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Primeiras impressões Yanomami
Quando falamos em Yanomami, na verdade estamos falando de quatro grupos distintos, que partilham a mesma área geográfica, línguas do mesmo tronco (como o português, o espanhol e o francês) e hábitos parecidos: os Yanomami, Yanomáim, Sanumã e Xiriana.
Alguns laços unem todos estes grupos, um é o estranho hábito de usar fumo mascado na gengiva, de forma que vá soltando seu sabor aos poucos. As pessoas ficam com aspecto diferente, parecem que tem os lábios inchados.
As mulheres usam enfeites no rosto, espetos longos, que não são usados pelos homens. Elas também usam flores em lugar de brincos, o que é muito bonito. Usam muito menos enfeites que os Kaiapó e se pintam muito pouco. Recentemente atendi no pronto-socorro um indiozinho que vinha pintado, com a mãe pintada e com muitas miçangas, mas isto é bastante raro. Nada como as cores dos Kaiapó. Por outro lado, diferente do vestido Kaiapó, ela vinha com os seios de fora e somente uma tanga, bem mais genuíno.
Eles ainda praticam muito infanticídio, sendo esta uma importante causa morte. Se a criança é fraca, defeituosa ou com algum problema a mãe pode simplesmente parar de cuidar ou até objetivamente matá-lo. Parece algo cruel, mas vivendo em uma selva, com dificuldade de recursos, isso nada mais é do que instinto de sobrevivência. Por este motivo, como comentei, as crianças só tem nome quando “vingam”, isto é, ficam mais velhos. Até lá são tratadas simplesmente por “filhos”.
Estas duas fotos foram tiradas pela Lídia. Bacana, né?
1 comment 30 Setembro, 2008
Impressões do que ouvi… Caxiri na Cuia
O que vou contar pode ser mais um exemplo de aculturação dos Macuxi, etnia predominante em Roraima e bastante mesclada à população não indígena. Apesar disso, pode ser encarado também como uma prova importante de resistência cultural aliada a capacidade de adaptação de um povo. No site da CIR, Conselho Indígena de Roraima, se encontra disponível a venda o CD Caxiri na Cuia – O Forró da Maloca, feito pelos indígenas da Terra Indígena Raposa Serra do Sol.
Se formos olhar com preconceito, realmente isso mostra aculturação: “índio não dança forró”, ou, pior ainda… “índio não CANTA e COMPÕE forró”, ainda mais em português. Mas… se formos entender o contexto, vamos ver que é um exemplo de cultura – afinal, a cultura é dinâmica e não estática. De outra forma, não admiraríamos os cantores de Rock nacionais, não é mesmo?
Os indígenas absorveram o que está ao seu redor, o forró, e deram a ele um significado indígena com as letras que cantam. Vejam algumas letras:
Tem das que contam da vida local:
“…tem capivara, jacaré na damorida, tem tapioca com vinho de buriti, vem festejar a vitória tão sofrida de bem com a vida tomando um bom caxiri…”
E das engajadas:
“Sou terra sou mata sou campo / Sou água de beber / Me usam, me queimam e me destroem / Chega de sofrer.”
Tudo bem que o som não é dos melhores, com aqueles sintetizadores típicos dos forró-brega do interior, mas vale pelo engajamento e pelo fato de nos lembrar que a cultura é viva e está em constante mutação.
E olhem a capa do CD. Da bem idéia de como é o forró na maloca, não? Rasta pé dos bons, com muita poeira no ar? Vamos dançar?
http://www.overmundo.com.br/overblog/forro-indigena-e-tecnicos-de-audio-indigenas-de-rr
https://www.socioambiental.org/noticias/nsa/nsa/detalhe?id=1928
http://www.cir.org.br
Add comment 13 Setembro, 2008
Morte na Aldeia
Gorotire – Abril 08
Hora do almoço. Quando imaginei que iria descansar dos mais de 40 atendimentos da manhã, escuto o inconfundível choro das mulheres Kayapó. Como não chegou avião nem carro, não é parente chegando – o choro é tanto por tristeza como pela alegria de um reencontro – e logo vem a confirmação de uma morte em Redenção. O choro é cíclico. Horas de silêncio se sucedem a instantes que toda aldeia parece chorar em uníssono.
O morto será velado em sua própria residência, sobre uma manta no chão. Ele é enfeitado com seus adornos de festa: brincos, pulseiras, braceletes e pintado da forma tradicional – a pintura é muito importante e acompanha o Kaiapó em toda sua vida. Os momentos de choro se alternam com os de dança e cânticos em homenagem ao falecido, ao longo da noite e do dia seguinte, até o momento do enterro.Todos os pertences do morto o acompanham: colchão, roupas, utensílios e tudo que tivesse proximidade a ele ou puder lembrar a ele. É comum famílias ficarem sem nada após a morte de alguém importante, sendo que, se a morte ocorrer no domicílio, a casa costuma ficar abandonada. A esposa pinta o falecido, raspa sua cabeça e após o enterro evitará sair em público, só o fazendo em casos extremos, quando falará em voz baixa, quase sussurrando e não usará pintura. O luto só acaba quando seu cabelo cresce novamente e ela pode se pintar.
Por existirem muitos Kayapó cristãos o sincretismo religioso é evidente. Estes influenciam os animistas e vice-versa. O morto não vai para o paraíso, mas pega seus pertences e segue ao encontro de seus parentes e amigos falecidos. Este caminho pode ser longo e o morto pode permanecer próximo e não querer ir sozinho, o que causaria outras mortes por “doença de índio”. Por isso o medo de me karon, isto é, fantasmas, é generalizada. Não se fala do morto para não atrai-lo para perto de si, especialmente se for alguém próximo. Após algum tempo (não consegui descobrir quanto) o pajé, que transita entre o mundo físico e o espiritual, vai a procura do morto para certificar-se que está bem, em companhia de parentes e traz a notícia, tranqüilizando finalmente a família.
Hoje percebi que a morte, assim como a alimentação, sexo e família, também são muito características de cada sociedade. Poucas horas após escrever o texto acima e do enterro, ao final da tarde, percebo que estou atendendo aos filhos do morto. Depois atendo uma mulher que julgava ser uma tia e pergunto o que ela tem. Responde falando sobre gripe e dor no pescoço. Vendo a ficha percebo que é a viúva, que ainda não cortou o cabelo (ela só faria isso ao dia seguinte, junto a sua sogra). Faço a receita e ela se vai com as crianças, como se fosse um dia qualquer.
2 comments 7 Julho, 2008
Namorando na aldeia
Dia dos namorados. Isto inspira muita gente a perguntar como é o namoro dos Kaiapó. Com certeza, assim como outros hábitos culturais, este é bem distinto do nosso. As manifestações públicas de afeto são praticamente inexistentes. Raras são as cenas de índios andando de mãos dadas, ficando restritas aos mais jovens, provavelmente por influência televisiva. Beijos eu nunca vi.
O compromisso pode ser firmado na adolescência, oficializando através do casamento, um namoro que já subentende as relações sexuais. Apesar disso não são raros os casos de noivos que fogem na hora do compromisso ou de noivas que nem aparecem, desejando manter o status de solteiros. O noivo normalmente passa a morar na casa da esposa, partilhando da rede e ajudando o sogro nas funções masculinas. Se marido e mulher se desentenderem, principalmente quando jovens, se separam e pronto, não há maiores problemas.
O fato de começar a “ficar” e ir morar na casa do sogro é muito simples, não havendo nenhum inconveniente para isso. Filhos nascidos desta união, embora tenham o pai reconhecido, normalmente são criados pelos avós, sem problema ou constrangimento algum. Avós não são apenas os pais dos pais, mas também os irmãos dos avós, o que nós chamamos de tio-avós
As meninas podem começar a manter relações sexuais desde novas, não havendo uma cerimônia, como as vistas no Xingu, de reclusão feminina. As relações normalmente são com jovens mais velhos, podendo também ser com indivíduos bem mais velhos. Há algumas festas inclusive em que, após o canto e a dança, o namoro é liberado com a seguinte regra: solteiros (normalmente os jovens) “namoram” as casadas e casados “namoram” as solteiras (normalmente as meninas). As relações nestas festas não são encaradas como traição, mas como parte inerente a festividade. Em outros momentos traições, quando descobertas podem acabar em briga ou bate-boca.
Outra coisa interessante é que as relações não são muito demoradas. Dá para imaginar, em uma casa com várias famílias, muitas crianças, não há liberdade para muita coisa. Então é vapt, sem nem ter tempo para o vupt. Dizem que nos tempos do dinheiro as prostitutas adoravam os indígenas, que pagavam bem e nem esquentavam o banco. Já os homens dizem que adoram as “kuben” (não indígenas) porque fazem tudo que as indígenas não fazem. Normalmente as relações são da forma mais tradicional, sem variação ou preliminares, mas diárias e duram até bem depois da menopausa, com intervalos apenas no pós-parto. Existem algumas etnias, não é o caso dos Kaiapó, que dizem que a formação do bebê só se dá com muito sêmen. Então, para o bebê nascer completo e sem problemas, a mulher deve ter muitas relações durante a gestação, quanto mais, melhor!
Add comment 12 Junho, 2008
Impressões juninas de BC
Add comment 1 Junho, 2006







