Impressões Amazônicas 45

CD dos Macuxi

O que vou contar pode ser mais um exemplo de aculturação dos Macuxi, etnia predominante em Roraima e bastante mesclada à população não indígena. Apesar disso, pode ser encarado também como uma prova importante de resistência cultural aliada a capacidade de adaptação de um povo. No site da CIR, Conselho Indígena de Roraima, se encontra disponível a venda o CD Caxiri na Cuia – O Forró da Maloca, feito pelos indígenas da Terra Indígena Raposa Serra do Sol.

Se olharmos com preconceito, realmente isso mostra aculturação: “índio não dança forró”, ou, pior ainda… “índio não CANTA e COMPÕE forró”, ainda mais em português. Mas… se formos entender o contexto, vamos ver que é um exemplo de cultura – afinal, a cultura é dinâmica e não estática. De outra forma, não admiraríamos os cantores de Rock nacionais, não é mesmo?

Os indígenas absorveram o que está ao seu redor, o forró, e deram a ele um significado indígena com as letras que cantam. Vejam algumas letras:

Tem das que contam da vida local: “…tem capivara, jacaré na damorida, tem tapioca com vinho de buriti, vem festejar a vitória tão sofrida de bem com a vida tomando um bom caxiri…” (caxiri é bebida tradicional, feita com mandioca fermentada, damorida é um prato a base de pimenta – a receita pode ser encontrada no blog das IA)

E das engajadas: “Sou terra sou mata sou campo / Sou água de beber / Me usam, me queimam e me destroem / Chega de sofrer.”

Tudo bem que o som não é dos melhores, com aqueles sintetizadores típicos dos forró-brega do interior, mas vale pelo engajamento e pelo fato de nos lembrar que a cultura é viva e está em constante mutação.

A capa do CD já da bem idéia de como é o forró na maloca, não? Rasta pé dos bons, com muita poeira no ar? Vamos dançar?

TEPEQUEM – Com certeza você ainda não ouviu falar deste paraíso.

É assim… cada estado tem o seu paraíso. Normalmente uma pequena vila isolada, conhecida apenas por iniciados, muitas vezes por hippies ou esótericos, que deixam o lugar com uma mística ainda maior, antes de se tornarem famosas e serem invadidas por hordas de turistas. No Rio havia Lumiar e hoje há Sana. Para os mineiros São Tomé das Letras. Os baianos vão a Trancoso e Espelho. No Ceará, Jericoacoara. E em Roraima? Bem, em Roraima vai-se a Tepequem. Tepe o quê? Não, não é Tepe o quê, e sim Tepequem, uma pequena vila encravada no alto de uma montanha, já quase na Venezuela.

O caminho é bonito, subindo a serra pela Estrada Cênica do Tepequem, em fase final de construção, o que garante que, da mesma forma que em alguns dos outros paraísos descritos, a tranqüilidade está para acabar. O bom asfalto poderia fazer com que corrêssemos, não fosse a beleza do cenário ao redor e ao fato de que, de uma hora para outra surgem, não se sabe de onde, pontes de madeira, daquelas que se tremem todas quando passamos por cima.

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Lá no alto encontramos alguns barbudos com cara de que vivem em outro mundo. Diferente do que acontece em outros lugares, não são hippies, mas sim velhos garimpeiros, que insistem na busca do diamante que irá trazer a fortuna, ou, como é conhecido no meio, irá fazê-los bamburrar. E o povo é unânime: ainda há muito diamante por baixo da terra. O problema é que, como o que havia nos rios estava esgotado, o governo proibiu a exploração mecânica, tornando inviável a busca e fazendo as pessoas abandonarem o que eram antes vilas movimentadas. A Vila do Cabo Sobral, por exemplo, era um “movimento só”, segundo Seu Cândido, testemunha viva do que aconteceu por lá: “Foi o último lugar a diminuir o número de diamantes no rio. Havia muito comércio, e para controlar tudo foi construído um posto da polícia com cadeia e tudo”. Pergunto onde foi parar o dinheiro, e ele, que chegou a Roraima vindo do Paraná como soldado do Batalhão de Engenharia do Exército logo explica: “Uns morreram de tiro ou faca, outros bamburraram e ficaram em Boa Vista, mas muita gente perdeu tudo. Gastavam com bebedeira e com as mulheres, que vinham de todo país para ganhar seu dinheiro no garimpo”.

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Fomos a Vila conferir e encontramos alguns velhos garimpeiros. Um deles inclusive teve seus cinco minutos de fama e apareceu no Fantástico, por conta de um imenso buraco que abriu em sua própria sala, em busca da fortuna que ainda não chegou. Se o tesouro não vem dos diamantes, vem da natureza. O rio, já não explorado, corre da serra com águas sempre frescas e com a natureza rica ao redor. Grandes gaviões descansam nos galhos das árvores mais altas, enquanto araras voam nos céus, tingindo as encostas verdes dos morros com seu vermelho vibrante, e quebrando o silêncio da tarde com seu grito rouco.

IA 45 (1)  Casa de garimpeiro, na Vila do Cabo Sobral

Tepequém já tem algumas pousadas. Nenhuma parecendo ter saído das revistas de viagem que enchem os jornaleiros. São lugares rústicos, com água quente para contrabalançar as noites frescas , ventilador, cama e armador de rede. Energia só até meia-noite, de um gerador a diesel. Escolhemos a nossa pela localização, afinal não é sempre que se pode tomar o café da manhã de frente para um majestoso tepui, morada místicas de deuses indígenas como Makunaima, protetor dos Macuxi.

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A noite optamos por lanchar no Restaurante da Irmã Regina. Opções: o pastel mais famoso do Tepequem, coxinha, croquete e… “apolo”. Não resisti e perguntei o que era: ovo coberto. Vai um apolo aí?

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Ao lado da Irmã Regina há uma pousada. Ou um açougue. Ou os dois… É assim… de noite é fresco. Como não há câmara frigorífica, o boi é abatido e pendurado no final da tarde, aproveitando o refeitório vazio. A pessoa vai, escolhe o que quer, embala em um saco e leva para casa. Tudo bem simples, como vão testemunhar na foto. No dia seguinte, pela manhã, já está tudo bem limpinho, e você toma o café da manhã a vontade.

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A noite, estrelada é convidativa para uma caminhada, mas o cansaço é grande, pois passamos o dia andando, de cachoeira em cachoeira. São muitas, sendo a mais bonita localizada em um vale, a margem de um grande despenhadeiro. Lá do alto pode-se ver a cachoeira descendo montanha abaixo, rumo a mata. Aliás, embora estejamos em uma região de savana, não há dúvidas, continuamos em plena floresta amazônica, o verde domina o cenário e as chuvas alternam-se o tempo todo com o céu sempre azul.

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E assim nos despedimos deste cenário, viajando entre sol e chuva, passando por baixo do arco-íris que termina em uma casa simples na beira da estrada. Sem dúvida é lá que está o prometido tesouro, aquele que já foi descoberto em Tepequem: tranqüilidade e natureza, presentes de Deus.

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Fiquem com Ele,

Beijo no coração,

Altamiro

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5 opiniões sobre “Impressões Amazônicas 45”

  1. Nossa, Altamiro, preciso te dizer o quanto fiquei feliz por receber a IA 45 no meu e-mail!
    Mais uma aula sobre indígenas, Brasil e porque não dizer de música? Nunca tinha parado pra pensar na história de cantores de rock nacional… então, aula de aculturamento também!
    Adoro ter aula assim…
    Mais uma vez, PARBÉNS!!!
    Bjks

  2. Poxa Altamiro gostei muito do texto e deu até pra viajar junto com você rsrsrsrs e relaxar um pouquinho também…
    Um dos meus planos é ainda ver tudo isso e perto neste ano…
    Como te falei tenho um blog mais ainda não tive tempo de atualizar e quando vejo trabalhos como o seu, começo a me motivar e voltar ao hábito. Afinal de contas a tecnologia é hoje algo bom, mais que ao mesmo tempo nos faz apagar nossas lembranças. E nada melhor que registrar momentos bons como estes…
    Vou aproveitar e o seu blog aos meus colegas, será um incentivo muito grande a eles…
    Quando puder dá uma olhada lá no meu:
    http://www.wordpress.oscobaias.com
    Abraços!!!
    Wandilson Prata

  3. Sensacional!
    Na ponta do arco-íris encontra-se um tesouro! Foto maravilhosa!
    Uma pergunta: seria o “apolo” a famosa “coxinha de ovo”?
    Outra pergunta: numa linguagem índia bem adequada, nos saudaríamos com o
    “Sempre Alerta”?
    SAPS,
    Ricardo Coelho dos Santos

  4. Oi Meu Amigo Altamiro:
    Como vai vc e sua família? Esse País é lindo mesmo! Vc descobriu o fim ado arco iris ou o começo e não foi ver se o pote de ouro estava lá. É sempre um prazer ler suas impressões amazônicas. Gosto mais do que vc escreve do que das fotos, pois nem tudo o que vc escreve aparece nas fotos e a gente tem que imaginar. Um abraço em toda família. Fique com Deus e Nossa Senhora das Graças.

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