Impressões Amazônicas 84

O monomotor Caravan demora duas horas para chegar de Boa Vista até a pequena Santa Isabel do Rio Negro, as margens do rio que lhe batiza, já em território amazonense.

DSC03642Santa Isabel, as margens do  Rio Negro

De lá, em outro avião sacolejamos por mais uma hora até chegar ao local com mais recursos, a sede do pólo-base de saúde indígena.

IMG_0323Seu teco-teco, o rio e a pista… não pode errar.

Mas não pense que você já chegou. De lá você ainda tem que caminhar até as aldeias que são atendidas pelo pólo. São horas de trilhas na mata ou de barco por um rio traiçoeiro, onde várias vezes você deve esvaziar todo o barco, ultrapassar uma cachoeira com a carga enquanto assiste – e torce – o barqueiro demonstrar toda sua perícia desafiando a corredeira. Se ele errar, o barco afunda e ele não tem como prosseguir ou voltar – e nem você. Você está no meio da floresta amazônica, em um trecho onde a nossa paciente e silenciosa invasão ainda não chegou. A invasão concreta, antenada e energética. Acima de você: floresta e céu. A sua frente: floresta. Ao seu redor: floresta. Do lado: o rio.

DSC03678

Bem, não pense que você estará sozinho. Se isto serve de consolo – ou de maldição –, na mata você nunca está sozinho. Mesmo que não perceba isso. Logo, os insetos sentirão o cheiro do seu suor e farão as primeiras visitas: piuns, carapanãs, maruins, formigas, mutucas, tungas… Mesmo que você não tenha sido apresentado, eles não fazem cerimônia. Para distrair, os martins-pescadores atravessam o rio em alvoroço, disputando com as garças quem pega o melhor peixe. Araras atravessam os céus. Azuis, vermelhas, amarelas, se juntam aos tucanos e espalham cores na paleta de todos os tons de verde.
Ao longe uma anta atravessa o rio. Você vê uma paca, uma cutia, um bando de macacos e sorri feliz. Melhor não imaginar que poderia ser uma onça. Ou melhor, que uma onça poderia ver você.

  ia 62 postado

De repente, uma pequena clareira que se alarga e casas de palha e madeira em círculo surgem. Você chegou na aldeia Yanomami que procurava.

DSC03805Posto de saúde

As crianças cercam o barco, depois cercam a carga, depois cercam você. Curiosos, você se torna atração turística para eles. Algumas crianças, poucas vezes viram alguém de fora, então cada visita é uma novidade. Sorriem, conversam, falam, mesmo que você não entenda nada. Perguntam seu nome. Perguntam de novo. Perguntam mais uma vez. Os nomes deles, não contam. Tem medo de falar alto e um espírito levar o nome – que está junto da alma. Para nossa mania de dar nome a tudo, usam “nomes fantasia”, que servem para saciar nossa curiosidade, mas que não tem o perigo de sumir junto com a alma. Atendo o Sabonete. Depois atendo a Alfacia, Lamparina, Boneca. Escolhem o nome pela sonoridade, e não pelo significado – que desconhecem. Lembro que já atendi o Cudeanta e a Euteamo. Sim, acreditem, são nomes.

DSC03841

Quer comida? Tem banana, mamão, macaxeira. Se você não for vegetariano pode ser carne de anta, braço de macaco, rã, morcego moqueado ou a cabeça de mutum, que um pequeno curumim passa chupando como nossos filhos chupam um pirulito gostoso. Você ferve água. Água escura em panela escura. Melhor não ver o que tem dentro. Ou melhor, seria melhor não ter visto o que tinha dentro… um girino cozido. Será por isso que o café ficou mais gostoso? Há controvérsias.

DSC03709 Farinha

DSC03706 Carne moqueada… macaco no primeiro plano.

DSC03713 Pirulito de Mutum.DSC03713a Close nele!!!

Definitivamente você não está mais no seu mundo de origem. O relógio não governa o tempo. Cama, chuveiro, privada, espelho, geladeira não tem tradução para o Yanomami falado nesta região.

Surge um pequeno problema: onde dormir? Não cabe a equipe de saúde dentro do posto, pequeno e abarrotado de coisas – afinal, não podemos disputar espaço com a galinha que choca seus ovos entre os frascos de soro… ou podemos?. Uma varanda se torna a melhor solução. Valei-me “São Mosquiteiro”. Cada pequeno furo será amaldiçoado a noite toda caso se torne ponto de invasão dos insetos. E se chover? Se chover, melou geral, cai a moral do pessoal, pois com certeza, é temporal. Chuva de pingo grosso e vento. Melhor nem pensar. Mas ela vem. Tarda, mas não falha. Junta a rede de todo mundo. Um respira perto do pé do outro. Se alguém levantar para fazer xixi a noite, acorda todo mundo. Como vem, a chuva vai. Espalham-se as redes novamente. Tomara que a chuva não volte.

DSC03794 Olha lá! No meio da mata tem um posto bem arrumadinho!

Manhã. Ou melhor, antes da manhã já estão todos de pé. Será que não tem alguém que diga que é anti-ético acordar de madrugada quem está trabalhando? Não adianta, pois novamente os visitantes são atração. Todos querem ver dormir, comer, banhar. Como trocar de roupa? Enrolado em uma grande lona… ou tão nu quanto os anfitriões, vestidos as vezes com pequenos fios vermelhos – o pessimake.

DSC03774 Beira do rio, sem banheiro… onde trocar de roupa? Dentro do lençol…

Café da manhã tomado – com torcida e platéia –… hora de trabalhar. Chamem as crianças, gestantes e idosos. Em dois dias, avalia-se cada um, registra-se o peso, realiza-se suplementação alimentar para os de baixo peso. Enquanto você trabalha – com torcida e platéia – um papagaio passa voando.

DSC03679Trabalho na aldeia. Enfermeira Elaine com EPI completo para exames de sangue.

DSC03892a Educação em saúde: camisinha na banana.

Quando você escreve, percebe que as crianças esperam catando piolhos… lanchinho.

DSC03720a

Depois vão para sua cabeça. Você não tem piolhos? Tem cabelos brancos, e se não forem muitos, logo não terá nenhum. Descobrimos porque índio aqui não tem cabelo branco. Cada um é meticulosamente arrancado pela raiz, para nem brotar de novo.

DSC03839 Criançada “caçando” cabelos brancos. Se fosse comigo, voltaria careca… hehehehe!

As aldeias, as caminhadas, consultas, avaliações se repetem. Uma semana, quinze dias, um mês. Sem telefone, sem internet, sem mamãe, novela ou olimpíada. Aliás… a Olimpíada já começou?
Depois de um mês vem a folga merecida. Quinze dias todos seus para fazer o que quiser… Passam rápido, mas se você não estiver neste trabalho apenas pelo dinheiro – e espero que não esteja – logo, logo estará com saudade, e… Quando é o próximo avião para aldeia?

DSC03734

5 opiniões sobre “Impressões Amazônicas 84”

  1. Sempre que leio estes teus relatos Alta, fico com vontade de largar essa Brasília aqui e conhecer uma aldeia também (mais do que conhecer, vivenciar uma aldeia)! Sinto que é uma vivência única, de muito desprendimento, quero MUITO um dia viver!! Até lá, acompanho as tuas impressões, sempre tão inspiradoras!! Um grande abraço! Manu

  2. Altamiro Vilhena, jovem/senhor de vida fácil. Vive de avião por aí, estudando a natureza das coisas. Parabéns, mestre! seu estradar é inspirador para que tenhamos boas execuções de tudo que foi planejado. Até logo!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s