Impressões Amazônicas 86

12 08 Flexal (34)
Aldeia Flexal – Aqui começa esta história.

– Doutor, acabaram de me avisar que uma gestante perdeu o bebê de madrugada, na comunidade Santa Luzia.

São quase onze da manhã, mas não podemos perder tempo, temos que ver como está esta mãe. Embora eu seja pediatra, em área indígena a gente tem que se virar, e pela idade a mãe poderia ser minha paciente, pois só tem 13 anos. Fico tranquilo quando me contam que a aldeia é perto, são só 13 km. Depois me assusto, pois descubro que para percorrer esta distância vamos gastar 40 minutos – se a estrada ajudar.

Muitos sacolejos depois chego a uma porteira, cruzo um riacho e vejo a casa de pau-a-pique. Os pais da menina-gestante viajaram e ela está sozinha com os irmãos que tomam conta dela. Ela queixa de dor na barriga e tosse muito. A casa é uma “fumaça só”, com uma fogueira abaixo da rede, provável causa da tosse e única proteção contra os piuns, que mesmo assim não me dão folga.

Pela distância opto por levar a paciente. Enquanto ela arruma a bagagem, vou com três meninos conhecer cachoeira Porto Alegre. Lugar bonito, ótimo para o banho. Ah, se eu não tivesse que voltar! Os meninos não perdem tempo. No melhor estilo “Chico Bento”, tiram blusa e se jogam para dentro da água. Sem preocupação, sem estresse. Quando resolvo voltar eles saem de dentro da água e me seguem, já chegando secos de volta para a casa. Eles tem 8, 10 e 12 anos e são os irmãos que estavam “tomando conta” da gestante.

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Meus anfitriões logo após o banho de cachoeira. E vejam a queda lá em cima…

Quando vamos embora pergunto quem vai tomar conta deles. A irmã responde:
– O Ronado toma conta dos menores – Ronaldo tem doze anos. Ela se dirige para ele: – E lembra de colocar a carne no fogo porque senão vai estragar.

Retorno à aldeia Flexal. Mais lentos por causa da paciente, demoramos mais de uma hora nos 13 km. O mesmo tempo que levei de voo para vir de Boa Vista até o Flexal – e tem gente que não gosta de andar de aviãozinho…

Me perco em meus pensamentos: Ronaldo tem 12 anos. 12 anos. Ficou em uma casinha longe de tudo e de todos. E tomando conta de dois irmãos menores. Todos passaram a noite com a irmã sentindo dores até perder o seu bebê, tendo apenas eles como auxiliares. Como sempre digo, não é a língua, a pintura ou a vestimenta que faz a diferença entre os indígenas e nós. A forma de pensar é bem diferente. Ou você deixaria seus filhos nesta situação? Os nossos nunca seriam tão independentes e nós nunca deixaríamos por medo do que pudesse acontecer.

12 08 Flexal (258)

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Hoje caminho para atendimento na aldeia Santa Creuza. Ando uma hora e meia sob o sol equatorial até chegarmos a aldeia, onde uma as boas vindas são dadas por uma placa e pela propaganda política. A eleição chega até aqui.

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Além do atendimento médico e aplicação de flúor para as crianças, realizamos palestras de saúde. Somos muito bem recebidos, e logo minha curiosidade me faz perguntar sobre o nome da comunidade, fundada pelo Tuchaua Celson.

12 08 Flexal (128)Quem não é filho… é neto!

– Bom Doutor, eu tenho dez filhos. Minha esposa se chama Creuza. Nada mais justo, náo?

O tuchaua também é pajé. Pergunto como começou no ramo e ele me explica que desde criança tem dois companheiros que estão sempre com ele e lhe orientam o que fazer e lhe ensinaram sobre as ervas, benzeduras e tratamentos espirituais. Queria ter tempo para aprender mais.

12 08 Flexal (137) Fila do flúor.

12 08 Flexal (142)Dentista Brainner trabalhando

Embora responsável espiritual pela comunidade, o tuchaua não tem preconceitos religiosos. Na comunidade encontro o Padre Antônio, da Igreja Católica Ortodoxa (sim, ortodoxa!) e o Pastor Adventista Loudo. Todos juntos somos convidados para o almoço por Seu Celson e Dona Creuza. Oramos juntos antes deste abençoado almoço ecumênico.

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12 08 Flexal (295) Pimenta… vai encarar? Pode escolher a sua…
 

O lugar transpira a harmonia demonstrada no almoço. Não é a toa que a comunidade é tão limpa e organizada. As crianças brincam felizes e me sinto bem. Queria poder convidar você para experimentar comigo o peixinho frito, o delicioso feijão verde, a farinha feita ali mesmo… Tudo isso, se for do seu gosto, temperado com uma boa jiquitaia, a picante pimenta local.

Hora de ir embora. Espalho o protetor solar, tiro o boné da mochila e… o pastor nos oferece uma carona. Somos cinco além dele. O carro é um velho Fiat Uno. As pirambeiras me fazem pensar em uma montanha russa. Chega a rampa mais alta, acho que não vai conseguir. Motor 1.0. Carro pesado. O pastor aumenta o volume do som, que espalha hinos para fora da janela e pelo furo do teto, certamente faz uma oração em silêncio e ronca o motor. Logo estamos no alto. Se passamos por ali, o resto será fácil: buracos, crateras, descidas íngremes e até um rio atravessamos. Só pela fé mesmo.

12 08 Flexal (242)O Pastor Loudo e seu Uno. Muita fé e ventilador de bordo.

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Aldeia Caraparu

Tá escuro lá fora. Aqui um grilo me acompanha fazendo a primeira voz enquanto a chuva fina faz o coro de fundo. Estou dormindo no posto de saúde, enquanto o restante da equipe está na “casa de apoio”, cerca de 300 metros de distância. Acho que quando eu era criança se me falassem que eu iria dormir sozinho em um lugar com fama de mal assombrado eu fugiria ou passaria a noite em claro, acendendo velas e lanternas.

12 07 Caraparu (73) Este é o posto de saúde, no final de tarde.

Sem o barulho da cidade, a noite é muito mais barulhenta do que eu imaginava. Grilo, chuva, sapos. Um morcego passa voando, balançando as asas perto da barraca. Um pássaro canta ao longe. De repente passos. Passos? Aqui não é para ter ninguém. Agradeço o banquinho que bloqueia a porta. Desligo a lanterna para prestar atenção e lembro das palavras do meu amigo, enfermeiro Higo, quando me viu dormindo sozinho pela primeira vez:
– Dormir aí fora, seu moço? Não… Aqui tem canaimé. Vai dormir na casa da agente de saúde.

Bicho palheta, canaimé, mãe do campo… Nesta hora todas as lendas surgem na memória.
E nesta hora as lendas sempre se acompanham de histórias terríveis. Lembro do paciente que surtou e correu com uma faca para cima do enfermeiro, no meio da noite, das brigas entre aldeias, do bêbado brigão…

Escuto novamente os passos. Saio da barraca em silencio para tentar escutar melhor. Olho por uma fresta e o luar clareia tudo, mas não vejo ninguém. Resolvo esperar um pouco mais.
– Muuuuu! Passam correndo dois bois que se esconderam da chuva debaixo da varanda do posto.
A imaginação prega peças. Não tem jeito, melhor dormir agora.
Boa noite!

12 07 Caraparu (76)

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2 comentários em “Impressões Amazônicas 86”

  1. Agradeço porque vejo que tem seres com grande coragem, disposição e desejo de servir ao ser humano e de aprender a fluir nesta maravilhosa natureza. Nós, muitas vezes, perdemos ou temos perdido a capacidade de fluir e conviver con este mundo natural. A maioria parece só saber correr atras de consumismo, asfalto, objetos feitos pelo homens e desconhece o mundo verdadeiro. As adversidades são feitas para aprender a amar. A natureza é uma infinita aula de harmonia onde a gente deveria aprender a fluir, dançar e voar na beleza do universo. Obrigado por mais esta lição amazônica!

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