Mais histórias de Koch-Grunberg 2

“À noite, um quadro idílico: estou sentado à minha “escrivaninha”. Ao meu lado, agachada, a mulherzinha seminua costura sua saia de chita enquanto canta melodias de Natal alemãs com texto m Makushí. Na rede, junto ao fogo, descansa a dama de honra, a criança índia nua, e, ao fundo, Schmidt, sentado num banquinho, tira seus inevitáveis bichos-do-pé.” Pág 285

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“4 de outubro. Às 5 horas sou acordado bruscamente. Cai um forte aguaceiro e, num instante, fico todo encharcado, apesar de eu me cobrir depressa com a capa de chuva e a lona; na realidade, há muito que ambas deixaram de ser impermeáveis e estão cheias de furos. A chuva não pára. Fico agachado de pijama molhado e fino, tremendo de frio, bem perto do fogo numa barraca, junto com as pessoas nuas e os cachorros. Em momentos assim temos a impressão de que nunca mais ficaremos secos e aquecidos. Mas logo chega uma panela grande com cabeças de porco cozidas. A gente como até se fartar e volta a ver o mundo sob uma luz mais rósea.” Pág 318

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“Aqui a gente vê umas coisas engraçadas. Alexandrino está sentado num canto, tomando sopa quente de farinha de uma cuia grande. Uma filhinha de dois anos vai correndo até ele. O pai cuidadoso põe a cuia no chão e alimenta a filha com casabe. Um fiozinho d’água cai murmurando na sopa de farinha, que o pai então bebe sem suspeitar de nada. Nós choramos de tanto rir.” Pág 351

“Estou com uma aparência miserável. A camisa está suja e chea de furos, através dos quais o sol desenha manchas marrons na pele. E a calça, então! Está com franjas embaixo e cada vez mais curta. Rasgou várias vezes nos joelhos e, toda vez, era costurada com fibra de palmeira. Está tão suja que quase fica em pé quando a ponho no chão. Se eu fosse mandar lavá-la agora, iria se desfazer em suas várias partes. Com certeza, vou chegar seminu a São Felipe. Quando penso que há pessoas que vão a reuniões noturnas de fraque e gravata branca, começo a rir.” Pág 354

“A população indígena do Casiquiare diminuíra muitíssimo. Da outrora grande tribo dos Baré, cujo território, ainda no século passado, estendia-se até o médio rio Negro, só restaram ruínas. O trabalho insalubre nos seringais, o difícil serviço de remador… dizima-os terrivelmente. O trabalho escravo para os brancos mal lhes deixa tempo para cultiva suas roças. Febre e doenças da civilização fazem o resto. É o triste destino dessa pobre humanidade morena. Ela perece sob as bênçãos duvidosas da chamada “cultura moderna”. É sacrificada ao deus Mammon*1. Pág 370
*1 Mammon é deus do dinheiro.

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Post inicial: Impressões do que Li – Koch-Grunberg
Mais História de Koch-Grunberg 1

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