Vida de médico na aldeia

As pessoas sempre me perguntam sobre como é minha rotina nas aldeias. Vou tentar explicar um pouco, lembrando sempre que as diferenças são muitas entre uma etnia e outro, entre um Distrito Indígena e outro. Embora eu trabalhe com índios que preservam bem sua cultura, são índios que também tem bom contato e aceitação da cultura ocidental. Os Kaiapó conseguem mesclar seus hábitos com os importados sem enxergar nisso uma contradição cultural.

Eu atendo 12 aldeias espalhadas por uma área do tamanho aproximado do Estado do Rio de Janeiro. A área Kaiapó na verdade compreende várias terras indígenas interligadas, que compreendem não apenas o Pará como também Mato Grosso, em uma área que é das maiores do mundo em termos de florestas preservadas, com tamanho aproximado de três Estados do Rio.

Em todas nossas aldeias eu chego de avião monomotor. Chegando nas aldeias o avião é sempre cercado por um sem fim de crianças, mulheres e jovens, curiosos, que querem saber quem vem, de onde vem, o que traz. Eu salto do avião e grito “Akati mex” (Bom dia!) e todo mundo responde e depois começo a ouvir pelas minhas costas “Dr. Tamira”, “Dr. Tamiri” ou algo semelhante.

07 01 KKK (75)

Me alojo nos postos de saúde e iniciamos a rotina de atendimento. Manhã: oito ás onze. Tarde: quatro até escurecer. Antes das quatro é difícil atender porque o sol é intenso e ninguém sai de casa.

Atendo a família junta. Mulher, às vezes o marido e os filhos pequenos, variando entre um a cinco. Me surpreendo várias vezes com avós que parecem irmãs de seus netos, ou no máximo mães, pois elas começam a ter filhos muito cedo. Acho que por isso também a estatura feminina é tão baixa. Enquanto há muitos homens de minha altura e maiores, a maioria das mulheres não chega nem no meu queixo. Depois que entra uma família, se há espaço na sala, devagar e discretamente vão entrando outras famílias. É assim: entra um idoso como quem não quer nada, depois o seu marido ou esposa, netos e… quando vejo já tem umas vinte pessoas no consultório (o recorde ainda foi de 35). Por trás de mim crianças se dependuram nas janelas, e novamente escuto… “Dr. Tamira” “Dr. Tamiri”.

IA 43a

A Aldeia Kikretum é uma das mais organizadas. Lá também o consultório é menor, então é difícil ter muita gente no consultório. Normalmente lá é assim, um agente de saúde, que ajuda nas traduções e uma mãe com seu(s) filho(s).

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3 opiniões sobre “Vida de médico na aldeia”

  1. Vc é muito corajoso, andar de monomotor, cruz credo pé de pato mangalo mil vezes.
    E mais, é muito atenciosos, um médico de verdade, tenho cá comigo severas restrições (perdoe-me) em relação a médicos que consultam fazendo contas de quantos pacientes atenderam, qual foi a feira do dia, e nem olham pra nossa cara.
    Uma vez levei meu querido bob marido no PS, ele bem mal, nem podia andar, na cadeira de rodas, a médica nem olhou pra cara dele e o bichinho começou a contar o que estava sentindo, a idiota ficou batendo papo no celular, dei um cutucão nele e pedi que parasse de falar que ela nem estava prestando atenção, foi quando ela se assustou com minha reação e o atendeu, porém sem o menor laivo de humanidade. Fiquei aborrecida.
    médicos e advogados devem ser sensíveis com a dor de seus pacientes/clientes respectivamente, ninguém nos procura pq quer levar patada.
    já contei essa história vinte vezes e não me canso, pq acredito em dias melhores.

  2. ah! e não me refiro a vc, qdo falo em contagem, mas sim a um médico que me atendeu uma vez, com um monte de “boleto” (não sei o que era) da unimed, e nem prestou atenção na minha queixa. Fui a outro médico e descobri que precisava fazer uma cirurgia com urgência, se tivesse ficado com o médico que calculava teria morrido.

  3. eita, doutor “Tamira”, que vida profissional maravilhosa e rica a sua, de dar inveja a quem, há mais ou menos dois anos ininterruptos se trancafiou entre paredes para uma pesquisa eminentemente teórica. suas experiências me isntigam sempre a alçar vôo por essa Amazônia afora. Descobri em sua narrativa que padeço da característica hipocondíaca de ser dos Kaiapó, e faço igualzinho a eles: tomo os remédios em desacordo com as prescrições, erro os hrários, na maioria das vezes, confesso-o a voce como quem se confessa com um padre, pelo que já lhe peço perdão. Mas é fato:também sou hipocondríaca, leitora assídua de bulas de remédio e colecionadora delas. Sobre isso, há uma historinha que se passou com meu filho, Eduardo, na época com 8 anos. quando ele estava numa das aulas no colégio e a professora perguntou a todos se algum deles poderia levar, pra próxima aula, umas bulas de remédio. O Eduardo respondeu logo: -Eu posso, mas a sra. tem que devolver. A profa. perguntou por que, e ele respondeu : -É que minha mãe é hipocondríaca. A profa. perguntou se ele sabia o que estava dizendo, ao que respondeu: -Sei sim, ela tem mania de doença e coleciona essas bulas. Se faltar uma, ela vai dar conta. A profa. riu e veio me perguntar, após a aula, se aquilo era verdade. Não tive outra opção. Entre desmentir meu filho e me expor à execreção pública, confirmei. É isso mesmo. mas nunca havia percebido que ele sabia disso. Concluí que os filhos nos observam constantemente. hoje tomo mais cuidado na exposição de minhas manias, mas em geral não consigo, sou muito transparente, com um espírito e uma língua que não cabem no corpo. se não gosto de algo , isso é visível, se gosto, tbm, e por aí vai. pois é. toda essa historinha pra dizer o quanto meidentifiquei com os Kiapó.

    Sobre a aceitação de culturas diversas por algumas tribos, sem que se perca a cultura nativa, é interessante observar-se que a interseção de culturas não deve siginificar a assimilação completa e substituição de uma cultura por outra, mas sim, que a coexistencia de costumes, tal como acontece com as nossas tribos de pernambucanos, roraimenses, gaúchos, etc. mostra-se enriquecedora e não aniquiladora da cultura de cada povo e de sua identidade. o que é difícil de ser constatado por muitos, vc verifica em sua prática de trabalho e de vida. e os Kaiapó nos dão essa lição de forma bastante simples. Um grande abraço.

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