Impressões Amazônicas 75

Abaixo de mim há apenas o verde. Verde. Verde. Tão intenso que custamos a perceber um discreto pontilhado amarelo ou grená aqui ou acolá. Diferente das serras para onde sempre viajo, hoje vou para as matas de Roraima, floresta amazônica, terra dos Yanomami. Vou a Auaris, por um motivo que com certeza muitos nunca imaginariam: fazer exames demissionais dos agentes indígenas de saúde, devido ao fim do contrato da ONG onde atuamos.
A mata aqui ainda é viva. Tão fechada que mal se vê rios de cima. Estou sobrevoando a Urihi – terra floresta mítica e sagrada.

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Este palco de sonhos, ainda preservado é alvo da cobiça de garimpeiros e políticos inescrupulosos, responsáveis por lançar ao mesmo tempo mercúrio nos rios e mentiras nos noticiários, envenenando peixes e pessoas. Esta região, onde a mata é viva é palco do único genocídio reconhecido pelo governo brasileiro, no final da década de noventa (ver link Haximu) e hoje é palco de um massacre silencioso e ignorado, verdadeiro etnocídio que não interessa ao Brasil mostrar ao mundo e nem mesmo ao Brasil.
Só para explicar: considera-se aceitável em uma população encontrarmos até 3% de crianças menores de cinco anos com peso baixo para idade. São as variedades individuais de tamanho. Desde que corretamente alimentados, não poderíamos encontrar nunca mais do que isso, independente se o pai é um descendente de gigantes noruegueses ou de portugueses baixinhos. Em algumas regiões temos documentados 50% de crianças com baixo peso. Com muito baixo peso, quando o esperado é 0,3% em algumas aldeias encontramos mais de 20%. E por isso morrem como passarinhos quando conseguem chegar ao hospital. São pouco mais do que pele sobre os ossos: um ano, 3kg, dois anos 5 kg, cinco anos 8 a 9 kg. Não são poucos assim. Vivemos aqui no cotidiano o que os miseráveis mais miseráveis que só conhecemos nas imagens-catástrofe de Biafra e da Etiópia. Revivemos o homem-gabiru. Aqui é o homem-chibé* , o homem-fome redivivo, mesmo morando no meio da mata. Mas não interessa contar esta história. É muito triste, as crianças não podem ver, os políticos não querem acreditar e todos fingem ignorar. Quando todos morrerem o problema estará resolvido: a mata estará salva – preservada para o garimpo e a extração de minério. E eu tenho provas documentadas de tudo isso: fotos e trabalhos publicados. Desculpem se incomodei vocês.

* Chibé = Prato típico da culinária amazônica. É uma bebida feita a base de farinha de mandioca e água.

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Em Auaris vivem Sanumá e Ye’kuana. Embora vizinhos antigos são de grupos lingüísticos diferentes, os primeiros um sub-grupo Yanomami e os segundos parentes distantes dos Macuxi, Waiwai e Ingaricó, falando todos línguas do tronco Karib. Hoje os novos vizinhos são o exército, que tem ali um pelotão de fronteira com vários soldados e até médico. O posto de saúde é bem estruturado e conta até com o que chamam de “hospital”, uma grande maloca coberta onde ficam várias redes com os pacientes doentes. Isso porque muitas vezes é difícil tratá-los em suas malocas, que distam horas de caminhada de Auaris. Todo este movimento espanta caça e prejudica a floresta. O povo que era nômade, hoje se sedentariza explorando a mata. Fixa raízes e derruba os troncos da mata.

IMG_0229  “Hospital”

IMG_0246  Pelotão de Fronteira

Examino os agentes de saúde, preparo as rescisões e agora é hora de ir, não sem antes provar a hospitalidade da equipe do posto que preparou um almoço caprichado. Enquanto almoçamos um papagaio voa sobre nossas cabeças e um casal de araras-azuis cruza o céu. Perco o número de vezes que penso na minha câmara que está no conserto.

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Voamos para Holomai, aldeia na margem do rio Auaris para mais rescisões. Viramos atração turística e todos nos cercam – homens, mulheres e crianças. É diferente de outros lugares onde estive. Ninguém fala nada, não perguntam, não sorriem. Apenas vem e olham. As meninas enfeitadas com colares e pulseiras de miçangas coloridas, alguns com os rostos discretamente pintados com linhas vermelhas. Pernas magras, barrigas inchadas, seios expostos, dedos pretos – sem unhas, olhos claros, miçangas. A visão provoca a dolorosa mistura de encanto e medo. Um desafio para quem trabalha aqui.

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Começa a chover e o piloto pede que nos apressemos. As nuvens de chuva e o vento sacodem o avião enquanto sobrevoamos cachoeiras. O vôo é baixo, pouco acima da copa das árvores, perfeito para fotografar e novamente me lembro da câmara. A chuva aperta quando vemos a pista, mas o vento sacudindo o avião faz o piloto mudar o rumo. Acho que ele vai contornar a chuva. Sem condições, voltamos para Holomai.

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Esperamos no posto de saúde. Mulheres catam piolhos e crianças, curiosas, ficam nos olhando. Encaram de perto. Somos o exótico. Se tivessem câmaras com certeza estariam nos fotografando. Queria ficar mais, ver mais, saber mais, sentir mais. Fico com o gosto do pouco que tive quando saímos correndo sob a chuva fina e voamos, decolando sobre o rio, em meio as arvores. Decolamos mas o tempo esgotou. Não vamos poder voltar para Boa Vista.

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IMG_0332  A maloca é linda.

Pousamos em Tucuxi, fazemos mais rescisões e seguimos rumo a Boa Vista.

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No meio do caminho pousamos em Palimi-u, não há mais tempo para voar até a cidade. Mais uma vez somos muito bem recebidos pela equipe do posto, situado em um local lindo, margem do rio Uraricuera. Próximo ao posto há a sede de uma missão. O local é bonito e limpo, mas no meio da mata. Chegamos a sobrevoar a pista sem enxergá-la. As crianças são gordinhas. Difícil entender tanta diferença. A missão construiu uma escola e grandes casas de madeira. Rústicas mas resistentes. Parecem confortáveis.

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A missão em Pallimi-ú é linda!

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Crianças em Palimi-ú

Não vim para dormir. Não tenho rede, barraca, muda de roupa. Trouxe somente pasta, escova de dentes e o computador. Me emprestam uma rede. Um bom banho, um bom jantar e cá estou eu escrevendo, tentando contar com palavras o que vejo. Percebo como sou pequeno comparado ao senhor vento e a senhora chuva. Por outro lado, quando recebo a solidariedade de amigos – que acabei de fazer – me percebo forte. Tudo posso. Ainda que tenha que esperar um pouco para conseguir. Hora de dormir. Agradeço a Deus pelo dia enquanto escuto o canto dos grilos.

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Madrugada

Chaparral acorda antes do dia. Quatro da manhã o posto já está agitado. As cinco e quinze o motor ronca, chamando os pacientes que nos acompanham: um rapaz que lacerou o olho e um bebê que nasceu com malformação. Todos já deveriam estar na cidade desde ontem. Agora pelo menos chegaremos o mais cedo possível. Quando o sol começa a despertar a canção que ouvimos é somente a voz áspera do motor. Logo voamos sobre a floresta, que pouco a pouco despe seu pijama de nuvens e acorda para um novo dia.

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A floresta ainda vestida com seu pijama de nuvens.

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5 comentários em “Impressões Amazônicas 75”

  1. Tudo bem ? E a família ? Pô cara estou sempre lendo suas passagens pelas impressões Amazônicas , quando lançar o livro me avisa para eu comprar uma edição……

    Fica com Deus um grande e um aperto de canhota ….

    Sempre Alerta.

    Flavio Madureira

  2. Olá quanto tempo.vc ainda estar fazendo a obra que agrada DEUS esso é
    ótimo que DEUS te abençoe, eu estou na reta final ano que vem termino
    graça a DEUS um grande abraço

  3. Altamiro,
    A experiência indigenista que vc está tendo é inenarrável !
    O crescimento espiritual advindo de suas vivências entre os povos da floresta é única e está abrindo novos horizontes internos para buscas ainda maiores dentro do espaço da eternidade .
    Um fraterno abraço,
    do amigo,
    INACIO
    Obs.:
    ( Já fiz o projeto Rondon e tenho uma pequena noção das suas dificuldades )

  4. Olá Dr. Altamiro, fiquei sabendo de você quando encontrei com a Alzira e do novo integrante da família fiquei muito feliz …..
    Você também tem uma grande fã que é a Andreza ela que me passou este seu depoimento achei muito GRANDIOSO
    Muitas felicidades e que Deus te ilumine.

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