Aldeia Kranh-Apari, Novembro de 2006
Ontem a noite recebi a ligação de uma enfermeira: “Altamiro, estamos com um surto de diarréia em uma aldeia. Temos que fazer uma missão lá. Você pode ir hoje?” Concordei na mesma hora, me sentindo um verdadeiro “médico sem fronteiras”. No aeroporto achei estranho tudo estar vazio, sem mais ninguém. O piloto me informou que só eu mesmo iria, ou seja, “eu” era a “missão de um homem só”. Me senti um Bruce Willis indo em missão no meio de uma selva lutar contra exércitos inimigos. Missão foi um ótimo nome que arranjaram para me convencerem a me aprontar rápido.
Com tudo isso o avião quase não saiu… estava chovendo muito. Isso me trouxe saudade das chuvas em BC, quando toda água que eu bebia vinha dos céus. Agora, já na aldeia, a técnica de enfermagem aproveitou a chuva da tarde e em poucos minutos encheu alguns baldes. Haja água.
Eu tinha que ter vindo na semana passada. Este final de semana foi o encerramento da festa, que durou dois meses, com danças quase todas as noites e teve seu apogeu há três dias atrás.
Noite na aldeia. Desde o final da tarde as pessoas se juntam na praça central para cantar e dançar. Depois de tanto tempo de festa parece que ninguém quer acreditar que o festejo acabou. Descobri que foi a Festa da Mandioca, uma das poucas em que homens e mulheres dançam juntos. Assim como em nossas festas do Divino, há um “dono da festa”. Este não dança e ainda fornece toda a comida para todo mundo. Ah! Aqui não tem bebida alcoólica, diferente do que acontece em outras etnias.
27 Junho, 2008
De repente, em meio a manhã ensolarada, escuto seu Getúlio gritar: “Lá vem ela!”. Não entendo bem do que se trata até olhar para trás e ver, nitidamente uma mancha cinza no céu que se aproxima com velocidade impressionante: a chuva. A família do seu Getúlio não perde tempo, e a esposa puxa uma lona enorme que coloca sobre as crianças. Para sossegar os menores, um logo é colocado em cada seio e… tudo resolvido. A chuva cai e o barco continua.
O ribeirinho é tão adaptado ao rio e as chuvas que nada parece atrapalha-lo. A chuva acaba e já estamos quase chegando no nosso destino, uma comunidade chamada Palmari, onde há um grande hotel de selva e onde vive a família de meu piloto. Chegamos em meio a um paná-paná (não sabe o que é? Altamiro também é cultura: paná-paná é o coletivo de borboletas) de borboletas amarelas. Lindo em um final de chuva com o céu todo cinza.
Não tenha dúvida… tudo isso são borboletas
7 Maio, 2006
Já estou há algum tempo sem viajar, então vou contar um pouco do meu dia a dia amazônico.
Na verdade vou confessar que às vezes desanimo. Muitos pacientes, enfermagem mal treinada (e no hospital “abusada”), dificuldades de exames. Parece ruim, não? Ainda mais que várias cidades oferecem um salário menor. Só que existem compensações. O programa municipal de saúde infantil foi desenvolvido por mim, e, ainda que aos trancos e barrancos, estamos conseguindo segui-lo. Atendemos de forma diferenciada as crianças especiais, treinamos os agentes de saúde, implantamos o sistema de vigilância nutricional (sisvan) e criamos o Conselho Tutelar. Esta é talvez a minha maior alegria. Desenvolvi o treinamento dos Conselheiros e os cinco são grandes companheiros de luta. O que não consigo fazer “por bem”, estou conseguindo “por mal”. O diretor do hospital já foi notificado duas vezes, a secretaria de educação uma vez e mesmo alguns agentes de saúde. E assim vamos transformando a atenção a criança em nossa cidade.
Um sinal legal do reconhecimento do trabalho foi a festa do Dia da Criança. Fui dar uma olhada e era muito divertido ouvir as crianças … “olha mãe, o meu médico”. Dava boas risadas e ainda tinha tratamento vip, que me deixou até sem graça. Sem entrar nas filas das crianças, eu ganhava picolés, algodão-doce, refrigerantes. A festa foi um grande “panis et circens” com sorteio de brindes, apresentações de grupos da cidade e tudo de graça para as crianças. Até os Ticuna vieram de suas comunidades. Boca livre todo mundo quer.
Os céus nas últimas semanas tem sido bem generosos e muita chuva tem descido. Eu mesmo enchi meus estoques todos de água, o que me permite uma boa economia. No domingo vinha do almoço na casa de amigos, quando a tempestade me pegou. Estava com o computador na mochila e o jeito foi parar, tirar a camisa, enrolar no computador e correr… muito. Cheguei em casa como um pinto molhado, mas com o laptop seco. Já que quem está na chuva é para se molhar, deixei as coisas em casa e fui tomar um banho: de calha, brigando pelo espaço com um monte de meninos. Foi muito divertido. E legal ver nas fotos como sou diferente do povo local: que brancura!
23 Novembro, 2005
Hoje é sábado, 12 de março e estou na “baleeira” indo a Tabatinga. Além de mim, mais 7 adultos e uma criança além do piloto. Estou apertado atrás, perto do motor e cerca de 10 cm acima das águas turvas do Solimões. O transporte para sair da cidade é sempre assim. Ontem a noite estava trabalhando na casa da secretária de saúde quando ligaram de Fejoal, uma comunidade indígena distante, pedindo a ambulância, pois uma criança havia sido picada por cobra. Logo depois a lancha-ambulância, ou “ambulancha”, estava a caminho, pois não há opção por terra. As baleeiras, lanchas rápidas, ligam Benjamin a Tabatinga em 40′ por 15,00. Saem quando junta gente. Os recreios custam 9,00 e tem hora certa: 7h e 14h em uma travessia de 2 horas. Eu ia no recreio, mas pela manhã chovia tanto, tanto, tanto que precisaria que ele me pegasse em casa. Aliás, a chuva continua a ser uma amiga. Como não dá para confiar na água das torneiras e nem mesmo das águas minerais, só tenho tomado água de chuva… Em cinco minutos encho uma garrafa de 2 litros!!
Hoje é sábado, 12 de março e estou na “baleeira” indo a Tabatinga. Além de mim, mais 7 adultos e uma criança além do piloto. Estou apertado atrás, perto do motor e cerca de 10 cm acima das águas turvas do Solimões. O transporte para sair da cidade é sempre assim. Ontem a noite estava trabalhando na casa da secretária de saúde quando ligaram de Fejoal, uma comunidade distante pedindo a ambulância, pois uma criança havia sido picada por cobra. Logo depois a lancha-ambulância estava a caminho, pois não há opção por terra. As baleeiras, lanchas rápidas, ligam Benjamin a Tabatinga em 40′ por 15,00. Saem quando junta gente. Os recreios custam 9,00 e tem hora certa: 7h e 14h em uma travessia de 2 horas. Eu ia no recreio, mas pela manhã chovia tanto, tanto, tanto que precisaria que ele me pegasse em casa. Aliás, a chuva continua a ser uma amiga. Como não dá para confiar na água das torneiras e nem mesmo das águas minerais, só tenho tomado água de chuva… Em cinco minutos encho uma garrafa de 2 litros!!
22 Março, 2005