Impressões Amazônicas 51

Aldeia Canauanin, etnia Wapichana. A aldeia é composta por casas simples, malocas, com cobertura de palha, que se situam ao redor de um grande campo de futebol, de terra batida. Ao fundo uma grande quadra, com piso ainda em construção, mas coberta e com direito a arquibancada e tudo. Hoje é dia de festa e a quadra está toda enfeitada com bolas azuis, vermelhas e brancas. A comunidade está toda presente nas suas melhores roupas. Parentes vem de aldeias distantes. A festa é aberta para não índios e os carros não param de chegar. Representantes da Universidade Federal de Roraima, inclusive o reitor, do MEC, da Secretaria Estadual de Educação estão presentes e ficarão até para a festa, regada a caxiri na big coke (o tradicional é o caxiri, bebida alcoólica servida na cuia, mas hoje em dia por questões de praticidade é servido em garrafas de refrigerante). Alguns bois foram abatidos, tem muito peixe, damurida, arroz e farinha para todos convidados.

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Está curioso para saber o que tanto se comemora? Pela primeira vez no Brasil acontece a formatura de uma turma de graduação composta exclusivamente por indígenas. O curso, Licenciatura Intercultural, ao longo de quatro anos formou 34 professores indígenas de seis etnias: Wapixana, Macuxi, Wai-Wai, Taurepang, Ye´kuana e Ingarikó, que colaram grau com habilitação em Ciências da Natureza, Ciências Sociais e Comunicação e Artes. O orgulho em cada um era tão evidente que se espalhava pelos demais. Anciãos com rosto vincado prestavam atenção com admiração, talvez sem entender a profundidade do momento, mas com a certeza de quem observa a chegada do novo.

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A oradora da turma, em português impecável, falou que as conquistas de hoje, não são feitas pela lança, mas pelos livros e o saber. As seis etnias apresentam características distintas. As línguas são tão diferentes que um não consegue compreender o outro em sua fala materna. Todos, porém, compreenderam ao longo do curso que somente juntos poderiam conquistar vitórias significativas, como a graduação. Foi aplaudida com entusiasmo. A emoção de todos era grande. Se toda formatura é a coroação de anos de luta, esta foi especial, pois sabemos da dedicação e das dificuldades dos indígenas, que fizeram a universidade e continuaram morando e trabalhando nas aldeias.

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Como diz a música, “tudo índio, tudo parente”, assim cada formando, mesmo das etnias visitantes, era ovacionado como se fosse velho conhecido, nascido naquela terra. O juramento foi feito em cada uma das seis línguas e em português, e todos, ainda que não compreendessem as demais, mantinham-se em silencioso respeito. As becas se misturavam aos símbolos indígenas, fundindo o tradicional ao recém-adquirido e bem vindo. Assim enfeites de pena se sobrepunham aos tradicionais chapéus e a faixa da beca era pintada com símbolos de cada etnia.

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Uma prova da modernidade incorporada era o grande número de fotógrafos. Câmaras, celulares, filmadoras: tudo para documentar o momento e depois levar de volta para a aldeia onde os professores lecionam. Tem gente que critica esta fusão, esquecendo que a cultura é sempre viva e nós somos provas evidente disso. A cada dia o novo é incorporado em nossa vida e aceito como o normal e até recomendável. Como podemos querer que isto seja diferente com os indígenas? O que é importante é a preservação da forma de pensar, que é única, e isto se mantém bem vivo. As relações sociais, a relação com a terra, com a vida e o mundo são diferentes para cada povo e isto sim, deve ser preservado. Mas para se preservar é preciso que cada povo indígena tenha condições de se desenvolver, ou seja, ter terra para gerar alimento e riqueza. Sem terra os indígenas passam apenas a formar a massa pobre da sociedade, vítima de preconceitos por serem miseráveis e diferentes. Aí sim, por necessidade, para se manter vivos, são obrigados a abrir mão do que lhes é mais caro, sua identidade.

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Que esta turma possa levar a boa nova aos nossos compatriotas e fortalecer nossa nação brasileira como justa e harmoniosa.

Rodeio em Lethem

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A música country de Willy Nelson toca nos alto-falantes enquanto passo por um cowboy – perneiras, lenço no pescoço, blusa quadriculada e chapéu de couro. Os cavalos estão em um pequeno cercado, agitados, por vezes brigando entre si, agressivos. A língua falada não é o caipirês de Barretos ou do interior paulista. Escuto inglês, mas não estou na América do Norte. Prestando mais atenção vejo que os cowboys estão descalços e tem traços que mais lembram indígenas do que yankees. A assistência reúne negros vestido como rappers, com cordões – e dentes – de ouro, mulheres com grandes chapéus, alguns branquelos, ao lado do qual me torno moreno (estes na verdade, devido ao sol incessante estão mais para flamingos, de tão rosados), mulheres de véu e homens com longas barbas, alguns vestindo túnicas. Traços, chineses, indianos, indígenas se misturam, se encontram e, por vezes, se fundem. Estou no maior rodeio da Guyana, o Rupununi Rodeo, que ocorre toda Páscoa em Lethem, cidade vizinha de Boa Vista. E embora estejamos somente a uma hora de viagem, não vemos brasileiros.

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De repente escuto um idioma estranho. Um vendedor vende chapéus: “uan tausan”, “faivi handre”, “bésti réti”. Escuto a ladainha e pergunto: “brazilian?”. “Do Ceará” ele responde. E descubro que, se não temos brasileiros na platéia – preconceituosos do país vizinho com hábitos distintos do nosso – temos brazucas no comércio, afinal, o dinheiro não tem preconceito com quem trabalha. O parque de diversões (se é que se pode chamar assim alguns carrosséis, um pula-pula e uma roda-gigante), a sorveteria, além da “chapelaria” do cearense são alguns dos empreendimentos de nossos patrícios.

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Puxo conversa com o simpático chapeleiro, chamado Carlos, feliz por poder falar um pouco mais de português. “Eu moro em Manaus, mas venho sempre para Boa Vista, e todo ano estou aqui no rodeio. É bom porque vem muita gente e é sempre tranqüilo. Nunca vi uma briga, não tem perigo de assalto. Bem diferente no que acontece nas festas do Brasil”. Pergunto pelo seu inglês. “Aprendi na marra. Quero dizer… não aprendi ainda, mas a gente fala e eles entendem. Mostro nota, faço com dedo”. É a criatividade brasileira falando alto e garantindo umas doletas guyanenses no bolso. Embora a nota seja bonita, cada dólar deles só vale cerca de dez centavos, e nada é muito caro por lá.

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Os cavalos me pareceram meio “xinfrins”. Magrelos, agitados, me parecia meio refugo de rodeio americano, até que descobri: são legítimos lavradeiros, os cavalos literalmente “selvagens” das Guyanas e Roraima, capturados exclusivamente para o rodeio. Por isso são bravos, irritadiços, pois não estão habituados ao laço e ao peso de um cavaleiro.

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A platéia gosta e quanto mais bravo o cavalo, mais o cavaleiro é aplaudido quando voa longe. De um lado da arena a platéia se espalha em uma pequena arquibancada ao lado de um camarote cujo nome mostra bem a mescla deste povo: Mohamed Khan Stand. Do outro, caminhões ingleses do tempo da colonização, que ainda rodam pelas estradas (?) empoeiradas da Guyana e com a suspensão muuuuito alta se tornam arquibancadas para quem não quer pagar ingresso. São muitos nestas condições, que simplesmente acampam em seus caminhões e nas enormes pick-ups e se divertem tanto quanto os que estão do lado “de dentro” do rodeio.

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Aliás, os caminhões e pick-ups guyanenses são uma atração a parte. São muito velhos, mas bem conservados. Acho que com meu carrinho modesto, era o único que não tinha potencia e motor 4×4 e me senti até como um dentista ao lembrar de um adesivo que vi muitas vezes em pick-ups no Brasil “quem gosta de motorzinho é dentista”.

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As atrações se alternavam e do lado de fora ainda acontecia corrida de speedway rural. Os cavaleiros, muitos deles adolescentes descalços, se empenhavam em vencer a prova, classificatória para a grande final. Como não havia pista claramente definida, haviam dois grandes desafios: ganhar e não atropelar a platéia, espalhada ao redor da pista. O vencedor era celebrado com palmas da torcida, eufórica.

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Mais uma vez, antes de viajar, me deparei com os amigos de nariz torcido: “a comida é ruim”, “eles são perigosos”. Muitos nunca haviam ouvido falar do rodeio. Mais uma vez comprovei que é pura balela. Ninguém nos acompanhou, mas nos divertimos bastante gastando pouco e ainda comemos MUITO bem em um restaurante chinês: arroz frito com camarão e frango, tomando refrigerante de banana e coca guyanense (mais doce que a nossa).

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Se quiser, já sabe, na próxima Páscoa já é meu convidado: Rodeio em Lethem. Pode vir que será bem vindo.

Altamiro

14 opiniões sobre “Impressões Amazônicas 51”

  1. Altamiro,

    Mais uma vez fiquei encantado e emocionado com a sua narrativa e as fotos que tem enviado aos amigos. Continue escrevendo assim e flagrando esta vida rica dos nossos indígenas e gente do interior deste Brasil; tenho certeza que estas narrativas e documentaçoes irao se transformar em um bom livro para aumentar o acervo de nossa história.

    Abraços

    Francisco Miranda

  2. Altamiro,

    Que bela experiência, não ? Eu fico impressionada com as coisas que você
    descobre por esse mundo de meu Deus.

    E o livro, vai ser lançado quando ? Pensa que esqueci ? Risos…

    Beijos

  3. oi altamiro,
    muito legais as fotos. parabens! e muito obrigado tambem pelos comentarios sobre o meu artigo na lista pinkaiti.
    entao voce esta gostando das coisas por ai?
    abracos,
    rodolfo

  4. Oi Altamiro, como gosto de suas histórias.!!
    Grande novidade em saber da formatura dos 34 índios como professores, espero que êles possam contribuir em suas comunidades e preservar suas identidades.
    O rodeio em Lethem muito divertido, enfim é maravilhoso viver tudo isso.
    Parabens pela vida tão rica e bonita que vc escolheu.
    Um abraço.
    Cris

  5. Chefe Altamiro,

    Cada vez que leio seus textos e relatos , mais admiro a sua pessoa.
    Sempre repasso para os amigos para conhecerem mais dessa cultura linda que o Brasil tem a fora…
    espero em breve estar com seu livro nas mãos…

    Que tal vc conseguir um patrocínio do Ministério da cultura? Seria viável para poder o maior número de pessoas terem acesso a essas riquezas…

    Espero vê-lo em Breve… Se vier a Brasília, avise tá?

    beijos

    servYr!!!

  6. Olá
    Altamiro
    Saudações!

    eu me orgulho de seu trabalho. proficuo, dedicado, letrado e bem intencionado; o mais importt: para o BEM DE TODOS. Parabéns… brasileiros, estamos contigo.

    para te ajudar, segue uma pequenissima observaçao do seu escorreito texto>> eh q maquina fotografica são cameras ; camaras sao entidd representativas do povo >>> talvez um erro de digitação… quiçá!

    M. Obrigado.’.

    Olair Rafael Eterno Aprendiz

  7. Oi Altamiro,

    é muito bom ouvir suas histórias, e dá sempre a sensação de ¨quero mais¨.
    Estava preocupada com a chuva por aí, mas o Brasil é tão grande, que não tenho certeza de que ela esteja sendo um problema para vocês, como no Pará ou na Maranhão.

    Quando é que você vem por aqui?
    Abraços,
    Regina

  8. Meus parabéns!
    Seu trabalho continua lindo e muito interessante.
    Leio todos os e-mail q vc me envia, acho q mesmo só tendo uma alma tão limpa quanto as dos indíos pra ver na simplicidade toda beleza da vida.
    Muito obrigada por compartilhar comigo tantas experiências.
    Abraços e mais uma vez, muito obrigada!

  9. Altamiro, primeiro parabens por suas belissimas ftos e seus textos maravilhosos…
    Somos privilegiados pois gostamos desta arte d guardar e registrar imagens q muitas delas nunca mais irao nos dar a graça…
    parabens!
    Venho lhe informar sobre o “concurso d ftografia 9 d julho”
    nao se vc está sabendo
    o tema é arquitetura d bv.
    um abraço grande amigo
    Sempre Alerta pra servir!

  10. Meu prezado Altamiro, é sempre um prazer de receber os seus e-mail como
    também uma forma de cultura diretamente brasileira.
    Um grande abraço e tudo de bom.
    Tarzan

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