Impressões Amazônicas – 43

CONSULTA NA ALDEIA

As pessoas sempre me perguntam sobre como é minha rotina nas aldeias. Vou tentar explicar um pouco, lembrando sempre que as diferenças são muitas entre uma etnia e outro, entre um Distrito Indígena e outro. Embora eu trabalhe com índios que preservam bem sua cultura, são índios que também tem bom contato e aceitação da cultura ocidental. Os Kaiapó conseguem mesclar seus hábitos com os importados sem enxergar nisso uma contradição cultural.

Eu atendo 12 aldeias espalhadas por uma área do tamanho aproximado do Estado do Rio de Janeiro. A área Kaiapó na verdade compreende várias terras indígenas interligadas, que compreendem não apenas o Pará como também Mato Grosso, em uma área que é das maiores do mundo em termos de florestas preservadas, com tamanho aproximado de três Estados do Rio.

IA 43a Agente de saúde me ajudando nas traduções.

Em todas nossas aldeias eu chego de avião monomotor. Chegando nas aldeias o avião é sempre cercado por um sem fim de crianças, mulheres e jovens, curiosos, que querem saber quem vem, de onde vem, o que traz. Eu salto do avião e grito “Akati mex” (Bom dia!) e todo mundo responde e depois começo a ouvir pelas minhas costas “Dr. Tamira”, “Dr. Tamiri” ou algo semelhante.

07 01 KKK (75)

Me alojo nos postos de saúde e iniciamos a rotina de atendimento. Manhã: oito ás onze. Tarde: quatro até escurecer. Antes das quatro é difícil atender porque o sol é intenso e ninguém sai de casa.

Atendo a família junta. Mulher, às vezes o marido e os filhos pequenos, variando entre um a cinco. Me surpreendo várias vezes com avós que parecem irmãs de seus netos, ou no máximo mães, pois elas começam a ter filhos muito cedo. Acho que por isso também a estatura feminina é tão baixa. Enquanto há muitos homens de minha altura e maiores, a maioria das mulheres não chega nem no meu queixo. Depois que entra uma família, se há espaço na sala, devagar e discretamente vão entrando outras famílias. É assim: entra um idoso como quem não quer nada, depois o seu marido ou esposa, netos e… quando vejo já tem umas vinte pessoas no consultório (o recorde ainda foi de 35). Por trás de mim crianças se dependuram nas janelas, e novamente escuto… “Dr. Tamira” “Dr. Tamiri”.

As doenças como em todo consultório médico, se repetem. Crianças têm infecções de pele (muito), febre, dor de ouvido, bronquite (asma), diarréia, verminose, vômitos e… queixa universal, estão “iiiiiiiire! Kupran ket!” ou seja… “maaaaaagras! Não comem nada!”

Adultos tem dor nas costas e musculares de modo geral, problema de vesícula, gastrite, fraqueza. Os Kaiapó são hipocondríacos. Adoram vitamina, adoram pomadas e cremes, adoram xaropes. Mas usam tudo do jeito deles, independente da forma que eu prescreva.

Temos problemas com as gestantes. Tudo bem, concordo que gestação não é doença, mas… elas não está nem aí. É tão natural que não existem nem parteiras na comunidade. Uma faz o parto de outra sem estresse, como um procedimento normal, que de fato é. Eu já estive em aldeias várias vezes em que mulheres deram a luz e nunca fui nem chamado para assitir.

Aliás, se eles acham que o problema não é comigo, que é “doença de índio”, nem adianta eu chegar perto. Temos que respeitar a cultura, então nada mais posso fazer do que observar, e, caso perceba que o problema é grave, aconselhar. Recentemente precisei prescrever uma transfusão de sangue para um indiozinho e o pai não queria de jeito nenhum. Ele estava ruim. Para os colegas da saúde.. hemoglobina de 3,9g%. Para os de outras áreas… da cor de uma folha de papel. O pai só se convenceu após o pajé autorizar e dizer, ele também, que a criança estava bem ruim.

Aldeia Kikretum

Tem algumas coisas que não tem preço. Início de tarde na aldeia Kikretum e lá vou eu em direção a duas aldeias a beira do Rio Fresco, onde os indígenas plantam suas roças e aguardam a temporada de castanha.

CONVAR310 A gente vai assim… de voadeira pela corredeira.

Nas duas comunidades, Urubu e Arara eu fui fazer consultas e avaliação nutricional. Para isso levamos além do meu equipamento uma balança móvel e uma caixa de medicamentos.

CONVAR322 Técnica Da Paz e nossa farmacinha móvel.

A população adora o atendimento domiciliar e logo todo mundo cerca a gente para ser avaliado. O rosto das crianças, a senhora consultada com um periquito na mão, o jabuti “embalado para viagem” que nos acompanhou no barco, tudo isso me faz feliz pelo meu trabalho.

CONVAR344 Olha o jabuti embalado para viagem.

Eis que entre uma aldeia e outra o tempo muda e o sol se esconde por trás de nuvens de chuva que surgem rapidamente, lembrando que aqui ainda é sim, parte da Amazônia. Embora tudo fique subitamente escuro, enquanto o piloto acelera a voadeira ainda conseguimos ver uma família de capivaras saindo da água e um veadinho que foge ligeiro ao ouvir o ruído de nosso barco. Este é o tipo de coisa que não tem preço. Debaixo de chuva fiz o atendimento no Arara. Balança encostada ao pé de uma fogueira pesamos as crianças, gordas de tanto comer peixe e fruta, mas com uma barriga que mostrava que lá dentro tinha algo mais além de comida. E o chefe da comunidade, logo confirma: “Dotô, aqui todo mundo tem saúde. A única coisa que as criança precisa é “teprandjá kanê” (remédio de verme)”. Valeu a visita!

CONVAR323  Enfermeira Thatiane e os meninos todos enfeitados.

CONVAR402 Pesagem na aldeia.

CONVAR339  Beira do rio. Nossa voadeira lá embaixo.

 

Noite em Kikretum, hora de dormir. Chega um índio dizendo que sua avó estava passando muito mal e pedindo para irmos no Acampamento Arara, onde sua família cuidava da roça. Daqui p/ lá são 15 minutos de voadeira. Foi como um sonho. Noite muito estrelada, com um fiapo de lua crescente enfeitando o firmamento. Além de mim e da auxiliar, três indios viajando em silêncio. O grande rio Fresco, tributário do grandioso Xingu refletia o brilho dos céus em uma noite agradável. Ainda que eu soubesse estar trabalhando, nada tirava o encanto. Luzes ao longe, estávamos chegando. Luzes estranhas, não eram o que eu esperava. Em plena floresta a iluminaçâo mostrava o rosto de Fátima Bernardes no jornal nacional. É, já não se fazem mais acamamentos de índios como antigamente. A índia? Ficou melhor, mas sofreu bem com uma crise de vesícula.

Os problemas mais corriqueiros com os quais tenho que me deparar são as irritações de pele. Especialmente no verão, a incidência aumenta muito, e não consigo imaginar o que possa dar jeito. É um problema histórico, já relatado nas primeiras pesquisas sobre saúde Kayapó, da década de 70. Eu também, após poucos dias nas aldeias, também fico ruim… mesmo sem ser alérgico. Na época de chuvas há muitos puté iaká (carapanã/mosquito/pernilongo/muriçoca) e muuuuuito pium. Por mais que o organismo esteja habituado e a pessoa se proteja,um ou outro inseto consegue vencer ao mesmo temo nossas proteções e resistência e… coceira! Acho que tem inseto que usa máscara para passar por cima dos repelentes, e outros que usam broca para picar por cima da roupa. Assim logo temos a equação: Feridas = coceira + unhas sujas ou terra. Embora alguns falem mal dos hábitos de higiene, distintos dos nossos, o problema, na verdade está relacionado ao dia-a-dia. Casas sem piso, convívio com animais e pouca roupa, aliás, nos casos de criança pequena: nenhuma roupa. Impossível não haver coceira e feridas.

2007 03 Kikretum (14) IA 43b

Estas fotos são do Posto de Saúde de Kikretum. A farmácia e eu na cozinha, com minha barraca armada.

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10 opiniões sobre “Impressões Amazônicas – 43”

  1. Ai Altamiro,

    Cada vez que leio suas impressões quase choro de saudades, como já disse, viajo, de volta…..
    Mas é tão bom poder recordar! Grande abraço, continue nos enviando suas impressões, gosto muito, abração!

  2. Olá Altamiro (agora que nos conhecemos posso chamá-lo assim?). Estou saindo do Ministério, mas não gostaria de perder essas histórias fascinantes,
    Obrigada, um forte abraço,
    Patricia

  3. Tamirim,
    tá escrevendo cada vez melhor, hein!!!
    … mas faz uma revisão gramatical antes de mandar….
    beijao. To reenviando essas impressões pra um monte de gente.
    Y

  4. Altamiro, como vai?
    Prazer revê-lo nas fotos.
    Muito bom saber das suas impressões. Me transporto.
    Apesar das carapanãs é bom saber que tem alguém como você cuidando……. e contando…….
    De repente me veio um questionamento. Como o Dr Tamire é visto por eles? O que significa todo esta rotina, a medição, a consulta….o tratamento significados???……
    Quais as suas impressões?
    Abraços,
    Maria Lucia

  5. Caríssimo Altamiro,

    Maravilhoso, como sempre!

    Sobre as picadas de mosquitos, você já experimentou usar complexo vitamínico B?
    Pelo menos, afugenta os hematófagos (mosquitos e familiares e carrapatos e assemelhados – morcegos, não sei!) daqui do Espírito Santo e do Rio de Janeiro. Quem me chamou a atenção disso foi um médico escoteiro: Dr. Vander
    Pires.
    Um abraço e Sempre Alerta,
    Ricardo Coelho dos Santos

  6. Altamiro,

    É impressionante como você descreve muito bem a realidade Amazônica, em especial, a realidade indígena desta região.
    Bravo ! Bravo ! Bravo !
    Nossa ! Só falta lançar o seu livro, não ?

    Um forte abraço.

    Edna Dinelli

  7. Oi Altamiro, recebi esta impressão 43 que a Agueda me enviou, como sempre fico maravilhada com suas vivências com esta natureza tão deslumbrante e com a cultura e tipo de vida dos índios que me agradam tanto.
    Bj, muita saude e paz.
    Cris

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