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Festa da Mandioca e Viúvas silenciosas
Cada vez que entro em uma aldeia aprendo mais e me impressiono com os hábitos, por vezes tão distintos dos nossos. Vivemos tão perto mas ao mesmo tempo tão distantes… e esta é somente uma das centenas de etnias do Brasil… somos mesmo uma sociedade muito misturada. Só devemos lembrar sempre que todos tem que ter o seu espaço, pois cabe todo mundo no Brasil, ou, como diz um grande amigo: “olho pro tamanho do planeta e vejo que ele é tão grande, grande demais. Tem lugar para tudo mundo viver sua vida e viver em paz…”
Eu já sabia que as viúvas raspam a cabeça quando seus maridos morrem. Hoje atendi uma que, além de careca estava sussurrando. Aprendi que as mulheres – e na verdade isso também vale para os maridos que enviúvam – devem se manter contidos em tudo durante o período de luto. Isso significa, além de raspar os cabelos, falar somente sussurando, não participar de festas e nem mesmo se pintar até os cabelos voltarem a crescer totalmente, que é quando termina oficialmente o luto.
Esta semana também estava acontecendo a festa da mandioca em Gorotire.Com a minha chegada o “dono da festa” interrompeu a comemoração – mais uma vez eu fico sem ver uma festa – para que todo mundo pudesse ir a consulta e para que ele pudesse pegar mais mandioca. Esta festa é assim: de dia todo mundo de se enfeita e dança, os homens se exibindo para as mulheres e vice-versa. Os homens solteiros só podem dançar com as mulheres casadas, e os casados só com as solteiras.
De noite a festa continua mas sem muita dança, apenas os casais vão dançar a dois e “namorar”. O Bedjara, um dos agentes de saúde indígenas que trabalha comigo estava me ajudando. Aí eu perguntei para ele. “Então se você dançar com uma menina e namorar ela sua esposa não vai ficar brava?” Ele respondeu: “Não pode, porque é tradição.” E eu insisti: “E se ela namorar com outro, você não fica bravo?”. E ele: “Eu fico com ciúme, mas não fico bravo porque é a tradição”. Cada um é cada um, tem muito kubem (branco) que iria adorar uma festa assim…
Alguns jovens que estavam na porta do posto de saúde, depois da “rebarba” da festa.
Add comment 31 Dezembro, 2008
Voando para Gorotire, a maior aldeia Kaiapó
Estou em Gorotire, aldeia-mãe dos Kaiapó. Novamente estranho a mistura de tecnologia com hábitos ultra-tradicionais. Cheguei de avião, após um vôo de 45 min de monomotor. No avião, de 3 lugares, vamos o piloto, eu, uma representante da ONG Indígena, o presidente da ONG e um secretário. Mas o avião não tinha 3 lugares? Pois é, um vai em um banquinho de dobrar e outro sobre um botijão de gás. O avião ia com pouca carga, e assim, mesmo com o vento e com a chuva, viajamos bem.
Se segurando no cinto de segurança do avião…
Após o pouso, em 5 min de caminhada chego na aldeia, a maior da nação Kaiapó.
Surpresa…embora tenha um pátio central diante da Casa do Guerreiro, como nas aldeias tradicionais, não há malocas. As habitações são todas de alvenaria, construídas por uma companhia cerca de 30 anos atrás, na época do boom da madeira.
As casas são mal conservadas e na maioria sujas e borradas por fuligem. Não há como dizer que o índio não tem higiene, mas seus hábitos são bem distintos dos nossos. Busco latas de lixo em uma procura vã. Dá para entender: no passado eles não produziam lixo inorgânico e o orgânico, mesmo que jogado no chão era todo eliminado pelos animais que viviam ao redor das casas, assim não havia lixo algum.
1 comment 7 Novembro, 2008
Esporte Espetacular – Futebol Indígena
Vocês sabem qual é o esporte favorito dos indígenas? Futebol. Ganha em disparada, sendo praticado tanto por homens quanto por mulheres. Gorotire então, a maior aldeia dos Kaiapó, tem um campeonato disputadíssimo e muito duro (não sei se é mais duro de ganhar, ou duro de se ver…), com oito times: Guairá, Pará, Kaiapó, Sucuri, Juvenil, Gorotire, Grupo K e Novo Horizonte. O atual campeão é o Guairá.
Meninas da aldeia Pukararankre. Foto da minha amiga Inácia Freitas.
Futebol de fim de tarde em Kranh-Apari.
1 comment 8 Agosto, 2008
Morte na Aldeia
Gorotire – Abril 08
Hora do almoço. Quando imaginei que iria descansar dos mais de 40 atendimentos da manhã, escuto o inconfundível choro das mulheres Kayapó. Como não chegou avião nem carro, não é parente chegando – o choro é tanto por tristeza como pela alegria de um reencontro – e logo vem a confirmação de uma morte em Redenção. O choro é cíclico. Horas de silêncio se sucedem a instantes que toda aldeia parece chorar em uníssono.
O morto será velado em sua própria residência, sobre uma manta no chão. Ele é enfeitado com seus adornos de festa: brincos, pulseiras, braceletes e pintado da forma tradicional – a pintura é muito importante e acompanha o Kaiapó em toda sua vida. Os momentos de choro se alternam com os de dança e cânticos em homenagem ao falecido, ao longo da noite e do dia seguinte, até o momento do enterro.Todos os pertences do morto o acompanham: colchão, roupas, utensílios e tudo que tivesse proximidade a ele ou puder lembrar a ele. É comum famílias ficarem sem nada após a morte de alguém importante, sendo que, se a morte ocorrer no domicílio, a casa costuma ficar abandonada. A esposa pinta o falecido, raspa sua cabeça e após o enterro evitará sair em público, só o fazendo em casos extremos, quando falará em voz baixa, quase sussurrando e não usará pintura. O luto só acaba quando seu cabelo cresce novamente e ela pode se pintar.
Por existirem muitos Kayapó cristãos o sincretismo religioso é evidente. Estes influenciam os animistas e vice-versa. O morto não vai para o paraíso, mas pega seus pertences e segue ao encontro de seus parentes e amigos falecidos. Este caminho pode ser longo e o morto pode permanecer próximo e não querer ir sozinho, o que causaria outras mortes por “doença de índio”. Por isso o medo de me karon, isto é, fantasmas, é generalizada. Não se fala do morto para não atrai-lo para perto de si, especialmente se for alguém próximo. Após algum tempo (não consegui descobrir quanto) o pajé, que transita entre o mundo físico e o espiritual, vai a procura do morto para certificar-se que está bem, em companhia de parentes e traz a notícia, tranqüilizando finalmente a família.
Hoje percebi que a morte, assim como a alimentação, sexo e família, também são muito características de cada sociedade. Poucas horas após escrever o texto acima e do enterro, ao final da tarde, percebo que estou atendendo aos filhos do morto. Depois atendo uma mulher que julgava ser uma tia e pergunto o que ela tem. Responde falando sobre gripe e dor no pescoço. Vendo a ficha percebo que é a viúva, que ainda não cortou o cabelo (ela só faria isso ao dia seguinte, junto a sua sogra). Faço a receita e ela se vai com as crianças, como se fosse um dia qualquer.
2 comments 7 Julho, 2008
Cenários de Gorotire
Add comment 2 Abril, 2007
Momokre
“Gente, mais de 40 já me pediram carona (são mais de seis horas de estrada se a estrada estiver boa), então é melhor a gente sair mais cedo, tipo ás 4 da manhã”.
Add comment 2 Abril, 2007
Cantoria das Mulheres Kaiapó
1 comment 2 Abril, 2007
Aldeia Gorotire
Add comment 2 Fevereiro, 2007







