… dos amigos: Notas Pantaneiras 1

NOTAS PANTANEIRAS

Caraca, em pleno 22 07 30 S com 57 52 30W ( http://www.cdbrasil.cnpm.embrapa.br/ms/htm0/ms48_16.htm ) acho internet!

A paisagem no caminho tem verde, mas enganador. Uma olhada mais cuidadosa vê que as árvores, cerca de 5m de altura, estão com folhas preservadas, mas a vegetação rasteira está seca e as inúmeras depressões que formam lagoas cheias de peixes, jacarés e aves em épocas mais chuvosas estão vazias. O sol amorna tudo, há poucas nuvens ralas e os bois e cavalos têm quase nenhuma água para beber. No verde aparecem alguns pontos queimados.

Estou à beira do rio Paraguai. A cidade é simpática, limpa, arborizada e tem casas até com certa conservação, muros baixos e algumas antenas parabólicas e da Sky. Papagaios e maritacas passam voando em duplas. Sorveterias, pizzarias, lanchonetes lembrando Bonito. Pessoas flanam pela tarde de sábado. Meninas adolescentes brincam com seus celulares. Garotos também em grupos e, claro, muitos na lan house local jogando counter strike., ouvindo mp3 e teclando no msn.

Inúmeras bicicletas e motos. As magrelas parecem ser o principal meio de transporte aqui. Algumas cabines duplas dos mais abastados, mas sem aquele estilo country fake do interior paulista. Mulheres e crianças paraguaias mendigando ou paradas olhando o rio. Comércio movimentado. Na farmácia, também produtos paraguaios em embalagens kitsch prometendo cura para hipertension, colesterol e molestias de señoras.

Perto do rio, olhando a pobre margem oposta, uma Igreja Univer$al…

Aqui é como na Amazônia. Vale aquele velho clichê literário de que “o rio comanda a vida”

É tempo de vazante no Rio Paraguai. As águas baixando deixam as terras altas inundáveis bem secas, esturricadas. Obviamente a vegetação às margens está verde como sempre, em contraste com as barrancosas. Não vi nenhuma queimada *ativa*, mas há várias regiões já calcinadas e outras parecendo a caatinga. Bastará um raio, um fósforo, uma faísca e tudo torrará.

Porém, mesmo nas que já estão queimadas, há muitos brotos verdes, nos ramos das árvores e do chão. É a vida insistindo.

Também, é época de vento sul, que traz muito frio da Patagônia. O ar gelado encontra pouquíssima resistência das serras da Bodoquena e Maracaju e você acaba batendo os dentes pela manhã e noite. No mais do dia, o sol e o céu sem nuvens tentam compensar o vento.

Um efeito benéfico desse frio é que, quando você encosta com um barco nos camalotes, plantas que se aglutinam nas margens dos cursos d’água, não há nem sombra das nuvens de mosquitos que aparecem ns dias mais quentes.

Não sei se é pelo frio atual ou porque a presença humana aqui é considerável, a fauna aqui é mais pobre que ao norte. Lá já vi, em outros anos, bandos imensos de capivaras, jacarés, tuiuius. Aqui eles aparecem isolados: um jacaré aqui, um cateto ali, uma garça acolá.

Sorte nossa que não há queimadas. A fiscalização ambiental é NULA. Há um posto local do Ibama, mas, informam, estão sem combustível para cumprir suas funções. Esse é o Brasil dos Srs Palocci e Lulla e do superávit primário…

Sábado passado, após enchermos a cara o dia inteiro, decidimos fazer uma coisa mais light e fomos à praça principal tomar sorvete. Seguimos por uma das 6 ou 7 ruas da cidade que são asfaltadas (as outras são de terra batida, mas foram usadas máquinas e há poucos buracos). A na qual estávamos, percebemos, era um pouco melhor que as outras, mais bem cuidada e com melhor sistema de escoamento pluvial e enfeites (por ser área militar, árvores e postes têm aquele típico caiado até a metade). Depois entendemos a razão. O governador tem um terreno naquela rua, que, aliás, é asfaltada só até onde interessa…

Num contraste com aquela tarde tão animada, a praça, no mesmo padrão militar e fortemente iluminada por lâmpadas de mercúrio, estava vazia. Só havia um vigia, mais interessado na agência do Banco do Brasil ali perto que no resto. Entendemos que os mais jovens estavam em festas (dali ouvíamos, numa casa, Ivete Sangalo e em outra Festa no Apê) ou se preparando para o baile que haveria num clube da Marinha.

Ontem quase presenciamos um acidente feio. Uma barca de carga, que aqui chamam de “navio empurrador”, perdeu o controle ao bater num banco de areia e se precipitou para a margem na direção de um pobre bote. Buzinou como um desesperado e o bote saiu rapidinho, ou seria esmagado. O piloto do nosso barco é brasiguaio, mais lá do que cá, e como a barca tinha bandeira paraguaia, pegamos no pé dele “Olha lá, tinha que ser paraguaio mesmo!” 😀

Aqui nós brincamos muito com os paraguaios, e vice versa, mas não há ódio. A realidade é que eles estão mais por baixo que barriga de jacaré. A pobreza do lado de lá é obscena, e por pior que estejamos, estamos sempre acima deles. Um real vale mais de 2 mil guaranis.

Ninguém fala bem ou mal da base americana, que, comenta-se, talvez seja instalada aqui perto no Chaco (eu acho que ficará mais ao sul, pois há muitos árabes lá e para o ianques todo árabe é um terrorista). No Chaco, me contam , também há uma curiosa colônia alemã, bem fechada mas que até permite que os locais se casem com seus membros, desde que não saiam de lá. Serão neonazistas?

Mas eu falava dos navios empurradores. São curiosas embarcações com 4 motores Scania que empurram até 16 cascos flutuantes de 30 toneladas cada com minério, grãos e soja. Levam cerca de 1 mês para chegarem aos portos platinos e, lentíssimas, são um belo espetáculo quando passam.

Já aquelas chalanas típicas do Pantanal, não vi nenhuma nessa região. Toda quinta, me dizem, chegam barcos-hotéis, muito apreciados pelas “mocinhas” do local.

A maioria dos pecuaristas nem sabe quando gado têm. O costume aqui é deixar os bichos soltos e recolher depois os que encontrarem.

Por isso, às vezes você vai encontrar pelo mato uma rês isolada. Ontem paramos num local chamado Guaycurus para almoçar uns peixes que havíamos pescado. Totalmente isolado, longe de tudo e todos, mas com 3 vacas pastando lá despreocupadas. Se fôssemos ladrões, as teríamos levado sem que ninguém percebesse, se bem que fica a pergunta: como é que seriam levadas pelo rio?

Como disse antes, é vazante, e os corixos, canais que ligam um rio a outro ou a ele mesmo envolvendo uma ilha inundável, estão cada vez mais rasos. Chegamos a encalhar num. Em breve o Paraguaizão será um fiapo e depois, ano que vem, tudo será um grande lago, seguindo o ciclo da vida.

Ontem, quando voltávamos, paramos para ajudar um barco à deriva com motor em pane e o rápido anoitecer pantaneiro nos surpreendeu. Á noite as margens ficam totalmente escuras e isso evoca os milhões de mistérios dessa terra. Pensei na Iara, Curupira e, ouvindo os milhões de sons noturnos, no que sentem pessoas da sensibilidade de um Manoel de Barros, Raduan Nassar ou Bernardo Élis ao tentar traduzir os eflúvios dessa terra.

A noite no pantanal tem um céu estreladíssimo e aí se entende bem o significado de abóbada celeste ( vemos claramente a grande redoma salpicada de estrelas) e via-láctea ( as manchas de leite estão lá no céu). Também, se entende como os antigos as usavam para orientação. No que pareceu ser meu sudoeste, o Cruzeiro do Sul estava nítido, quase tocando o horizonte. A Noroeste, Vênus, fascinante, hipnótica, e a leste, uma das luas-cheias mais lindas que já vi na vida, um laranja baço, fraco e ao mesmo tempo fatal, como se anunciasse o fim do mundo.

E quando você olha aquele céu, aquele rio, aquela lua e aquelas margens negras cheias de sons e mistérios indecifráveis, finalmente entende Guimarães Rosa quando diz que “o Sertão é dentro da gente”.

Abraços,

Luiz

(com desculpas por algum erro e excesso, pessoal. São dois copos de caipirinha, dois de pinga pura ( aliás, no lado paraguaio, na Loja da Silvia, dizem haver o mais puro malte escocês 😉 ), dois de caldo de piranha ( o “Viagra do pantanal”) e inúmeras latas de Skol na idéia.

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