Impressões Amazônicas 82

Seu Januário Felismino nasceu em 1937 na Serra da Moça, aqui mesmo em Roraima. Na década de 70 chegou no Tepequem, em busca do diamante,
riqueza fácil mais difícil de se conseguir.

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Se hoje o cenário é disputado por poucos turistas buscando a riqueza
concreta das cachoeiras, na época era disputado por um sem-fim de
garimpeiros em busca da riqueza fugaz dos brilhantes.

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Na Vila do Cabo Paiva, Seu Januário mora solitário em uma cabana,
vizinho de porta com a mata e de léguas com mais dois garimpeiros,
todos esquecidos pelo mundo, ricos em memórias do ontem e
esquecimentos do hoje. Quando ele chegou por ali cada lugar era
disputado por bares, casas de pouso – onde mulheres de todo Brasil
ofereciam serviços nada fáceis -, e até por uma delegacia com cadeia,
dormitório para os que infringiam as leis, "que era pra botar ordem na
confusão por ali"

IMG_0057 Antiga cadeia… “xilindró” abandonado…

IMG_0024Seu Januário mostra o terreno da casa.

IMG_0018 E esta é a casa. Casa? Sim, casa.

Todos queriam uma coisa só: bamburrar. Tirar a sorte grande. Encontrar
"a" pedra. O diamante valioso, ao mesmo tempo pé-de-meia e
aposentadoria. Seu Januário quer até hoje. Ele resiste. Um dos poucos
que continua depois de proibido o garimpo mecânico e da retirada da
maior parte das pedras.
Como não foi embora, seu Januário ganhou posse da terra. Continua em
busca da pedra perfeita, mas sobrevive da roça onde planta banana e
macaxeira.No rio que atravessa seu terreno busca peixinhos que
completam as refeições junto com as frutas. Manga, cupuaçu, buriti,
jamelão, coco, laranja e goiaba "fazem lama" defronte do barraco de
paredes e teto de palha.

Aos 75 anos seu Januário ainda tem disposição para caçar:
– Tem muita paca aqui. E tatu, cutia, jacaré. O problema é que esse
povo da cidade não gosta mais dessas comidas. Tem dinheiro e só quer carne de açougue. Não sabe o que é bom.
Morando sozinho sua companhia é somente a natureza e uma viola que
corre para nos mostrar. Pega e toca para nós. Seus dotes musicais não
são os melhores do mundo, mas talvez sirvam para protegê-lo a noite.

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IMG_0036 Show só para nós.

A música espanta a solidão de quem vive sozinho e talvez espante o sobrenatural:
– Aqui não tem fantasma, mas tem visagem. Muita alma de gente que
morreu nestas bandas.  De noite escuto barulho de gente lavando pedra
no rio. E atiram pedra na minha casa, mas nunca vi ninguém. As "alma"
viram tamanduá, e viram trovão quando davam muito tiro.
Pergunto por mulheres e ele desconversa do presente e volta para o passado.
– Aqui tinha muita mulher. Eram mais de 450. Tinha mulher de Manaus,
de São Paulo, do Pará. E só "gata bonita". Umas até ficaram ricas.  As
feias eram só pra quebrar um galho.

Conta do dinheiro que mudava de mãos com facilidade. Diz que vinha
gente de avião só para jogar bola, que havia muita festa.
– Naquele tempo tudo era barato.
Hoje sua riqueza vem de outro lugar:
– Tenho dinheiro certo. Sou aposentado pela idade.

IMG_0728Ponte para chegar na casa do seu Januário.

IMG_0009  IMG_0013 Fartura… buriti, coco…

Compramos uma palma de banana e nos despedimos, transportados para um tempo que hoje só existe em memórias de gente como seu Januário.

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Benedito Chagas é um guerreiro. Wapixana, é morador do Ponto 5, região da comunidade Jacamin, e é casado com duas esposas. Sim, duas esposas. Guerreiro mesmo. Para cada uma, fez uma casa. Uma de um lado da rua, outra do outro. Para facilitar, duas irmãs. Assim tem duas esposas mas só tem uma sogra.

“Ele é meio aperreado.” – afirma o Seu Chiquinho, agente de saúde. “Deve de ser por causa disso.”

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Hoje penso que vou atender um Beatle. Levo um susto quando escuto que o curumim chama John Lennon. Depois pego o cartão de vacina e descubro que este Beatle é brasileiro mesmo. O som é o mesmo, mas o nome… Diolenon.

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Comunidade Escondido

Estive aqui há dois anos e é uma alegria ver como a comunidade cresceu, repleta de crianças. Todos vem assistir a palestra sobre saúde, e minha surpresa é ver, junto das galinhas e dos cães de sempre, um pequeno porco do mato (catitu ou “porquinho”). Este tem até nome: Shreck. Escapou da panela e entrou para a família.

IMG_0185 Shreck na reunião…

 IMG_0219 … e em casa.

Na casa da família, outro animal de estimação. Um pequeno veado, ainda filhote e assustado, é criado na mamadeira e divide o espaço com Shreck.
Estes ganharam na loteria. Da janta da família para junto da família.

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A chuva faz uma pausa e um zumbido chama minha atenção – preguiçosas dormideiras não se escondem sob o sem-peso das abelhas. As plantas não dormem, operárias trabalham e visitam as flores, pequenas esponjas púrpuras que enfeitam os campos.

11 07 flexal (27)

Tarde vazia. A garoa gelada assusta quem vive em latitudes equatoriais. Ninguém sai de casa e pouco atendo. Estudo um pouco enquanto espero os pacientes que não vem. Fecho o posto enquanto uma ”serpente-de-sete-cores” enfeita o céu e seu arco refletido em minha íris, escorregam sobre a aldeia e renova a aliança deste povo que vive na terra e da terra. Cores. A tarde se encheu.

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4 opiniões sobre “Impressões Amazônicas 82”

  1. Você escreve bem demais. Mas, antes, é seu olhar sobre as coisas que enche de vida as palavras! Obrigada por esses relatos apaixonantes. Muita luz no seu caminho. Abraços desta outra esquina do país.

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