Mind Australia: Ainda em Melbourne

texto do meu amigo Cícero Linhares, arquiteto de Brasília.

A estrada que serpenteia a costa sul australiana, subindo pelo lado leste em direção ao norte espelha, em um dos seus trechos, o respeito dos aussis[i] por sua história. Um portal e um monumento em bronze e pedra homenageiam os militares que, após a 1ª Guerra Mundial, escavaram na rocha dura e numa costa escarpada a aquela estrada. A construção da Great Ocean Road, este é o nome da estrada, fazia parte da estratégia que a Austrália desenvolveu para reincorporar seus veteranos de guerra à vida civil. Sua construção envolveu cerca de 3000 veteranos e a estrada foi construída em homenagem aqueles que tombaram em todas as guerras que a Austrália esteve envolvida, como aliada da Inglaterra. Só na 1a Guerra Mundial a Austrália enviou cerca de 330 mil voluntários para Europa. A construção da estrada matava dois coelhos, com um só tiro: garantia empregos aos veteranos de guerra e homenageava os australianos que haviam tombado em tantos campos de batalha.

Foto 1 Ocean Road

Antes das 8 já estávamos a caminho da Great Ocean Road, seguíamos num microônibus em direção aos “Doze Apóstolos”. Todos os lugares estavam ocupados por turistas, muitos australianos, alguns sul-americanos, inclusive nós e um casal de inglês, belos e jovens, que não mereceriam nenhum destaque não fosse pelo que emanavam: aquele lendário cheiro comum aos europeus pouco afeitos ao banho diário. A viagem começava com aquele cheiro de sebo podre misturado à catinga de pano úmido. Tratamos de escancarar as janelas, em busca de ar mais sadio.

A estrada, construída entre montanhas e falésias, oferece paisagens maravilhosas: belas e dramáticas. O mar bate com força nas falésias formando uma larga faixa de espuma branca contra o azul marinho do Pacífico e quando a costa permite a existência de praia há sempre surfistas em roupas de neoprene, equilibrando-se em ondas altas e rápidas. De frente para o mar, do outro lado da estrada, pequenos povoados, organizados, limpos, pareciam ser montados cuidadosamente para os olhos dos turistas. Casas brancas, com amplas vidraças voltadas para o mar e para sol, marcam as encostas: todas produtos de intenções arquitetônicas.

Depois de quase 4 horas de viagem chegamos ao Parque Nacional Port Campbell, onde estão localizados “os Doze Apóstolos”

Os “Doze Apóstolos” são formações rochosas que o mar esculpe ao longo da costa. São torres de calcário, algumas com 50 metros de altura moldadas pelas ondas e pelo do vento.

foto 2 torre

São o principal passeio turístico do Estado de Vitória. Ficam a 188 km de Melbourne. Quando descobertas, pelos primeiros navegantes que se aproximavam da Austrália pela costa leste, eram doze torres majestosas. Hoje são oito, a piada entre os australianos é que os apóstolos devem ser visitados antes de se transformarem nos “Quatro Evangelistas”.

foto 3 apóstolos foto 4  torres caidas

Voltamos no final da tarde e escurecia quando chegamos ao hotel. Um banho rápido e lá fomos nós para um restaurante grego. O restaurante estava cheio, esperamos alguns minutos até que o proprietário nos conduzisse à mesa. Já nos passos em direção à mesa ele descobriu que entre nós havia um conterrâneo seu. Logo se estabeleceu um nível extra de simpatia e diante de uma bela  salada com fetta regada a um vigoroso vinho grego,  as conversas em grego se iniciaram, evidentemente traduzida para o português. Foram várias. A cada solicitação de outros clientes o nosso anfitrião, interrompia e voltava num outro ponto, numa outra conversa, mas não havia qualquer incomodo com as interrupções. Ele não deixava idéias penduradas com uma frase arrematava a conversa e seguia célere para a mesa que solicitava a sua presença. Em alguns minutos voltava e uma nova conversa se iniciava totalmente diferente da anterior, mas nem por isso menos interessante.

Uma conversa entre dois gregos é algo marcante: primeiro tem-se a impressão que brigam, falam alto e a gesticulação é quase frenética; depois se percebe que há uma ironia sutil que cada interlocutor destina ao seu oponente. Não parece intencional é antes uma entonação, um jeito de falar, mas além da palavra articulada, conta a fisionomia: um meio sorriso e o rosto voltado um pouco para o lado. O modo como falam os gregos não é muito diferente dos italianos, seu herdeiros, nem dos turcos, vizinhos indesejáveis. Entre nós latinos, o espanhol dos argentinos é um belo exemplo dessa entonação, desse modo de falar.

Mas as conversas eram mais interessantes. Reconheceram-se na Grécia de cada um: o meu amigo filho de um casal de emigrantes que, para poderem viver o amor que os uniu vieram para o Brasil  “fazer a América”. O nosso anfitrião havia deixado a Grécia para “fazer a Austrália” e 20 anos depois, com família e um restaurante ainda sentia saudades, tinha o coração divido. – “Se na Copa do Mundo a Austrália e Grécia se enfrentarem, me escondo. Não quero saber de nada até o jogo acabar, se algum deles for vencedor me entristeço pelo perdedor”.

Mas depois de muita conversa, de tradução (de tempos em tempos o meu amigo traduzia o diálogo do grego para o português e vice versa) e ressaltada enfaticamente a contribuição grega para a formação do pensamento ocidental. Tudo isso regado a taças de vinho grego, o dono do DION (diminutivo ou abreviatura de Dionisius) nos brindou com a seguinte lenda:

Num tempo antigo, bem antes das cidades-estados surgirem, tempo em que o povo grego vivia ainda em pequenas aldeias, havia um mosteiro situado numa região distante e de difícil acesso. Os religiosos desse mosteiro não mantinham qualquer contato com o mundo exterior, mas todos os anos o prior convocava os lideres das aldeias e entregava a cada, um conjunto de leis que deveriam ser cumpridas no ano seguinte. Em troca os chefes das aldeias traziam um prato de comida, feito pelas melhores cozinheiras da aldeia. A entrega era feita através de uma grande mesa. Os aldeões entravam colocavam o prato que haviam preparado sobre a mesa e saiam. Os monges entravam na sala iniciavam o banquete e a cada iguaria saboreada quebravam o prato, para que nenhuma comida menos perfeita pudesse manchar o apogeu daquele prato.

Mas os monges não saboreavam todas as comidas, os pratos enviados pelas aldeias que não haviam cumprido as leis, não eram tocados. Eram devolvidos. A aldeia deveria empenhar-se na obediência e aplicação das leis estabelecidas no ano anterior e, ao final do período, os aldeões preparariam o mesmo prato e voltariam para o julgamento do Mosteiro.

Assim, segundo o nosso anfitrião, os pratos quebrados ao final de um evento festivo grego, passaram simbolizar a alegria da missão cumprida e o reconhecimento da perfeição com que a missão foi comprida.

Nos despedimos logo depois da narrativa . No dia seguinte levantamos cedo e seguimos para Sydney, onde assistiríamos a queima de fogos na Baia de Sydney, na passagem do Ano Novo de 2009.


[i] Apelido assumido pelos australianos para se auto-designarem.

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