Impressões Amazônicas 52

Kriny – Novembro de 2006

Estou em Kriny, uma aldeia completamente diferente das demais. Aqui só se chega de carro, 240km percorridos em pouco mais de seis horas. Sim, eu disse SEIS horas. Buraco, lama e pontes que parecem ter saído do rally dos sertões. E na verdade são, pois esta estrada por alguns anos fez parte do percurso oficial do rally.

A aldeia segue a arquitetura tradicional com uma grande área central, palco das festas e danças e as casas ao redor. Por trás das casas: árvores e uma serra, estávamos no meio de um vale.

Embora seja uma aldeia grande, com cerca de 20 casas, é muito nova e há pouco mais de dois anos, não havia aqui nada além da floresta. Os índios cansaram da aldeia velha, chamada Koakrô, cerca de 4 km daqui e… cá estão. Simplesmente abandonaram a aldeia velha.

O posto de saúde é básico. Beeem básico mesmo. Mais fácil ver a foto do que descrever, mas vamos tentar: paredes de palha ou lona, teto de palha najá. Como nós estávamos em sete, imagine que mal cabia todo mundo. Não tem luz, não tem água. Aperta daqui, aperta dali e coubemos em uma cama, uma barraca e quatro redes.

Estamos na época da piracema e, exceto pelos pescadores tradicionais (subsistência), ninguém pode pescar. Mesmo assim três lanchas com cerca de dez pessoas estão lá na área indígena. Vão descer o rio “passando o rodo”, ou seja, acabando com os peixes do próximo ano… e tudo em troca de cem ou duzentos reais para um “agrado” as lideranças. Por mais que saibam das coisas, a noção de tempo deles não é como a nossa, e assim não conseguem visualizar o futuro.

Logo que escurece… hora de dormir, pois não há luz. O técnico de enfermagem liga um radinho, mas nem precisava. Os índios cantam, cantam, cantam… é bem bonito, mas tem a desvantagem de não ter botão para desligar.

E não desligam. Até bem tarde ouço cantos sem entender o significado. Saio da barraca e espio por uma fresta. Não vejo muita coisa, não há uma festa, mas grupos de pessoas cantando. Vencido pelo cansaço acabo voltando ao sono. Esta noite para piorar fez frio, talvez a noite mais fria que passei no Norte, usei até uma colcha. Ao acordar uma neblina envolve a aldeia e pouco a pouco os índios saem para pegar água no Riozinho, que passa bem ao lado das malocas. As crianças, como sempre peladas, de cueca ou calcinha, encolhidas de frio, mas sempre brincando.

Participei de minha primeira reunião na Casa do Guerreiro. A reunião se reveste de formalidade, havendo inclusive um mestre de cerimônias, que apresenta as pessoas e faz as traduções. Ele é o primeiro a falar, depois fala o cacique, as mulheres, alguns líderes e por fim nós. Depois de cada frase o tradutor passa a comunidade o que tentamos dizer, o que sempre é escutado com atenção e olhares de aprovação. Eles parecem realmente felizes com a nossa presença.

O agente de saúde fotografou para mim enquanto eu participava do protocolo. O Bajkare tem uma filmadora e pegou rapidamente o jeito, o que muito me surpreendeu. Com as crianças, o de sempre… elas amam ser fotografadas e fazem tudo para aparecer uma, duas, várias vezes. O mais engraçado são as meninas. Quando eu vou mostrando as fotos delas, elas riem, mas quando as fotos são dos outros ou da aldeia, expressam em coro… “aahhh!!!”, “aahhh!!!”, “aahhh!!!”… é muito engraçado.

Segunda noite em Kriny. Realmente não tem botão de desligar nos índios, e esta noite cantaram a noite inteira. Por volta das três da manhã resolveram dançar nas portas das casas, vestidos com uma roupa de palha de buriti. Assim tínhamos o canto, a batida dos pés e a palha sacudindo. Além disso, como estamos em um vale, tem eco o que aumenta a sonoridade… haja canto!! E sem o botão do desliga!!!

Pela manhã vejo as grandes máscaras de palha. que foram usadas na dança e aprendi que haviam dois dançarinos “profissionais”. Não há revezamento, eles dançam e cantam a noite toda.

Aldeia Kendjan

S 07º 15’ 58,3’’

W 50º 50’ 42,6’’

Mais uma vez voando, desta vez para a Aldeia Kendjan, a mais distante, já no município de Altamira (o maior município do Brasil e do mundo em área geográfica). No caminho, muita chuva e o avião sacode, sacode. Sempre fico admirado com a força da natureza, de uma beleza ímpar em sua força sem igual. Fico sossegado pela calma dos pilotos, afinal, em plena tempestade o piloto fica só controlando o GPS, sem nem segurar o manche. Todos fazem isso quando estamos mais preocupados. Sossego total.

Kendjan está em uma região linda, com uma linda pedra perto da pista. Para quem gosta de montanha, uma tentação para subir lá. Adoraria ter tempo para isso.

As crianças tem brinquedos de madeira interessantes, tudo feito pelas mãos hábeis de um pai ou avô. Já vi caminhõezinhos e hoje vi um mátko (avião) de brinquedo. Além dele os meninos vieram com arcos e flechas, empolgados, verdadeiros caçadores. Assim que se aprende. Há pouco tempo li que os Kanamary do Amazonas, que vivem dentro da Terra Indígena do Vale do Javari passam por um grande problema: tem caça farta mas não sabem mais usar arco e flecha. Como não tem dinheiro para comprar cartuchos de espingardas, este é um motivo de dificuldade alimentar, mesmo com tanta fartura ao redor.

O mais engraçado hoje foi um menino com um grande ursão de pelúcia. Era quase do tamanho da criança que sorria feliz. Enquanto ele era pesado e medido, o avô segurava o ursão com um carinho que deixava em dúvidas de quem era realmente o brinquedo

Outras brincadeiras que já encontrei por aqui são a cama de gato, aquele jogo de trançar fios em duplas, com as mãos, que se chama kadjót e a amarelona. Amarelona? Sim, é uma amarelinha com mais quadrados do que usamos, e que, entre as dificuldades estão andar entre os quadrados… de ponta-cabeça! Plantando bananeira!!!

Aldeia Pukararankre

Estou em Pukararankre, visitando a segunda aldeia em uma sequencia de três e estou muito feliz. Esta aldeia tem pouco contato com a população branca, fica a beira do Rio Xingu, e só se chega de barco ou avião. Logo no desembarque somos cercados por criancas que como formiguinhas levam todas nossas coisas, esperando como recompensa “caramera” ou seja, balas ou caramelos.

A tarde foi tudo que sonhava quando viajei para o norte. Atendia uma família com 6 criancas, todos pintados e enfeitados. Lá fora um arco-íris enfeitava o céu no encontro de céu cinza e luz do sol. Belo cenário para um encontro de duas culturas tão diversas. Palavras não são suficientes para descrever o que senti, mas espero que possam ter certeza de que, mesmo sabendo que estamos sempre com Deus, em certos momentos não temos dúvida de estarmos imersos em Sua Plenitude, imersos em Felicidade.

Sejam felizes amigos,

Altamiro

Fotos: 1 – Crianças brincando de “cama-de-gato” em Kendjan. 2 – Indio velho com o ursão. 3 – Pesca farta em Kendjan. Olha o tamanho do peixe. Engole um! 4 – Pedra de Kendjan. A gente chega de avião ao lado dela. 5 – Vista do posto de saúde de Pukararankre. Arco-íris e campo de futebol. 6 – Rio Xingu em Pukararankre 7 – Tijela com urucum pronto para a pintura. 8 – Tecnologia é isso. Furar semente na aldeia, apertando com o pé a furadeira. 9 – Curumim em Kriny. Pintado e enfeitado.

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19 opiniões sobre “Impressões Amazônicas 52”

  1. Caro Altamiro, gostei muito de ler a cronica que comeca com Kriny e admirar as fotos. So assim e que posso “visitar virtualmente” esta gente tao rica do nosso pais.
    Espero que me continue enviando suas cronicas.
    Obrigada,
    Edmea
    USA

  2. Hahaha… mesmo antigos os textos são atuais !
    Alguma notícia da trilogia Altamiresca que concorrerá com Harry POtter e O Senhor dos Anéis ?
    rsrsrs
    Abração,
    Jorge Pinheiro

  3. Fala meu amigo!
    Muitas fotos bacanas, um dia vc vai expô-las, não? Mas eu tenho algumas curiosidades sobre a Amazônia: como você vê a presença das ONGs por aí? Tem realmente muito gringo por aí, tipo é visível mesmo?
    Talvez minha pergunta seja meio idiota, afinal a Amazônia é enorme e vc está um uma parte dela, mas…como viaja bastante de uma aldeia a outra, talvez tenha esta visão…..
    SAPS
    Rodrigo

  4. Olá Irmão Altamiro…
    Que inveja tenho de suas aventuras pelo mundo, quase que inacreditável que ainda existe…
    Que invejatenho de suas admiraveis visões das paisagens mais inimagináveis mostradas em suas impressões;
    que inveja,
    Que inveja está que tenho mas não uma inveja de despreso de desgosto e sim de satisfação por ainda existirem pessoas como vc,
    Que nos dão inveja pela ajuda prestada a pessoas que deveriam nos dar inveja do jeito como vivem e nos mostram que ainda hj existem pessoas neste mundo que acima do Capitalismo tem amor a si próprias e aos de seu lado,
    que inveja
    de não poder estar ai do teu lado, fazendo minha parte…
    Forte Abraço Irmão Altamiro
    nos veremos logo…
    Eder Branchini

  5. Boa noite!
    Agradeço todos os e-mail que são encaminha sobre seus trabalhos e peregrinações…realmente acompanho seu trabalho e o adimiro muito por isso.
    Abraços e muito boa sorte!!!
    Que Deus te acompanhe sempre!

  6. Oi amigo,
    suas histórias são sempre ótimas, e dão muita saudade desta terra mágica e dos meus tempos de pediatra…
    Um grande abraço,
    Regina

  7. Olá, Altamiro

    Comecei a ler suas impressões agora e confesso que estou impressionado. Gostaria muito de trocar informações com você pois estou escrevendo um romance que se passa principalmente em Roraima, Missão Catrimani. Caso você possa me ajudar de alguma forma com informações detalhadas sobre a MIssão ou de suas experiências com os Yanomamis, eu ficaria imensamente grato.

    Aguardo um contato seu,

    Paulo Muniz

  8. Oi Altamiro, como sempre é muito interessante ler suas vivências cheias de vida e novas experiências.
    Demorei para responder pq estava fora do Rio. Não sei se vc conhece as Missões Jesuitas, estive em São Miguel e Santo Angelo ( Brasil), Santo Inacio e Santa Ana ( Argentina) e Trinidad e Jesus no Paraguai.
    Adorei, as ruinas são muito lindas e emocionantes mas dá muita pena ver os Guaranis, mãe e filhos pequenos sentados no chão com um pano cheio de pulseiras, colares… para vender.
    Pelo que soube eles tem uma ajuda do governo mas mesmo assim passam uma tristeza e falta de vida ( é o que senti).
    Visitei tb as cataratas do Iguaçu que é uma maravilha.Enfim foi uma viagem bonita e interessante.
    No Rio chove sem parar e estamos tendo o previlegio de uns dias mais friozinhos.
    Fique com Deus e com seu bonito trabalho.
    Cris

  9. Oi AMIGO

    Saudades de vcs!!!! andro pracisando falar com vc urgente!!!! por favor manda pra mim seus numeros de telefones, não tenho conseguido com niguém,manda forte abraço pra todos e fica com DEUS!!!!!!!!!!!!

  10. Oi Altamiro:

    Qnto tempo meu amigo, o que tens feito? Muita coisa com certeza. Suas fotos são explendidas. Por aqui tudo bem, fazendo o que sei fazer de melhor, trabalhar. Um forte abraço e que Deus seja contigo todo momento. Um abraço no coração.

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