Impressões Amazônicas 61 – Waiwai

Os Waiwai são indígenas que habitam a região sul de Roraima, nordeste do Amazonas e oeste do Pará. Aqui são cerca de 600 indígenas espalhados por 8 aldeias que ficam as margens dos rios Anauá, Jatapu, Jatapuzinho e Cobra.

São bem diferentes dos demais povos da região, se destacando pelo porte atlético, pelo bom humor e pela receptividade. Dizem que sempre foi assim. Nos primeiros contatos com os missionários evangélicos houve uma grande aceitação da mensagem cristã e a conversão da totalidade da população. Os Waiwai na verdade não são um único povo, mas um amálgama de diferentes etnias com línguas próximas que se uniram por questões geográficas e culturais. Na aldeia Samaúma, por exemplo, metade da população é Xerew e a outra metade WaiWai. Quando pergunto eles me dizem que “É tudo Waiwai, mas antes era um monte de gente”. No passado algumas outras etnias próximas que viviam na região também se converteram e acabaram sendo incorporados aos Waiwai, assim estão associados os Xerew, Karapayana, Hixkarayana e Katuena. É mais ou menos assim: o filho de Pedro Karapayana e Matilde Karapayana pode se chamar André Waiwai. Não tente entender, é assim. E a incorporação continua, pois há vários indígenas de outras etnias que migram para estas terras férteis a margem de rios bastante piscosos – até porque a entrada de não indígenas é proibida. Encontrei Macuxi, Wapixana, Yekuana e até Xirixana, que são um sub-grupo Yanomami vivendo nas comunidades e completamente socializados.

ia61 (8) Eu na frente do “malocão” da comunidade Soma.

As comunidades são pequenas, a maior, chamada Jatapuzinho tem pouco menos de 300 moradores, todos falantes da língua materna, que faz parte do tronco lingüístico Karibe. As casas são em sua maioria de madeira, algumas de adobe. As aldeias sempre tem um grande malocão de reuniões, escola e igreja evangélica. A igreja é em quase todas aldeias ligada a MEVA (Missão Evangélica da Amazônia), sendo que há uma única comunidade ligada a Assembléia de Deus. Por influência das igrejas, não há mais pajé ou rezador nas comunidades e a prática de uso de medicações tradicionais está pouco a pouco se perdendo. As festas tradicionais já não existem, substituídas pelo Natal e Dia do Índio, quando em algumas poucas comunidades ainda são feitas danças antigas, pinturas e cânticos tradicionais. Esta mesma influência traz uma vantagem, pois os Waiwai não fumam e não bebem, o que é bem diferente das demais etnias de Roraima, onde é bastante alto o consumo do álcool, especialmente na forma de caxiri.

ia61 (9) Igreja da Comunidade Soma

BEIRA DO RIO JATAPU

Estou no local conhecido como “barranco”, margem do rio Jatapu. Aqui a gente pega o barco que nos leva as aldeias dos Waiwai. Ao menos a gente espera porque apesar de combinado estamos aqui há mais de duas horas. Ninguém nos avisou que hoje é dia de entrega do bolsa-família. Os indígenas estão na vila de Entre Rios, recebendo – e gastando – os únicos reais que recebem no mês. Aproveito para fotografar e me vem um pensamento mágico: estou em mais uma Amazônia. Mais uma, pois cada vez mais em minhas viagens tenho a certeza que não existe Amazônia, tal é a variedade de cenários, costumes, povos e relações com o ambiente.

Sou desperto destes pensamentos por um grito. “Eles estão atravessando!” Corro pra margem a tempo de ver a comitiva de bois que ultrapassamos na estrada cruzando o enorme rio. Cena impressionante que só imaginaria ver no pantanal, com todo gado, inclusive bezerros nadando indiferentes a correnteza e o cansaço da viagem já realizada. Como diz o poeta e cantor Eliakin Rufino “quem é filho do norte, é neto do nordeste”. Assim concluo que o amazônida é antes de tudo um forte. (Amazônida = morador da Amazônia)

ia61 (2)

Mas mais uma vez meus pensamentos não se concluem. Três caminhões me transportam a civilização. Dentro deles os Waiwai, carregados de compras. Não se escuta português e os ouvidos confirmam o que os traços de olhos puxados e poucos sorrisos sugerem, mas que as roupas tentam esconder, pois a seleção brasileira, Ben 10 e Batman estão na moda daqui também.

ia61 (3)

Dos caminhões desce gente, carotes de gasolina e gêneros de “primeira necessidade”: arroz, óleo, sal, bolacha e coca-cola. Barranco abaixo se acotovelam no embalo do rio as voadeiras de todos os tamanhos, inclusive canoas de madeira de tora única, tecnologia ancestral impulsionada por motor suzuki, tecnologia japonesa. (carote = galão)

ia61 13 Lado a lado as voadeiras metálicas e a feita de um tronco único de madeira se esbarram ao sabor do rio.

Nós vamos em uma destas canoas. Somos 440 litros de gasolina, 8 adultos, crianças, comida, compras. Em uma única tora. Devia ser uma árvore enorme. O rio é grande mas gentil quase o tempo todo. Quando não é não tenho tempo para me assustar, pois protejo meu equipamento da chuva e torço para as nuvens cinza não se tornarem rio justo em cima de nós. Volta o pensamento. Estou na Amazônia em um barco de madeira, penetrando em um mundo escondido e ao meu redor só vejo o verde. Acho que esperava este reencontro desde que deixei os Kaiapó.

10 09 Waiwai g jatapu funai (3)

POSTO DA FUNAI – Entroncamento dos rios Jatapu e Cobra. Terra Indígena Trombetas – Mapuera

Ficamos aqui esta noite e o barco, pesado e lento, segue para a aldeia Jatapuzinho sem nossa carga nas mais de 3 horas de subida do rio.

ia61 (5)

Aqui mora Antonio Oliveira Souza, indigenista da Funai, quase a vida toda entre os índios. Já esteve com o Waimiri Atroari e no Vale do Javari, onde passou seis anos em uma frente de contato com os terríveis Korubo, conhecidos como “caceteiros”. Está aqui há 7 anos. Sozinho. A casa ele construiu. No local não tinha nada. Hoje tem a casa. Só. Ou, com otimismo pouco mais: um rádio a luz solar, um mapa da região, fogão e panelas, a rede, uma cadeira, uma mesa e… uma máquina de escrever. Afinal, com ou sem energia há relatórios a serem gerados.

ia61 (11) Seu Antonio, da Funai, fazendo o que mais gosta!

Acabo de tomar meu banho – no rio. Ainda nem passei repelente, mas não sinto insetos. Os pássaros cantam, papagaios passam voando e seu Antonio foi pescar a janta. Começo a entender os sete anos dele por aqui. Mas será que não dava pra ter um banhelro? Chego então a uma dúvida vital. Como Adão e Eva viviam no Paraíso se lá não havia banheiro?

Noite

ia61 (12) Roberto e Seu Antonio, saindo para pescar.

Se o dia já estava bom, acabou melhor. Jantei peixe frito, saímos para pescar e ainda foquei jacaré. Só o olhinho brilhando. Acho que os meus também brilharam.

Altamiro

Anúncios

12 comentários em “Impressões Amazônicas 61 – Waiwai”

  1. Meu querido amigo,

    Me sinto muito bem quando vc manda notícias , e fico orgulhosa de ser
    sua amiga. Te acho um um pouco de tudo antes de ser médico ,
    aventureiro , escoteiro ,corajoso e ainda por cima inteligente!!!!
    Esse é meu amigo querido de longe , mas tão pr´oximo de nós.
    Deus te abençoe , sempre!!!
    bjusssss
    seus amigos de Nikiti e não esqueça da Pizza em São Francisco.
    Martha e Flavio

  2. Amigo Altamiro,
    Já lhe falei inúmeras vezes e não posso deixar de repetir.
    Viajar contigo em suas palavras é algo de extraordinário.
    Agradeço a oportunidade que me dás de conhecer, através dos teus olhos e palavras, estas paradas do Brasil que não conhecemos.
    Grande abraço!
    Ton Kramer

  3. Caro Altamiro,
    Quero agradecer a sua atenção ao incluir meu nome na lista dos que recebem as suas “Impressões Amazônicas”. O seu texto me recorda os escritos dos Villas Boas e do saudoso amigo Helmut Sick, ornitólogo que acompanhou uma boa parte da Expedição Xingu-Roncador na companhia daqueles sertanistas.
    Um abraço e muito sucesso.
    Ivan

  4. Você tá gordo, ou tá usando roupas largas?
    SE ENGORDOU, ME MANDE O SEGREDO!!!! Continuo pele e osso hahahahahahaha…
    Saudades, meu irmão!
    Dr. Renato Tessare Piccolo

  5. OI AMIGO QUERIDO, PARABÉNS PELO SEU NIVER ONTEM.
    SAIBA QUE EXISTEM POUCAS PESSOAS TÃO AMAVEIS E PRESTATIVOS, ASSIM COMO VC. QUE DEUS TE ABENÇOE MEU AMIGO, QUE MANTENHA ESSE DOM DE AJUDAR QUEM PRECISA. SEI QUE VC É UM POUCO ASSISTENTE SOCIAL.
    ABRAÇOS

  6. Olá Altamiro

    como é bom viajar com você pela Amazônia… que bom que você continua desbravando.

    Estive lendo sobre a criação de uma Secretaria especial no Ministério da Saúde para cuidar da saúde dos indígenas. Isso muda alguma coisa para você? Como está seu trabalho atualmente?

    Vocês não tem tido seca por aí? Temos visto imagens assustadoras de alguns rios da Amazônia, e notícias de uma seca muito rigorosa. Sei que estou falando de um ¨continente¨, mas tinha curiosidade de saber se pode ser tão diferente.

    Amigo, um grande abraço, e muito obrigado novamente pelo relato.
    um grande abraço,
    Regina

  7. Altamiro, como sempre é um grande prazer participar das suas impressões desta parte do nosso país que conheço tão pouco mas tenho o maior carinho e curiosidade.
    Abraço…………Cristina

  8. Sempre Alerta Grande Altamiro,
    Admiro bastante esse seu trabalho.
    Não há preço que pague a recompensa que tens com esse serviço….
    Favor, sempre que possível, envie mais notícias – e se possível com fotos, belas como sempre…
    Um forte abraço meu irmão.

  9. Tudo bem com voce Altamiro?
    Legal mesmo. Voce se lembrou de ver a questao dos indios isolados naquela regiao?
    Suas impressoes amazonicas vao virar livro. Muito bom.
    Abraços.
    Adnan Assad

  10. Caro Altamiro,
    Como sempre, sua narrativa tao autentica mais as fotos ilustrativas sao algo de fascinante para mim. Levam-me a descansar o corpo e a alma, imaginando-me
    numa regiao de tanta beleza e tanta paz. Lamento o detalhe da perda das tradicoes pelos indios que se vao “adaptando” a influencia do homem branco.
    Desde ja desejo-lhe e aos seus UM FELIZ NATAL E UM ABENCOADO 2011!
    Edmea

  11. Altamiro,

    valeu pela oportunidade de re-publicar seus relatos nO Aventureiro.
    Dia 27/12 começo a postar sua trilogia sobre os WaiWai. Os textos estão ótimos.
    Não sei se é um presente de Natal pra vc (pela re-publicação), pra mim (pelo privilégio de ler e publicar) ou para os leitores (que tem acesso a um material único!).
    De qualquer maneira, todo mundo sai ganhando, né?
    E onde é que vc passou o natal e reveion? Conta aí!
    Abração!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s