Mind Austrália 4: Melbourne parece o Rio?

Melbourne não parece ser australiana. Não é como Sydney ou Canberra, nem como as cidades e os vilarejos às margens da estrada de ferro que liga Canberra a Melbourne, ou como as pequenas cidades da Costa Sul. Os edifícios são altos, ou melhor, parecem ser altos. As ruas têm um asfalto escuro e a cidade não tem a luz de Sydney, nem o céu de Canberra. Em alguns momentos pensei estar no Rio ou em São Paulo, numa daquelas ruas do centro. Melbourne lembra uma cidade latina, tem aquele ar meio relaxado, é meio improvisada, meio gasta, meio envelhecida. A planta xadrez não traz as surpresas das ruas de Sydney, em Melbourne elas se cruzam monotonamente. Não é suja, nem descuidada, mas a arquitetura não é tão cuidadosa, alguns edifícios revelam alguma obviedade e a repetição é comum, mas há bons exemplos e algumas soluções um tanto surrealistas.

Na reforma do porto é que a cidade revela-se um pouco mais australiana, o complexo de lazer, segue o gosto pelas compras com um shopping a céu aberto e muitas lojas de fast food (comida e compras, as paixões australianas). Tenho minhas dúvidas se será um bom lugar para compras, o vento do mar em janeiro, no alto verão australiano, soprava forte e frio. Imagino o quão desconfortável será no inverno. De resto, a cidade é australiana: tem um sistema de transporte impecável, um eficiente sistema de tratamento de água e esgoto cujo ponto alto é reaproveitamento de um significativo volume da água.

Arquitetura Arquitetura  Reforma do Porto Porto Reformado

Melbourne tem lá suas peculiaridades, embora se situe como Sydney, a volta de uma baia, não parece ser uma cidade litorânea, tem um jeito interiorano e é, pelo menos na aparência de seus moradores, a cidade mais asiática da Austrália. Na rua os rostos são: chineses, coreanos, vietnamitas, indianos (das diversas castas), paquistaneses etc. Arriscando uma porcentagem diria que a relação é hoje de 45% de tipos ocidentais para 55% asiáticos.

Não falo de naturalidade, mas quase 2/3 dos rostos australianos tem traços asiáticos. Os indianos e paquistaneses são mais recentes, muitos ainda usam os trajes nativos. A alguns me apontaram como xiitas, mas não vi nada de diferente entre os outros tantos, que usavam o mesmo traje: turbante, uma bata sob um colete colorido, calças amplas nos quadris e justas nas panturrilhas, sapatos com bicos voltados para os altos e barbas. Lembraram-me as histórias de Malba Tahan.

Melbourne é um “melting pot”, onde se amolgam raças, culturas, costumes e tempos. A cada rua você cruza com uma cultura diferente, às vezes mais de uma. Lojas, mercearias e restaurantes típicos de cada nacionalidade, às vezes beligerantes em suas origens, são vizinhos amigáveis numa proximidade impensável. Chineses e japoneses, gregos e turcos, indianos e paquistaneses, formam geografia determinada unicamente pela imigração, pelo mesmo ponto de partida: a conquista de uma nova vida. Diferenças ancestrais são esquecidas, questões culturais desaparecem e até as guerras, ditas santas, são arrefecidas. A conquista de uma nova vida dissolve as lutas comunitárias e oferece, em seu lugar, uma posição igualitária que aparentemente supera todos os antagonismos culturais e comunitários. É uma nova história que começa para cada família.

Mas o sentimento de pertencimento, de nacionalidade não desaparece e muitos guardam no olhar uma melancolia quase imperceptível – a tristeza do exílio-, às vezes amenizada pelo prazer de ouvir e falar a língua natal, por festejar as datas pátrias ou por encontros com conterrâneos. Participamos de um encontro desse tipo: a Feijoada da Edna.

Edna nasceu na Rocinha, sua mãe, solteira, morreu no parto. Aos 15 anos o casamento arranjado por uma tia livrou-a do orfanato e arranjou-lhe um marido 25 anos mais velho. Aos 16 nasceu sua filha e um ano depois seu filho. Aos 20 separou-se e passou enfrentar a vida sozinha sustentando os dois filhos. Como camareira do Copacabana Palace conheceu um químico australiano, que supervisionava a implantação de uma fábrica de tintas na periferia do Rio de Janeiro. A paixão ardente, própria dos verões cariocas, esgotou-se no desenlace do casamento 10 anos depois em Melbourne. Não estava sozinha, nem pobre, o casamento deixou-lhe duas casas e trouxe para a Austrália os dois filhos, uma neta e um genro.

Edna e Cinthia  Edna e Cinthia

Nos primeiros anos de Austrália, montara um restaurante com relativo sucesso. Servia comida brasileira. Aos domingos, com os ingredientes que conseguia, improvisava uma feijoada bastante próxima da feijoada tradicional, capaz de arrefecer a saudade dos brasileiros “desterrados”. A feijoada virou sucesso na colônia brasileira e anos depois quando resolveu fechar o restaurante, manteve a feijoada a cada 15 dias (no domingo) na sua bem montada casa nos subúrbio de Melbourne.

Casa da Edna (28)  Casa da Edna

Assim no primeiro domingo de janeiro seguimos para casa da Edna. A possibilidade de uma refeição à brasileira, depois de 15 dias longe do Brasil nos deixava ansiosos. Rodamos de VLT (Veículo Leve sobre Trilhos, um descendente sofisticado do bonde) até a estação central. De trem, seguimos para Sunshine, um subúrbio de classe média. Uma hora e tanto depois, chegamos a acanhada estação de Sunshine. Na praça, em frente à estação, dois motoristas dormitavam o principio de tarde, em seus táxis, interrompemos os cochilos e seguimos para casa da Edna. Vinte minutos depois estávamos diante de uma bela casa de classe média australiana.

A feijoada não era e nem podia ser o ponto alto do programa, faltava-lhe alguns dos ingredientes fundamentais: as partes do porco, a nossa indefectível carne-seca e o paio, mas havia um feijão preto bem temperado com louro e couve mineira. A couve, prato raríssimo na Austrália estava soberba. Suas sementes, soube depois, foram contrabandeadas pela Edna diretamente da Rocinha. Vieram espalhadas na mala, entre suas roupas e a eficiente inspeção sanitária australiana não conseguiu detectar.

Valeu mesmo o encontro com os brasileiros. Além do nosso grupo três famílias, se acomodavam na ampla sala da casa da Edna: Moacyr e esposa, Arnaldo e Constantina com a filha; a Cíntia sem o esposo neozelandês e o irmão do genro da Edna.

Como em um bom ajantarado de domingo, todos falavam alto e ao mesmo tempo, com intimidade. Parecia até que todos os domingos nos encontrávamos para almoçar. Desfiamos nossas histórias: contamos as peripécias da nossa primeira viagem à Austrália; Moacyr, com um claudicante português – errava nos gêneros e na acentuação tônica das palavras – parecia um australiano tentando falar português. Contou-nos como chegara 11 anos antes na Austrália e a luta para trazer o resto da família um ano depois. Nostálgico disse que nunca mais voltara ao Brasil e que a saudade incomodava. A segunda família: Arnaldo militar da Aeronáutica aposentado, e Constantina psicóloga. Chegaram à Austrália há 15 anos, idade da filha que os acompanhava, uma adolescente fluente em português, sem sotaque e no inglês dos australianos.

Transferiram-se de Uberlândia com os dois filhos, depois da reforma do Arnaldo. A descoberta da origem logo estabeleceu uma ligação entre nós: a família que nos acompanhava também era de Uberlândia e logo descobriu-se uma amiga comum entre as famílias. Daí por diante foi desfiar de lembranças e de pessoas, famílias e lugares.

A terceira família no bate papo era a da Cíntia. Aliás, nem era família quando chegou para aprender inglês. Tratava-se de jovem paulista, recém formada, em busca de um segundo idioma para melhorar a sua posição no competitivo mercado de trabalho de São Paulo. Os quatro meses do curso transformaram-se em quatro anos. Agora é mestranda na área de Recursos Humanos e tem um marido neozelandês.

Depois de histórias e muitas gargalhadas, Edna e Cristina nos levaram até a estação de trens de Sunshine e voltamos para Melbourne.

Sunshine Sunshine

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