Crianças Yanomami no Hospital… impressões tristes…

As vezes quando estou na unidade semi-intensiva com algum Yanomami meu pensamento viaja e fico imaginando que mundo é este, em que vivemos, aos olhos deles. Lembrem que muitos vivem em um mundo onde não há veículos, os sons são os da floresta e dos cânticos nos dias de festa e a luz se acaba ao mesmo tempo que o dia. As crianças são seres livres. Quando pequenos permanecem em tipóias, trançadas de lã ou feitas de entrecasca de árvore, sempre grudadas a seus pais (parêntese: nunca vi um Kaiapó homem carregando seu filho em uma tipóia, mas já vi os Yanomami várias vezes com esta atitude). Na medida que crescem ganham o espaço ao seu redor: as pernas das mães, a maloca, a aldeia e a mata, conquistando a liberdade.

Eis que um curumim fica doente. Chama-se o pajé para fazer “xapori” e soprar a doença da criança. Ele canta, sopra e enfumaça, o que pode em alguns casos até agravar uma pneumonia. A equipe de saúde inicia o uso de antibióticos, mas se o caso complica o resgate é acionado. Chega o avião ou helicóptero e a criança e sua família voam para Boa Vista. Pai e irmãos ficam na Casa do Índio. A criança é levada direto para um hospital. Nosso pronto socorro – como todo PS – é sempre cheio. Gente falando, criança chorando, barulho, luzes que nunca se apagam. Cores, formas, ruídos, cheiros. Tudo é novo para estas mães que ganharam uma roupa que tape suas vergonhas e que andam descalças e com um seio esquecido para fora da blusa após o seu filho dormir cansado. Entram na sala do médico. Já conhecem este procedimento, mas o diálogo é impossível ou mínimo, mesmo com a ajuda de tradutores que pouco falam do português alienígena neste país indígena. Nem sempre os profissionais dão a atenção devida, e pela gravidade com que chegam, logo se constata “índio sempre é trabalho”, não pelo sentido preconceituoso, mas pelo fato de que tem menor resistência a infecções respiratórias.

Logo vem a internação: criança deitada na cama, furada, com o precioso sangue indo parar em tubos. A cama em uma enfermaria, onde todos olham tentando entender as diferenças, por vezes difíceis de aceitar. Os olhos são curiosos dos dois lados. Mas o que eu escrevi? Criança na cama… curumim não dorme em cama e o sono não vem sem a curva da rede que imita a curvatura do dorso da mãe. A solução é simples: a mãe, pequenina, deita na cama junto com o pequeno e passa horas espremendo os seios flácidos dos muitos filhos, na boca que não consegue nem fazer esforço para sugar. Mas a criança continua cansada, e é enviada a outra enfermaria, agora semi-intensiva. Retiram-se os amuletos. Fios no peito, monitores apitando incessantemente, tubos e até um capacete de oxigênio no rosto. Inaceitável! Ansiosa a mãe tira fios e capacete, apenas para ver o filho ficar roxo e sem ar, levando a resignação de quem entende que a entrega é a única solução para a preservação da cria. Não é fácil quando a criança chora e ela pouco mais pode fazer do que sacudi-lo a maneira Yanomami, esfregando a mão no peito ou na cabeça da criança e gritando “shhhh, shhhh, shhhhh”.

As vezes o trabalho é difícil para a equipe, como quando uma criança de pouco mais de dez anos, mãe, não de uma boneca, mas de um bebê de verdade, em dois dias, por três vezes arrancou o cateter de uma veia profunda, colocado por um cirurgião chamado especialmente para este fim e que na terceira vez previu o trágico destino da criança vítima de uma desidratação sem fim. Aos poucos, com o amor das mães, a dedicação da equipe e as bênçãos de algum Makunaima Yanomami os pequenos se recuperam. Mais ativas, puxam os cabelos das mães que trocam as lágrimas por um sorriso de orelha a orelha, encantador como ver a vida brotando aos poucos. Melhores, as crianças são transferidas para a “enfermaria indígena”, onde os pais já podem acompanhar as mães em grandes redes e junto a parentes com quem podem conversar mais a vontade enquanto seus filhos se recuperam. Logo escuto: “Casai, casai”. As mães pedem para ir para a Casa do Índio, onde segue seu tratamento e onde a cantoria se repete, mas mudando o tom, pois o pedido agora é para voltarem para as aldeias, onde, ao redor da fogueira poderão contar deste estranho mundo dos napopo (não índios).

… pausa para a reflexão…

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2 opiniões sobre “Crianças Yanomami no Hospital… impressões tristes…”

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