Impressões Amazônicas 73

Daniela Cicarelli sorri quando caminha em minha direção. Não estou sonhando, nem estou na São Paulo Fashion Week. Daniela Cicarelli é uma pequena indígena de quatro anos, que mora na aldeia macuxi São Luiz, as margens do rio Cotingo, município de Uiramutã.

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Chegar aqui não é fácil. São seis horas sacolejando dentro de uma pick-up dura e depois a travessia do rio por uma pequena canoa – que é impossível na época de chuvas, quando só se chega em São Luiz de avião – e mais vinte minutos de caminhada com a carga toda nas costas.
DSC02928 Cruzando pontes debaixo d´água.

DSC02950 Travessia de barco.

E mesmo longe até aqui a globalização chega. O Agente de Saúde vem trabalhar com a blusa do time italiano Milan. Futebol é mania mundial mesmo. Ontem o Brasil bateu a Argentina por dois a zero e a comemoração das pouco mais de 60 pessoas ao redor das 20 polegadas da única televisão da aldeia conseguiu ultrapassar até mesmo a zoada do motor de energia.

Mas antes que você diga que “já não fazem mais indígenas como antigamente”, lembre que a nossa cultura é viva e que as incorporações não apenas fazem parte como também são importantes, afinal, há pouco mais de vinte anos atrás nenhum de nós usava nem a internet, nem os celulares… simpáticas incorporações vindas de outros países. Aqui a cultura é preservada na língua materna, ensinada até na escola, nos hábitos alimentares, que encontram no caxiri e na damurida alimentos do dia-a-dia e até mesmo nas doenças. Este ano duas crianças morreram. Na declaração de óbito preenchida pelo agente de saúde estava lá: “canaimé” em uma e “bicho-da-água” no outro. Este último por um problema do pai que não seguiu as prescrições necessárias e que foi apertar tambor de água. Não pode, deixou brabo o dono da água.

DSC02834 O ossinho de jabuti no cordão é proteção garantida.

IMG_6833 Cabelinho “a la Neymar”… moda na maloca.

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Como eu disse, futebol mobiliza multidões. Entre os indígenas isto não é diferente. Tarde de sábado. Ainda sob o sol quente começam a chegar os guerreiros de Santa Liberdade. Pedalaram duas horas sob o inclemente calor equatorial para a revanche contra o time local de Santa Maria, onde estou atendendo.
As consultas são interrompidas. Toda população, cerca de 80 pessoas se espalham a beira do campo. A torcida feminina é grande e acompanha cada lance:
– Vai Ruthson! Pega ele Dionelson! – gritam com voz aguda! – Corre Buchudo!
O animado tuchaua Antonio Carlos, de óculos escuros acompanha a partida:
– O pessoal hoje está devagar! Vamos correr!
Piiiiii! Apita o juiz, pois o jogo é sério. Não é a toa que o pessoal veio de longe e que as mulheres prepararam baldes generosos de pajuaru, o forte caxiri de beiju.
Dois a dois, metade do segundo tempo. Bola pro mato que o jogo é de campeonato. Mas bola no mato rasga, e sem uma bola reserva a partida é encerrada antes da hora. O empate deixa os visitantes felizes e os anfitriões desconsolados. Agora futebol só depois que alguém viajar para a cidade e comprar uma bola nova.
A solução para animar é tomar caxiri. A festa vai começar.

IMG_7067 Futebol na maloca.

IMG_7040 Torcida.

IMG_7082 Olha o tuchaua conferindo o jogo.

Noite.
Estamos jantando quando o tuchaua vem nos convidar para o piseiro. O problema é que o forró vai acontecer exatamente atrás de nossas redes e barracas, assim não há como dizer não. Mesmo sem dançar não há como dormir ou conversar, então o jeito é ir pelo menos assistir. E se divertir. A cuia de pajuaru passa de mão em mão. Mais amargo do que cerveja, aos poucos vai dando ânimo aos casais que rodopiam no salão em meio às muitas crianças que dançam, pulam e dão risadas.
O DJ é o agente de saúde. O som das bandas regionais se mistura ao chiado da chinela arrastando no chão. Zerbini Araújo, Caxiri na Cuia e Macuxizinho do Forró misturam o ritmo nordestino com as letras de temática regional. O cheiro de tabaco e caxiri se misutra no ar.
A festa é familiar e deve encerrar por volta das onze horas, quando o motor de luz é desligado. A lua ilumina o céu enquanto vou para a barraca, ainda soando em meus ouvidos:

“Depois de tomar tanto caxiri, parente quer tomar mocororó,
vai pegar a índia mais bonita, depois vai pro salão levantar pó.
… parente quer dançar a noite inteira, se não tem dama o parente dança só”

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IMG_7018 Este é o pajuaru, caxiri feito a partir do beiju (tapioca).

IMG_7015E todos tomam. Até as crianças.

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IMG_7114 Depois do piseiro.. hora do banho.

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Aldeia Travessão.

Agora são três da tarde. Foram sete vôos para transportar nossa equipe de oito pessoas e todo nosso material da aldeia Santa Maria para Travessão. Estamos cansados e o sol não perdoa. Solução para depois do almoço? Bem, já que não tem uma sombra o jeito é ir para o rio… ficar de molho igual a jacaré dentro d´água, como se diz aqui, “de bubuia”. A comunidade é bem pequena e só estão esperando nosso atendimento para amanhã. Vida boa!

IMG_0012 Enquanto não tem atendimento…

IMG_7004 Aproveitando para laver roupa.

IMG_7007 O técnico Israel só “de bubuia”…

No final da tarde um morador aparece com linha e anzol, o que logo vira diversão. Acendo um foguinho enquanto o pessoal se reveza com a isca e logo temos peixe assado. Nada grande em tamanho, mas peixe fresco a beira do rio e com a lua enorme que está fazendo… Vida boa!! Para finalizar nosso companheiro de pescaria nos convida para um queijo. Chegando em sua casa a esposa coloca uma panelona de coalhada, muito queijo de manteiga e o onipresente caxiri. Este era diferente, bem grosso, mas não fiz mais do que provar. Em compensação, só de coalhada com farinha de tapioca foram dois pratos cheios. Vida boa!!! Ou melhor… Vida maravilhosa!!!

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SDC13157 Coalhada fresquinha.SDC13158
Tapioca, farinha e queijo para acompanhar.
SDC13159
Todo mundo na merenda!

E tem gente que acha que meu trabalho é estressante…

11 07 Jacamin (118) Fiquem com Deus!

29 opiniões sobre “Impressões Amazônicas 73”

  1. Altamiro Vilhena, vc está cada vez mais mostrando o escritor fantastico que existe dentro de vc!
    A gente até pode sentir o frescor da agua da “bubuia” e o sabor do peixe assado…
    E vc transforma seu trabalho numa festa permanente, onde dificuldades são superadas e sobra satisfação.
    Se vc conseguir salvar um idiozinho que seja, vc já fez muito mais que os colarinhos brancos de Brasilia…
    Quero saber um dia que outros “Altamiros” seguiram seus passos e assim este Brasil possa ter esperança…e quem sabe, salvação!
    Um abraço
    Irene

  2. Oi querido amigo, saudades…
    Parabéns por mais esse trabalho. O bom é que não tem rotina, cada dia a gente aprende uma coisa diferente com eles. Não dá pra ficar stressado mesmo.
    Bjão pra familia feliz.

  3. Altamiro,

    Me recordo de Dorival Caymmi:

    “E assim adormece esse homem
    Que nunca precisa dormir pra sonhar,
    Porque não há sonho mais lindo
    Do que sua terra, não há!”.

    Sempre Alerta,

    Ricardo

  4. Olá amigo. Tenho certeza que as fotos de comida são para mim!
    Meu Deus fiquei com agua na boca vendo aquela coalhada e lembrando do nosso antigo jeito de comer-la: com farinha.
    Gostei da Cicarelli para ser sincera fiquei fã.
    Lindo trabalho!
    Abraços,
    Maria Lucia

    1. Olá Branca,

      O canaimé e o bicho-da-água são dois seres mitológicos dos indígenas da região leste de Roraima, do mesmo grupo do bicho-da-serra e do bicho-palheta. Aqui trabalho com diferentes etnias que tem as lendas semelhantes: Macuxi, Wapixana e Ingaricó. Nesta região o antigo heróir mitológico era Makunaima, hoje muito pouco valorizado. Já os entes perigosos costumam ser referência para a população, muitas vezes até relacionados com as mortes.

      Abraços,
      Apareça sempre nas Impressões,

      Altamiro

  5. Lindas fotos e maravilhoso texto, Altamiro. Uma curiosidade: nas suas andanças pelas aldeias, outros nomes inusitados como a da linda Daniela Cicarelli?
    Abraço!
    Renata

  6. Samiro véio de guerra !!
    Que inveja … inveja-pura, sem maldade … fazer o que gosta, conhecendo nosso
    Brasilzão em seus mais profundos recônditos, conhecendo essas figuras ímpares,
    haja história pra viver e pra contar … parabéns !!
    Gostei mesmo foi de vê-lo usando a camisa da Tropa de Escoteiros … hahah.
    Essa o Rochério vai se amarrar.
    Um forte abraço …. vai estar por aqui em 12/out ??? Estão tentando organizar um
    Maçaricos … mas algo me diz que vai babar e a velharia que está pilhada para
    participar, vai arrumar outra coisa pra fazer.
    Sempre!
    Commander.

  7. Meu irmão…
    Tô lendo suas Impressões, tô vivo, tô indo… kkkkkkk…
    Pra bom entendedor… só queria a mesma quantidade de stress que vc está passando por aí!
    Daqui a 15 dias tem feira veterinária em SP… vamos? Faz tempo que não mijo no gelo hahahahahaha…. E ainda por cima, vai ser no Center Norte com risco de explosão!

    Abraços… saudades meu irmão!

    Renato

  8. Altamiro,
    é bom receber notícias suas.

    Lindas fotos, e a Pequena Cicarellime fez rir. Riso bom.

    E ao ler seu relato, descubro que tenho um mundão de coisas pra aprender neste mundo.

    Gratidão infinita!

    Carmen

  9. Olá Altamiro, quanto tempo hein?!
    Pergunta que não quer calar…é impressão minha ou a camisa da foto lá de baixo é da Tropa de escoteiros??

    Sempre Búfalos de Bedrocks,
    Marcel.

  10. Cicarelli, Neymar…coisa chique de se ver.
    Falando nas incorporações…quisera eu poder incorporar um pouco dessa sua capacidade de olhar e perceber as coisas de maneira tão inteligente e gentil.
    Beijos para a família.
    Janaine

  11. Maravilhoso relato, Altamiro, como sempre! Adorei as fotos e gosto cada vez mais do jeito que vc escreve. Com precisão e poesia, mas sem pieguice. Achei bem bacana vc abordar essa questão da globalização, tão pertinente nos nossos dias. Saiba que minha filha de 10 anos já levou pra escola uma dessas suas “impressões” e foi uma contribuição muito legal. Esta de hoje pode ter o mesmo futuro, tão cheia de informações interessantes está.
    Como sempre, aliás. Como vê, sou sua fã. Continue nos brindando com esse rico material.
    Um grande abraço,
    Lígia

  12. Querido,
    Fico maravilhada com as coisas que você conta. Realçmente você está desbravando este nosso Brasil imenso, que nós da cidade, não temos noção alguma de como as coisas tão simples e precárias podem ser o dia a dia de tantos outros nossos cidadãos. Continue mandando seu “diário” para sua teacher que te ama muito e que te admira cada vez mais.
    Mil beijos,
    Sandra

  13. Altaaaaaaaaaaaaa, como sempre vc é surpreendente em cada edição, amei mais esta. Passei o endereço do seu blog ao meu namorado para ele também te acompanhar. Até a próxima 🙂

    Vc faz falta lá no hospital…

  14. Boa tarde… Só consigo matar um pouco da saudade de vc pela foto né?! Rssrs…. Como estão as coisas por ai?? Sinto muita saudade de quando trabalhamos juntos, aparece por aqui qualquer hora. Um grande beijo.

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