O Canaimé assombra o lavrado

O canaimé assombra o lavrado. Se esconde atrás das moitas de caimbé, atravessa da Guyana mítica, onde o vizinho é o estranho e diferente – por isso ameaçador. Invade cada comunidade, e se marca alguém, que este se prepare. Chame pajés, peça a benção do padre, se concilie com a morte, que provavelmente não será boa, que não tarda e não falha. Seu Agostinho acabou de cabeça para baixo dentro do poço. Marize foi atacada na mata, depois encontrada caída, deixando saudade em sua irmã gêmea. E no último mês, Elenilson, dez anos, sumiu de casa. Deve ter bulido onde não devia, e apareceu no curral, amarrado, apertado, com corda no pescoço. Valei-me Santa Cruz Peregrina, limpai o lavrado desta dor.
A polícia federal esteve por aqui. Ouviu família, tuchaua, comunidade. O menino era bom aluno, bom irmão, bom filho. Não tinha vícios, dívidas, amantes, nos dez anos de vida. Por que? A resposta é unânime: “tem corda no pescoço, foi o Canaimé”. Canaimé é bicho ruim, não carece de precisão para fazer a malvadeza”. Chega o Pajé Zé Rodrigues, caboclo de boa conversa e conhecimento na cabeça. Desce a bicicleta do carro e vai rodar o terreno, investigar a região. Não tem dúvida: o bichão veio da Guyana, não pode vir daqui uma maldade tão grande. A maldade maior nunca é nossa, não é mesmo? Ele trabalha, faz fumaça, reza, banha a casa do menino. Aqui o Canaimé não volta mais, mas por via das dúvidas, a Santa Cruz Peregrina também passa aqui. Livrai o lavrado desta dor.

Este post faz parte das Impressões Integrais 91

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