Vovô viu a Onça

Aldeia Kriny

Na minha arrogância de cidade grande, ecólogo, leitor voraz de tudo
que se relacione a natureza, insisto em ignorar o perigo das onças.
Sempre que me dizem que viram uma onça penso logo em jaguatirica,
aquele gato vitaminado, com a pelagem igual as pintadas. No máximo
penso em uma parda, bem maior, mas mais urbana que sua prima e
portanto mais facilmente avistável. Onça perto de casa? Acho difícil,
pois onça é inteligente, não gosta de proximidade com gente, sabe que
o perigo que corre é ainda maior do que o perigo que oferece. Além
disso onça gosta mesmo é de mata, onde pode caçar veados, antas,
preguiças, pacas e capivaras, que por motivos óbvios de sobrevivência
não chegam nem perto das casas.

Hoje tudo mudou. As seis horas fomos acordados no posto de saúde da
Aldeia Kriny por uma moto buzinando insistentemente. Trazia um senhor,
o Seu Filó, com a calça rasgada por uma suposta mordida de onça que
ele abateu a golpes de machado. Você acreditaria? Enquanto fazíamos o
curativo chegou uma senhora que, curiosa como todo Kaiapó quis saber o
que havia acontecido. Logo cerca de quarenta indígenas cercavam o
posto para ouvir a história. Embora não entendesse o que diziam, pelo
gestual e expressões era clarão que as mães alertavam os filhos quanto
ao perigo da onça. Já os mais velhos olhavam tão desconfiados quanto
eu… Um kubenget (ancião) matando uma onça com machado? Sei não.

Fui atrás e consegui uma carona de moto até a casa, a três quilômetros
da aldeia. E não é que a tal onça era onça de verdade, com pelo menos
uns 80 kg? A onça havia matado o cachorro da família, quebrando o seu
pescoço e passeado na varanda (as pegadas não deixavam mentir) as
cinco da manhã. O barulho da luta acordou a família que correu armada
para fora (tutti buona gente!) e meteu dois tiros na onça, que então
caiu. Acreditando que estava morta, seu Filó chegou perto e a bichona
deu último bote, sendo finalmente abatido com o machado. Baita susto.
Paguei a língua mas fiquei triste. Apesar disso sei que eu também não
deixaria um bichão daqueles na minha varanda. Triste é ver que, pela
degradação da natureza os contatos aumentam cada vez mais.

O pior é que agora nem sei mais como fazer para sair no meio da noite
para o velho xixizinho no meio do mato…

 

07 11 kriny (16)  07 11 kriny (19)

Olha como a onça estava perto de casa… e com criança.
E seu Filó exibe o ferimento orgulhoso… vovô viu a onça!

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2 opiniões sobre “Vovô viu a Onça”

  1. Altamiro, quando recebi e li as últimas impressões saí como crianças falando com a família toda… – Gente, vocês não vão acreditar! O Seu Filó, matou a onça com uma machadada!!! – E vi no rosto deles um monte de ????? Depois, é claro, expliquei tudo, sem deixar de sugerir que adicionassem a página aos seus favoritos!
    Quanta riqueza!
    A cada novo texto fico mais encantada… viajo em suas histórias depoimentos, fico maravilhada como uma criança que ouve atenta aos fascinantes caminhos que as histírias podem levar.
    Muito obrigada por esta possibilidade!
    Quero um livro!!! Com direito à dedicatória e um longo abraço!
    Seu Filó que se cuide e você, também! Afinal, é melhor fazer o xixizinho numa garrafa e guardá-la para despejar em casa, do que correr riscos…
    Grande abraço!

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