Impressões Amazônicas 71

Aldeia Samã. Em Macuxi significa duro. Dureza chegar aqui em um vôo “sacudido” de cerca de uma hora. Deu até para marear.

11 01 Sama (107)

A comunidade é bem simples e pela primeira vez desde que estou em Roraima as crianças cercam minha máquina fotográfica. Eles se encantaram com a foto de um gavião e passaram a pedir para eu “atirar” em tudo.
– Atira no gavião! Atira na pomba moura! Atira na mangueira! Atira no caimbé! Atira no passarim veio!

11 01 Sama (238) O “passarim véio” é um tico-tico do campo.

Depois pediam:
– Deixa eu ver na “caixa” (a máquina).
Animados começaram a pedir fotos uns dos outros:
– Atira no Lindomario! Atira no Azuilo! Atira no Bagagem!
Os nomes diferentes eu já estou habituado, mas Bagagem? Não entendi nada até me explicarem que o “Bagagem” era um dos meninos. Mas porque este nome? Me explicam que é só um apelido que ele ganhou depois que se queimou com mingau quando era pequeno e ficou todo “engilhado”. Daí para Bagagem não conseguir entender.

11 01 Sama (77) Nosso amigo, o Bagagem.

Apesar do nome tradicional da comunidade por onde passa o rio de mesmo nome, ninguém fala mais a língua materna. Seu Nonato, que vem do Arai com a esposa e os filhos, comunidade distante cerca de uma hora “na pernada” explica.
– Nem eu aprendi a língua. Já tenho 44 anos. Quando fui para a escola os padres que davam aula e eles diziam que era mais fácil e mais importante aprender português. A gente quer um professor que dê aula em Macuxi, mas é difícil conseguir.

Para o banho recomendaram uma cachoeira. Vinte minutos na perna pelo lavrado. Muito bonito, com as crianças me acompanhando para pedir os “tiros” de cada pássaro, árvore ou pedra diferente.

11 01 Sama (19) Eu fotografei foi o menino com os cajus.

Fui o último a chegar. As crianças rapidamente tiraram a roupa e se jogaram no poço formado pela bela cachoeira.

11 01 Sama (36)

Lugar daqueles que faria sucesso no sul. Exceto por dois problemas… vamos a eles, pois até mesmo no paraíso a gente encontra dificuldades:

Pense em uma água fria. Pensou? Pois é. Era mais. E eu vim com defeito de fabricação. Tenho pavor de água gelada, um temor que tento enfrentar, mas que não é fácil de superar. Fui entrando “pelas beiradas”, até que…
– Quem tá me jogando água?
O curumim olhava com a cara mais inocente do mundo, mas não parava de jogar água. Os outros riam, riam. Eu não podia nem xingar… Mas me inspirei no Tarzã:
– Ôooo ooo!!!
Tchibum para água.

11 01 Sama (50) Todo mundo no banho.

11 01 Sama (49) Eu quero foto!

11 01 Sama (66) Água gelada!

Que frio. O consolo é que dentro eu ficava livre do pium. A praga amazônica, os demônios em forma de ponto. Há muito tempo eu não ia a um lugar com tanto pium, e se fui, a sensação foi tão ruim que meu cérebro fez questão de eliminar da memória. Na orelha, na boca, nos olhos, nariz, aquele monte de pontinhos voadores insistiam em pousar em todo lugar. Não eram nem mais piuns. Eram pivários, pimuitos, pidemontão. O jeito foi bancar o jacaré… somente os olhos fora d´água. (Para os que não acompanham as Impressões a tanto tempo, tem um texto sobre o que é o Pium em

https://impressoesamazonicas.wordpress.com/2011/07/23/pium-praga-amaznica/). Na hora de ir embora o jeito era correr ou ia tomar picada até em lugar que ia ser difícil explicar.
Como diz o ditado: “no pain, no gain”. Sem dor, sem ganho.

11 07 Pium (2) Close do pium. Mas ele é tão pequeno que, como se vê na foto abaixo, o parafuso da janela do avião é enorme perto deles.

11 07 Pium (4)

 

Na volta as crianças me explicam sobre os mitos locais. Além do Canaimé aqui tem o Bicho-Palheta. Perigoso ele ataca pelas costas. Dá um soco por trás que é certeiro. Estoura o coração e o cara morre. Ele tem este nome porque parece a palheta do boi.

Última noite no Samã. Como despedida fazemos uma “seção cinema” com desenho para a criançada. Os pequenos – e alguns grandes – se reúnem no posto logo que escurece. Só faltou a pipoca…

11 01 Sama (294)

A hora da viagem sempre é complicada. Nunca sabemos que horas o avião irá chegar, e nem mesmo se irá chegar. Ás nove já está tudo pronto: mochila arrumada, barraca empacotada, equipamentos nas caixas, remédios, alimentos… Aguardamos no posto de saúde, juntamente com o Agente Indígena de Saúde e sua família. Dez horas e nem sinal. Onze horas e nada. Onze e quinze e o motor começa a zoar. Pouco depois chega o avião, para a primeira viagem para nosso próximo destino: Aldeia Santa Maria. São 34 minutos pela serra. Para levar os sete integrantes da equipe e todo equipamento serão quatro viagens. Desempacotamos alguns miojos para os que ficam e mandamos o primeiro grupo. O dia será longo…

11 01 Sama (168) A avozinha e sua neta esperam conosco o avião.

Cheguei na Santa Maria quase três horas. O sol não dava trégua, mas a distância um arco-íris indicava chuva e um frescor para o fim de tarde. A noite tivemos nossa primeira reunião com o Tuchaua Antonio Carlos e com a comunidade. Acho que vai ser bom o período aqui, embora de muito trabalho.

Fim de tarde. Ao longe as nuvens cinza-chumbo prometem uma chuva tropical típica da região amazônica. Por entre frestas das nuvens cinzentas o por-do-sol insiste em aparecer. Luz e trevas se mesclam. Abaixo, indiferentes a poesia escrita no céu, os jovens jogam futebol.

11 02 Santa Maria (45)

XXX — XXX — XXX — XXX —

A Comunidade do Jenipapo fica a pouco mais de 40 km de Boa Vista e bem menos do município do Cantá, da qual faz parte. Mesmo assim é uma comunidade esquecida, escondida ao fim de uma precária estrada de barro e lama. Uma epidemia de malária nos faz viajar até lá – e pela primeira vez um médico foi a comunidade. Comigo viajaram o técnico de enfermagem Geraldino e o Agente Indígena de Saúde (e agora também técnico de enfermagem) Júlio. Gente disposta a trabalhar e ajudar um pouco.

10 10 Com Genipapo Canta (6) Júlio e Geraldino trabalhando.

10 10 Com Genipapo Canta (25) Até na beira da estrada pararmoa gente para fazer exame de malária.

10 10 Com Genipapo Canta (10) E tome dedo furado!

A pequena comunidade de três casas e pouco mais de vinte pessoas é toda da mesma família. São Wapixana que falam na língua materna e cujos mais velhos falam melhor o inglês do que o português. Encontramos quatro pessoas com febre, todos positivos para malária.

10 10 Com Genipapo Canta (12)

Fizemos bem pouco, mas o sorriso e o agradecimento são aqueles que não se compra nunca com um cartão de crédito.

Sorriso procês e beijo no coração!
Altamiro

20 opiniões sobre “Impressões Amazônicas 71”

  1. Sr. Altamiro, adorei a postagem. Sempre fico feliz em receber seus e-mails. É diferente de quando visito o blog.
    Tenho gostado das postagens das impressões indianos, mas as amazônicas me comovem mais.
    No mais, a vida segue.
    Fica com Deus e tudo de bom para os seus!

  2. Bom Dia Doc!
    Que belo relato pra se ler domingo de manhã…Lindas fotos! Vc ” atira” bem!
    Continue nos mostrando qta coisa boa vc faz por aí.
    Um abraço.
    Irene

  3. Eu gosto de água gelada. Mas o Wendell….
    Adorei a descrição do pium: demônio em forma de ponto. É uma praga mesmo!! Vou usar sua expressão sempre…

    Abração

  4. Gente simples… mas que o pouco se torna muito! Esses sorrisos de agradecimento dinheiro nenhum paga mesmo! Por isso nos encantamos com esse trabalho e com essa forma de agradecimento!
    Boas histórias! Belas fotos!

    Saudades de vc! Volte logo pra contar mais história pra gente!

    Beijos!

  5. Amigo querido,
    Viajar em suas história é realmente uma delícia! Saber que ainda existem seres humanos tão dignos quanto vc em meio a uma multidão de pessoas sem ideais e objetivos de vida, é uma dádiva de Deus! Vc realmente é um vocacionado à Medicina. Parabéns pela opção de vida!

  6. Altamiro,

    A-DO-REI as impressoes 71, mas tb gostei de ver c/ seus olhos a India. Eu ainda prefiro ler no e-mail ao inves de ir ao seu site.
    Ri muito e alto porq me identifiquei c/ qse tudo, sobre os nomes, agua gelada, PIUM…. Ah esta foi muito boa. Tenho horror a qquer coisa q pica e depois coça, eu acordo e não consigo dormir ate parar de coçar e tem gente que nem sente, como pode?

    So de pensar em Ilhabela eu ja sinto coceira.Tb não sao lembranças agradaveis, ou vc era picado ou ficava lambuzado de oleo de soja (acho q era, pois me sentia uma verdadeira batata frita- lembrança olfativa). Soh de ler eu lembrei o qto eh horrivel ser atacada por insetos picadores, me senti na sua pele.

  7. Faaaala Altamiro
    Como vc esta, cara, tudo bem?
    Seus textos sao muito bons, não so pelo tema, como pela sua forma leve se escrever.
    O que falta para sair o livro???
    Abraçäo

    Marcelo

  8. Obrigada Altamiro pelo envio do link.
    Vou até lá conferir. Tu sabes que curto à bessa tuas histórias.
    grande abraço pra ti, pra Lídia e pompon.
    Sds
    Delma

  9. Alta,
    Como sempre, excelente as “Impressões”. Só me faz voltar a insistir para você fazer o livro! A foto em close do indiozinho na cachoeira está sensacional.
    Parabéns!
    Dia 1 chego a Palmas, para iniciar a viagem ao Jalapão. Depois passo mais informações.
    Abraços,
    marco
    PS. Beijos na Lídia, Pon-Pon, Quézima e todos!

  10. Ola Altamirooo…adorooooo suas impressoes amazonicas, me divirto e me transporto!Mas esta em especial me deixou rindo sozinha em vários momentos, fui “obrigada” a repassar pras colegas da sala, pois ninguem tava entendendo nada..hihi!Saudades grandes de vcs..bjao

    PS: ta do outro lado de Roraima agora?Mudou de DSEI?

  11. Altamiro, gostei muito do “Impessões Amazônicas”, pode continuar enviando! Fiquei impressionada com o pium,não adianta repelente? Parabéns pelo seu trabalho.
    Telma

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