Impressões Amazônicas 81

Aldeia Teso do Gavião. Aqui “teso” é sinônimo de morro e quando é grande chama “tesão”. É daquelas coisas que no começo soa estranho, mas depois a gente habitua e já não ri quando alguém diz que “vai no tesão”.
Me chamam para conhecer a Pedra do Piolho. Esta é uma das que Makunáima transformou de animal em pedra, nos tempos míticos dos Macuxi. É fácil entender o porque quando percorremos esta região. As pedras nascem do nada, como se brotassem direto do lavrado. Fazem um espetáculo lindo. Algumas, como esta exercem o fascínio nos habitantes há muito tempo. Muito antes da chegada dos portugueses esta região já era habitada, e as pinturas nas pedras comprovam isso. Sóis, desenhos geométricos e figuras antropomorfas enfeitam a pedra, que o Tuchaua local me mostra orgulhoso “Olhe como é antigo, doutor. Mais antigo do que nós!”. Se hoje nos fascinamos com as pedras brotando do nada, imaginem séculos atrás, quando nenhuma estrada cortava o lavrado, o mítico fazia parte do dia a dia na busca de explicações para entender melhor a vida.

IMG_0216 Pedra do PiolhoIMG_0218Antigas pinturas IMG_0226 Pedras que brotam no meio do nada… Região do Surumu

Aldeia Banco (não tem dinheiro… Banco por causa do banco de areia que o rio faz aqui por trás). De repente escuto uma voz grossa: “Doutor, bem que o senhor disse que um dia ainda ia chegar por aqui!”. A alegria era nítida no rosto do tuchaua Constäncio, pai do Roenison, paciente do tempo que trabalhava na Casa de Saúde do Índio, que teve calazar, doença infecciosa grave e algumas vezes fatal. Já se vão quase quatro anos que saí de lá, mas ser lembrado por um trabalho feito sempre nos satisfaz. E é para isso que estou aqui. É isto que paga o preço de minha saudade.

12 05 (102)

Willimon – N 04 38’ 263’’ W 60 10’ 642’’

O avião sobrevoa a copa das árvores e mergulha sobre o rio. Prendo o fôlego, pois não vejo a pista. Só quando as rodas tocam no chão percebo que o gramado que se estende a nossa frente é a pista.

12 05 (23)

A Aldeia Willimon está perto, mas do outro lado de um rio que, com a cheia, não é fácil de ser atravessado. Ao longe crianças olham a cena divertidas: um branquelo com mochila e caixa de comida olhando com cara de bobo sem saber o que fazer. Após alguns minutos vem dois rapazes com uma canoa, só que eles mal cabem dentro e percebo que não é nessa que eu vou, pois o peso dos dois é suficiente para encher de água o pequeno bote. Logo se aproxima uma canoa grande, feita de um único tronco, e conduzida por uma senhora (!). Os rapazes ajudam e a travessia do rio Ailã é tranquila. A senhora me explica que é Diretora da escola, e quando quer fazer exercício “vem ajudar a atravessar o pessoal”.

12 05 (43) Queriam que eu fosse nesse…

12 05 (30) Criançada me olhando.

Amanhã haverá o aniversário do antigo Tuchaua. Uma rês foi abatida e o caxiri está sendo preparado. A festa vai ser grande. Percebo quando vejo vários indígenas chegando com jamaxis (cestos) carregados nas costas. Pergunto de onde vem. Chegam da Serra do Sol, três dias de viagem. A pé. Muita vontade de participar de um piseiro. Tomara que este boi seja grande, pois o pessoal já deve vir com fome.

12 05 (119)3 dias de perna…

 
A aldeia está animada. Parentes chegam de diversas comunidades. Cada grupo estica suas redes e as crianças correm de um lado para o outro. Agora são seis da tarde e testemunho o que pode ser um preparatório para o Guiness – Livro dos Recordes. Há quase duas horas já se iniciou um culto no malocão e pelo visto não tem hora para acabar. Fui assistir e, entre um testemunho e outro ouço o celebrante dizer: “Sei que vocês querem ir para o futebol, mas a palavra de Deus é mais importante”. O culto ainda vai longe. Só estranho ser antes da festa. Seria melhor depois… garantiria o perdão pelos excessos. Será que estarão pedindo adiantado?

12 05 (165) 12 05 (163a)Do lado de fora, protegendo as crianças do sol…

19:30h Somos chamados para o malocão, onde somos “apresentados” a comunidade. Foi rápido, pois após o culto todos estão ansiosos pelo caxiri e pelo piseiro. As cuias passam de mão em mão e experimento uma com o tradicional gosto ácido e amargoso. O caxiri está cremoso, mas não é tão forte, e as crianças também aproveitam.

 12 05 (211) 12 05 (204) Vai uma cuia?

21:20h Eu pensava que a festa iria durar a noite toda, mas a energia acaba – acho que o diesel do gerador acabou. A noite vai ser mais tranquila do que imaginava. Sem as luzes o céu logo acende seu pisca-pisca de estrelas que ilumina o coro de sapos e grilos.

21:40h Já estou na barraca quando a energia retorna. Logo vem um agente de saúde: “a festa não acabou não, doutor. Venha tomar mais caxiri e comer o bolo!”. Fora da barraca as luzes já apagaram as estrelas do céu. “Michel Teló” canta alto e percebo que alguma coisa está fora da ordem. Hora de voltar para a barraca. Boa noite. Cadê os meus tampões de ouvido?

22:15h
– Doutor, vamos lá!
Não tem jeito. O agente não quer que eu durma. Vou fazer a social e assistir o forró. A super-lua acaba de nascer e apaga definitivamente as estrelas, iluminando a noite. A cuia de caxiri ficou pequena e agora me oferecem uma super-cuia, tão grande quanto a lua. O forró é ao vivo. Já não se dança mais parichara e aleluia, mas a turma não se incomoda e arrasta a chinela no malocão. A banda tem repertório variado e vem de longe: Aldeia Orinduque, fronteira com a Guyana. Depois do Teló escuto Luiz Gonzaga, Falamansa, Caxiri na Cuia e Paçoquinha de Normandia. Tem até forró engajado:
“ Cadê a mata verde?
Poluição comeu!
Cadê os peixes grandes?
Poluição comeu!
E nem o Chico Mendes, sobreviveu!”.
Ao redor do malocão crianças dormem nas redes, indiferentes ao barulho. O cheiro do caxiri se espalha, mas ninguém se preocupa, pois o perdão já foi garantido antecipadamente. A vaidade é pecado perdoado: óculos escuros, casacos, jeans e vestidos se misturam a pés descalços, chapéus de cowboy, bermudas e camisetas em total harmonia. Sem preconceito, há quem dance de mochila nas costas. O que vale é comemorar o aniversário do tuchaua, que ao menor sinal de desanimo pega o microfone e avisa:
– O pessoal veio de longe e estou pagando. Tem caxiri pra todo mundo e quero ver a festa até o dia clarear. Não quero ver ninguém sentado.
Fala isso, pega uma neta e sai rodopiando pelo salão.
Depois, para animar mais a festa, abre um pacote de chiclete e joga para o alto, fazendo a alegria da criançada que se joga no chão entre as pernas dos dançarinos.

 

12 05 (248) Super-lua cheia…

12 05 (231)

12 05 (246) 

12 05 (222) 12 05 (252)

12 05 (225)a A cuia aumentou…

12 05 (227) A turma do dominó.

Alguma coisa continua fora da ordem. A noite vai ser longa, mas todos parecem felizes. Saio de fininho e vou dormir. O agente de saúde já se encheu de caxiri e arrastando a chinela no salão, não vai perceber a minha falta.
Até amanhã.

 12 05 (215)

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7 comentários em “Impressões Amazônicas 81”

  1. Muito legal. Parece que estou aí no piseiro. Vamos relembrar um pequeno trecho da regravação do forró de autoria do compositor indígena Jean Carlos que na voz do cantor “Zerbine Araújo e Banda Paçoquinha de Normandia” ficou belíssima:

    “Depois de tomar tanto caxiri
    Parente quer tomar mocororó
    Vai pegar a índia mais bonita
    E vai pro salão levantar pó
    Vai passar cebo nas canelas
    E no cabelo tem óleo de mocotó
    Parente quer dançar a noite inteira
    Se não tem dama o parente dança só
    …”

  2. Parabenizo Dr. Altamiro pela socialização conosco de fotos dessas maravilhas de lugares que tive a oportunidade de conhecer na minha infância juntamente com minha família. Tive o privilégio de tomar muitos banhos no Rio Uailã.
    Até hoje curto o Forró nas Conunidades Indígenas e os Festejos de São Sebastião, em Janeiro, no município de Uiramutã

  3. Dr. altamiro , fico muita feliz em conhecer seus trabalhos e fazer com que ele seja prazeroso, é realmente uma realidade que poucas pessoas conhecem. Admiro as pessoas como o Sr. que vai para as nossas comunidades e conhece de perto nossa cultura indígena.. Olha, tem que haver realmente essa disponibilidade em sair do seu conforto e vestir a camisa ” Saúde Indígena”. Fica aqui minha admiração em seu trabalho.

    Claudete Ambrósio- Indígena Wapichana

  4. Altamiro!
    Como vc já sabe, sou fã do seu trabalho e sempre fico ansiosa por ler suas impressões e vejo que já está na hora de sair um livro né? Deus abençoe e ilumine essa pessoa maravilhosa e de coração grande que você é. Muito Obrigada por partilhar suas histórias conosco, me sinto muito privilegiada por isso. Abraços, esteja sempre na Paz de Jesus.

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