… dos amigos: Notas Pantaneiras 2

Escrito por Luiz Claudio

Outro clichê literário que reboja aqui é a sabedoria do caboclo, do rústico homem do interior, cantada em prosa e verso e considerada infalível. Já fui muito embasbacado sobre como os locais conseguem ler o rio, o vento, o vôo das aves. Hoje é uma fascinação mais pé-no-chão.

Primeiro porque, no fundo, é o tipo de saber que quase todos os homens usam em relação a seus habitats. É o mesmo raciocínio, por exemplo, que nos faz, os cariocas, olhar o céu de sábado à noite e concluir “amanhã vai dar praia”;

Segundo porque é uma questão de sobrevivência. Decifrar os bojos, tons dos cantos das aves, as sutilezas das aragens, os tons do inefável pôr-do-sol, as idiossincrasias desse colossal bioma líquido significam também para eles o jantar de hoje, a comida da famíla;

Terceiro porque falta conceitualização precisa, é tudo bastante vago. Faça um teste: se você perguntar a 10 pessoas daqui o nome de uma árvore rara, vai ter umas 7 respostas diferentes e dessas umas 5 estarão certas ( a sinonímia é grande);

E quarto porque às vezes as relações entre os fatos são confundidas. Ontem, enquanto continuávamos nossa pouco frutífera pescaria de pacus, ouvimos o ronco agressivo do ritual de acasalamento dos macacos bugios cortando a calma da floresta à tarde. Nosso guia disse “Amanhã o vento vai virar, não vai ser mais o sul”

Olhei em volta: céu, água, vento, tudo igual ( para mim) ao dia anterior. Perguntei:

— Como é que você sabe?

— È que os macacos estão fodendo.

E riu. Achei que estava de brincanagem com a gente, mas depois vi melhor que havia 3 hipóteses: ou ele *queria* que esse maldito vento sul acabasse logo, ou *sentia* que isso ia acontecer ou, o mais lógico, o vento vai virar pela chegada da primavera, que é também a época de reprodução dos bugios. Assim, ele via que x tinha relação com y, talvez de causa-e-efeito, quando na verdade a causa é um outro elemento z.

Mesmo assim ainda respeito e admiro esse saber passado oralmente de geração a geração desde tempos esquecidos. E fico tentando entender os rios, as mudanças de cor e velocidade, os vários sub-rios dentro deles e de mim, mas não é uma coisa que minha lógica urbanóide vai pegar facilmente…

Aliás, hoje amanheceu sem vento. Parece que vai vir o norte. O macaco ta certo? 

 

Porto Murtinho tem mais ou menos 12 mil habitantes. Apesar do destacamento militar e do porto de exportação agrícola, a maior parte do povo depende do turismo pesqueiro e desaparece de novembro a março pelo defeso, proibição da pesca devido à piracema, a subida dos peixes às cabeceiras dos cursos d’água para reprodução e desova

Do centro, passa-se célere à periferia, que lembra a Baixada Fluminense: ruas de terra esburacadas, algumas canaletas de esgoto a céu aberto com galinhas ciscando, cães vadios, casas pobres de alvenaria mal rebocada ou naquele padrão típico de tábuas finas de madeira pintada que se vê no oeste daqui e do Paraná. Mas todas cheias de árvores nos quintais.

O centro lembra Corumbá ou aqueles subúrbios militares ( Realengo, Vila Militar, Marechal Hermes) do Rio de antigamente: ruas espaçosas, arejadas, arborizadas ( tronco baixo caiado até a metade), casas de murinho mais para enfeitar que proteger e varandas para tomar a fresca à noite. Ameias ocasionais recordam inspirações bélicas; parcos enfeites art déco aqui e ali, as décadas de 30/40/50 e uma crença num futuro que não chegou.

A praça principal, Thomaz Laranjeira, é um retângulo forrado de piso hexagonal cheia de canteiros irregulares pintados de branco com árvores espaçadas ( podadas por ordem do riquíssimo ( 12 fazendas) e autoritário prefeito). Quem olha na direção do rio, vê que metade direita é cheia de coqueiros ( Sou uma negação para saber as palmáceas daqui. Digo “Aquilo é uma bocaiúva?”, “Não, é carandá!”, “E ali é carandá?” “Não, Pindó”. Por isso vamos dizer que são coqueiros); atrás da praça, um antigo cinema: no meio, pequeno coreto azul e branco e à direita um imenso mastro de 35 m ( “O maior mastro do Mato Grosso do Sul!”, diz uma placa num acesso de paulistismo) onde farfalha o pavilhão verdamarelo.

Um dos canteiros tem placas comemorativas do Dia do Tanino, Centenário da Batalha do Tuiuti e da histórica enchente de 79, quando o nível do Paraguaizão subiu á altura de um prédio de 3 andares ( é como se o mar do Copacabana invadisse a Atlântica e chegasse, acho , ao segundo andar dos edifícios).

Outro sinal da colonização militar é que a igreja matriz não fica nessa praça principal.

 

O esforço ecológico do Pantanal, infelizmente, é bastante prejudicado por nossos hermanos paraguayos. Lá o defeso, se respeitado, é de só 30 dias e se pesca e caça indiscriminadamente. Contam-me que até autoridades cometem o crime de jogar rede no Rio e, ao sul do rio Apa, o limite do pantanal brasileiro, onde é só Paraguai , quase não há jacarés, capivaras e outros bichos, é tudo caçado.

Não sei se é coincidência, mas há pontos no rio onde se vêem as duas margens e a diferença salta aos olhos: a brasileira é exuberante, cheia de árvores e vida; a paraguaia, baldia, os troncos de árvores não cortadas ressecados, nus de folhas…

99% do pessoal acha que os paraguaios não prestam, embora os trate bem. É uma opinião muitas vezes bem fundamentada. As evidências de lá ser uma terra sem lei são grandes.

Visitei a Isla Margarita, de frente para Murtinho. A face leste, a fronteiriça, tem algumas lojas que se chamam, com placas em português, Centros de Compras. Há uma quadra, uma igreja e um prédio da marinha. Dali para a margem oeste, me dizem, “é só favela”.

Ali os ilhéus costumam enganar os turistas vendendo peixe barato. O desavisado o compra congelado e, no caminho de volta, aparecem as marcas de que foi pescado com rede. A fiscalização nas estradas brasileiras apreende na hora e dá multa e cadeia.

Num lugar que parecia um puteiro, mal acabado com tijolos à mostra e cheio de luzes fluorescentes coloridas, mas que era uma loja, vimos curiosa festa. Um grupo de umas vinte pessoas em cadeiras de plástico homenageava os 20 anos de casamento de um casal de meia idade. Cada um se levantava com uma flor na mão, dizia umas palavras à mulher e a entregava sob palmas.

Falavam um espanhol incompreensível. Nosso guia, que fala a variedade deles e guarani também, me pergunta “está entendendo alguma coisa?” “Meia dúzia de palavras”, digo E ele riu “Pois eu não estou entendendo nada!” Saímos dali.

Comenta-se que, se sair a ponte planejada entre Murtinho e Margarita, a criminalidade vai disparar. Por enquanto essa ainda é uma cidade onde as pessoas deixam os carros com a chave no contato.

E uma história que dá idéia do que é o paraguaio aqui. Diz-se que em Forte Olimpo, cidade deles a duas horas de barco , há uma tribo em que, por 50 mil guaranis ( 25 reais), o cacique deixa você deflorar uma das virgens da aldeia. Bem, 90% das histórias que os pantaneiros contam são fantasiosas, mas se essa for verdade… 

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