda casa, onde cachorros e pintinhos se misturam aos netos que tentam agradar a avó.
– Dá água para o cavalo! Não está vendo que ele está vindo beber no balde porque está com sede? – fala em voz de rainha Vitória, sem deixar margens para discussão e fazendo os netos correrem.

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Pergunto se ela sempre é brava assim. O neto mais velho, que mora com ela, logo responde.
– Muito! – e atalha – E quando ela xinga, é em português, macuxi, o que ela lembrar primeiro.
Todos dão risadas, inclusive seu Antonio, o marido, com certeza acostumado com tanta brabeza.
Aos 101 anos ele é um homem tranqüilo. Quando pergunto o segredo da longevidade, a resposta é simples:
– É só viver. Só viver.

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Seu Antonio oferece um café e gosta de um bom papo. Reclama que as costas não ajudam muito trabalhar com a enxada, e que já não tem a mesma disposição de antes, mas não resmunga da vida – deve deixar isso para a esposa.
IMG_0134 Olha o casal aí!

Pergunto pelo tempo quando nasceu. Gosta de contar e lembra dos detalhes, como quando mudou da Aldeia Pacu porque estava sofrendo de tristeza com a morte da mãe. Foi tentar a vida na fazenda, no garimpo, por onde desse.
Quando pergunto como era Boa Vista, ele responde:
– Não tinha nem bicicleta, doutor! E a água era vendida em grandes tanques. Cada um chegava com sua garrafinha e levava.
Depois conta das danças que não tem mais: parichara, tukui, aleluia… e diz que os jovens só querem dançar igual “civilizado”, usando o antigo termo que designava os “não indígenas”.
Os netos me contam que as histórias de assombração dele deixam até com medo. Já tenho que ir embora, mas resolvo arriscar.
– E canaimé? Tem por aqui? – Canaimé é o “rabudo”, a encarnação do mal para os índios do lavrado.
– Tem muito. Vem lá da Guyana! (estamos a cerca de 200 metros da Guyana, separada do Brasil pelo rio Maú, e segundo a crença local, é de lá que vem a maior parte dos “canaimé”). Mas eu não tenho medo… – bom contador de histórias, fala e faz uma pausa, já esperando minha pergunta.
– Por que não?
– Porque quando eu era novo tive o corpo fechado para os bichos-do-mato. Foi uma maranhense que me ensinou a preparar uma garrafada com cachaça, fumo de rolo e umas outras plantas (que ele até contou, mas não consegui guardar – minha memória não é como a dele). Eu banhei por sete dias e pronto. Nunca tive destes problemas.
Me despeço querendo voltar e gravar um depoimento de seu Antonio, que mostra que sua memória não está apenas no passado.
– Volte a noite que vai ter festa. É aniversário da minha neta!
Vida longa para seu Antonio!

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Município: Normandia – Aldeia: Camará

Sempre me perguntam sobre os problemas de saúde que atendo. Um dos mais frequentes – e difíceis de tratar – são as gastrites, que encontro em toda aldeia. Embora tenha medicação de qualidade disponível, como mudar os hábitos culturais de alguém? Em nossa sociedade o diagnóstico de gastrite já implica em modificação no padrão alimentar, por vezes impossível de ser seguida. Deixar a coca-cola, a cervejinha e o café não é fácil. Imaginem quando eu mando cortar a pimenta, a farinha e o caxiri. O que sobra? Nada da alimentação tradicional deles, ou seja, é praticamente impossível. E convivemos todos – nós e eles – com gastrites crônicas.
Apesar disso sempre há quem esteja disposto a mudanças e conciliar o novo com o tradicional, em busca do melhor possível. Em uma reunião onde discutimos a mortalidade infantil, seu Augustinho, tuchaua da aldeia Cararual, pajé e professor de língua Macuxi afirma:
– Eu sou analfabeto, mas tenho este rádio em minha cabeça que meus pais me deram e que funciona muito bem. Enquanto estamos vivos somos todos alunos, e quero aprender bastante. Temos que dar as vitaminas para as crianças, mas temos que lembrar que os pais de crianças pequenas não podem fazer um monte de coisas.
Pergunto que tipo de coisas são estas.
– Não pode caçar e nem tampar garrafão de água. Se fizer isso prende o ar da criança toda, que não consegue mais fazer xixi, coco e nem mesmo respirar.

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Isso me lembra que mais da metade dos óbitos infantis que investigamos tem como causa identificada pelos pais as “doenças tradicionais”. Embora entre adultos o canaimé seja normalmente o envolvido, especialmente associado a vingança, entre crianças pequenas é mais comum a responsabilidade ser da “mãe-do-campo” por quebras do resguardo, tanto da mãe, quanto do pai, quando as crianças ainda são pequenas, ou “mãe-da-água”, que pega as crianças que se afogam.
Precisamos da ajuda de seu Agostinho.

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Aldeia Guariba – Município de Amajari

Os postes, recém-instalados, acabam diante da Escola Tuchaua Manuel Horácio. Levam, ao mesmo tempo, energia e promessas – encruzilhada entre o hoje e o futuro para as cerca de 300 pessoas da comunidade.

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Gisely, 15 anos, parece já ter escolhido o futuro. Piercing na sobrancelha, unhas coloridas, a menina é vaidosa. Estuda ali mesmo, adora as aulas na videoteca, mas reclama que a escola não tem internet, como em outras aldeias da região.
Flores parabólicas se alimentam da energia dos postes, espalhando novelas, futebol e modas para a comunidade. Se os avanços que a energia traz são inquestionáveis, e não sabemos mais viver sem eles, algumas novidades a que, aparentemente nos habituamos, são dispensáveis – como a cantina da escola, que vende bombons, chicletes, balas e pirulitos.

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IMG_0087 Imagem rara. Um curumim mais gordinho.

IMG_0088 Olha o pirulito!

Na encruzilhada de sua própria história encontro rezadores e um velho pajé, mas não há parteiras – crianças nascem em Boa Vista, 140km distante. Velhos hábitos vão ficando para trás, como imagens desbotadas da memória. O próprio nome da comunidade, Guariba – macaco também conhecido como bugio ou roncador -, revela um passado distante.
– Aqui não tem mais guariba não – diz a professora Eleniza, 34 anos, antes de completar com um olhar distante, talvez em busca da aldeia da infância. – Eu lembro que escutava os roncos dos macacos quando era nova. Mas agora não tem mais não.

IMG_0127 A aldeia ainda tem o seu vaqueiro.

Se Rosely tem o olhar adiante e Eleniza os pés em dois tempos, dona Maria Oneide tem raízes no passado. Com seus setenta anos, tem consciência das mudanças que não aprova quando pergunto do trabalho duro de seu tempo – mudanças de comportamento.
– Antes a gente andava na pernada, com jamaxi carregado de mandioca, lenha, batata e ainda com criança no peito. Hoje as meninas só querem andar de carro, não querem andar nem para estudar, e se não tem condução, não vão pra aula. Hoje é fácil, mas os mais novos acham tudo difícil.

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O novo ou o velho? Integrar ou desintegrar? Se encontrar ou se perder?
Sejam vem vindos! Kawmen manawyn iwatir! – saúda um cartaz na entrada da escola, primeiro e com letras maiores em português. Parece que as escolhas já estão sendo feitas.

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Abraço no coração! Fiquem em Deus!

07 09 Sa Andorinhas

3 opiniões sobre “Impressões Amazônicas 89”

  1. Altamiro
    Que beleza de relatos.
    Você nos brinda com um presente de Natal.
    Precisamos guadar uns trechos para quando conseguirmos emplacar o EAD Vigilância do Óbito intantil indígena
    Feliz Natal!!!
    Paulo Frias

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