Posts Tagged“Causos” Médicos
História de terror indígena no hospital
Nossa ignorância por vezes é cruel com os indígenas que devemos socorrer. Recentemente, para nossa alegria, um pequeno curumim teve alta da UTI. Como já contei, até estarem grandes as crianças dos grupos Yanomami não tem nomes, assim são registrados no hospital como Filho de… ou Filha de… Assim, lá fomos nós chamar a Cecília que estava na CASAI (Casa do Índio), esperando a melhora do seu filho. A Casai enviou a mãe e, para nossa surpresa ela não queria amamentar o pequeno. Achamos que era devido a longa permanência na UTI, mas a mãe se recusava. Após muito gestual para cá, falas não compreensíveis de ambos os lados e mais gestuais para lá, entendemos apenas ela dizer Casai, Casai, Curumim Casai. A criança ainda estava debilitada, então não poderíamos mandá-la ainda de volta para a Casai, como a mãe parecia nos solicitar. No meio deste trabalho de convencimento, nada da mãe querer amamentar. Já um pouco impacientes, alguns profissionais brigavam, resmungavam e todos concordavam que era uma lástima o comportamento da mãe, que nas poucas vezes que concordou em colocar a criança ao seio, já sob muita pressão, ela imediatamente lavava a mama e fazia cara de nojo. Por todo domingo isto aconteceu e a equipe contava os minutos para e chegada da tradutora da coordenação indígena na segunda-feira, para tentar convencer a mãe a mudar este comportamento.
Finalmente chega a segunda-feira e com ela a Geralda, que nos seus mais de 20 anos de convívio com os Yanomami já ganhou até oferta para ser trocada por trabalho para ficar como esposa de um tuchaua (cacique). Ela começa a falar com a mãe e… Aquela não era Cecília. Era Ceciça. Seu filho estava na Casai, certamente sentindo falta da mãe por todo domingo, enquanto Cecília continuava na Casai, com certeza ainda preocupada com seu filho na UTI…
Sem comentários…
A gente até que tenta amenizar…
Uma doutora da alegria tenta distrair a pequena indiazinha.
Add comment 23 Outubro, 2009
Mamãe Bekwoikotiiiiiiiiiiii
Bekwoikoti é uma senhora vaidosa. Nos seus quase oitenta anos, Bekwoikoti, também chamada de Luiza adora contar histórias, usar enfeites e gritar com uma voz aguda para qualquer um que fala seu nome errado: “Bekwoikotííííííííí”. Impossível não aprender. Como apareceu um tumor no pé desta senhora, a encaminhei ao cirurgião, que ao examinar marcou uma biópsia. No dia do exame estava tensa, escolheu seu melhor vestido e trocou de enfeites três vezes até escolher um que aprovasse, com a aprovação também da técnica de enfermagem que a acompanharia. Bem humorada, Luzia sempre falava de seus problemas rindo, como se a vida fosse uma alegria maior do que as dores de sua idade. Em uma visita a Aldeia Las Casas, soube que Bekwoikoti estava por lá, e mesmo já sendo tarde (mais de sete horas da noite) resolvi visitá-la antes de ir embora desta que é a única aldeia onde chegamos de carro. Como estava chovendo em ritmo amazônico, optamos por ir de Toyota até a casa da senhora, do outro lado da aldeia. Lá dentro da pequena cabana, estavam ela e a filha. A filha cuidando da fogueira na qual Bekwoikoti sem roupa alguma se esquentava, sentada sobre um fino cobertor no chão. Consultei, falei do problema do pé e prometi enviar vitaminas. Nese momento ela começou a falar, iniciando o choro típico da mulher Kaiapó: alto, agudo, em uma ladainha incessante. Não entendi nada, mas o meu tradutor e a filha encheram os olhos de água, e logo entendi que deveria ser algo emocionante. Depois ele traduziu dizendo que ela dizia que eu saia sob chuva para cuidar dela, que isso era uma coisa que nem os filhos fazem por ela, então eu agora era mais do que um filho para ela e que eu podia chamar ela de “mamãe Bekwoikoti” e agora ela me chamaria de “filho Doutor” e por aí vai. Fiquei realmente sentido, pois fui atendÊ-la com carinho, ainda que soubesse que pouco poderia faer por ela.
Assim que saímos, fomos nós tentar sair com o carro sob a chuva torrencial que não havia cessado um instante e… lama e… rodas atoladas. Saímos para ver o que fazer e logo fomos ajudados por dois outros índios que logo se somaram a mais outros dois. Nós seis após mais de uma hora de esforços sob uma chuva que não parou um instante, atolados na lama tivemos que cavar um buraco sob cada roda, preparar um “macaco baiano”, levantar o carro, calçar cada roda com pedras e finalmente sair do buraco. Acabou o problema? Não, pois o caminho estava interrompido com um rio que havia subido demais. Demos a volta por um caminho alternativo e… outro riozinho havia se tornado caudaloso… Só restou voltar para a aldeia e esperarmos mais três horas para podermos ir embora com a chuva mais fina, e ainda molhado e todo sujo de lama.
Tem gente que pode dizer que isso foi literalmente um “programa de índio”, mas foi um programa que me fez sentir-me tão vivo, que valeu tudo. Os problemas são importantes, pois nos permitem achar soluções que são sempre gratificantes. Gente que não tinha nada que estar sob a chuva foi lá ajudar a desatolar o carro, mostrando que sempre tem um anjo que surge quando precisamos. Se atolei na aldeia, sei que valeu, pois deixar a velhinha feliz foi uma ótima causa. E lá fui eu com histórias para contar para os netos e os amigos…
Ainda bem que vocês tem paciência para ler os meus “causos”…
Embora eu seja pediatra, na aldeia sempre temos que atender os Kubengêt (idosos).
Na primeira foto eu examino a esposa do Pajé Delegado, de Gorotire. Na segunda o Agente de Saúde Takakmakoro com a kubenget Patoj
Add comment 8 Janeiro, 2009
Doença de Índio, doença de branco
As doenças como em todo consultório médico, se repetem. Crianças têm infecções de pele (muito), febre, dor de ouvido, bronquite (asma), diarréia, verminose, vômitos e… queixa universal, estão “iiiiiiiire! Kupran ket!” ou seja… “maaaaaagras! Não comem nada!”
Adultos tem dor nas costas e musculares de modo geral, problema de vesícula, gastrite, fraqueza. Os Kaiapó são hipocondríacos. Adoram vitamina, adoram pomadas e cremes, adoram xaropes. Mas usam tudo do jeito deles, independente da forma que eu prescreva.
Temos problemas com as gestantes. Tudo bem, concordo que gestação não é doença, mas… elas não está nem aí. É tão natural que não existem nem parteiras na comunidade. Uma faz o parto de outra sem estresse, como um procedimento normal, que de fato é. Eu já estive em aldeias várias vezes em que mulheres deram a luz e nunca fui nem chamado para assitir.
Para “doença de branco, nossa farmácia na aldeia e…
o time de Agentes de Saúde. Estes são da aldeia Kikretum, a segunda maior.
Aliás, se eles acham que o problema não é comigo, que é “doença de índio”, nem adianta eu chegar perto. Temos que respeitar a cultura, então nada mais posso fazer do que observar, e, caso perceba que o problema é grave, aconselhar. Recentemente precisei prescrever uma transfusão de sangue para um indiozinho e o pai não queria de jeito nenhum. Ele estava ruim. Para os colegas da saúde.. hemoglobina de 3,9g%. Para os de outras áreas… da cor de uma folha de papel. O pai só se convenceu após o pajé autorizar e dizer, ele também, que a criança estava bem ruim.
2 comments 6 Setembro, 2008
Vida de médico na aldeia
As pessoas sempre me perguntam sobre como é minha rotina nas aldeias. Vou tentar explicar um pouco, lembrando sempre que as diferenças são muitas entre uma etnia e outro, entre um Distrito Indígena e outro. Embora eu trabalhe com índios que preservam bem sua cultura, são índios que também tem bom contato e aceitação da cultura ocidental. Os Kaiapó conseguem mesclar seus hábitos com os importados sem enxergar nisso uma contradição cultural.
Eu atendo 12 aldeias espalhadas por uma área do tamanho aproximado do Estado do Rio de Janeiro. A área Kaiapó na verdade compreende várias terras indígenas interligadas, que compreendem não apenas o Pará como também Mato Grosso, em uma área que é das maiores do mundo em termos de florestas preservadas, com tamanho aproximado de três Estados do Rio.
Em todas nossas aldeias eu chego de avião monomotor. Chegando nas aldeias o avião é sempre cercado por um sem fim de crianças, mulheres e jovens, curiosos, que querem saber quem vem, de onde vem, o que traz. Eu salto do avião e grito “Akati mex” (Bom dia!) e todo mundo responde e depois começo a ouvir pelas minhas costas “Dr. Tamira”, “Dr. Tamiri” ou algo semelhante.
Me alojo nos postos de saúde e iniciamos a rotina de atendimento. Manhã: oito ás onze. Tarde: quatro até escurecer. Antes das quatro é difícil atender porque o sol é intenso e ninguém sai de casa.
Atendo a família junta. Mulher, às vezes o marido e os filhos pequenos, variando entre um a cinco. Me surpreendo várias vezes com avós que parecem irmãs de seus netos, ou no máximo mães, pois elas começam a ter filhos muito cedo. Acho que por isso também a estatura feminina é tão baixa. Enquanto há muitos homens de minha altura e maiores, a maioria das mulheres não chega nem no meu queixo. Depois que entra uma família, se há espaço na sala, devagar e discretamente vão entrando outras famílias. É assim: entra um idoso como quem não quer nada, depois o seu marido ou esposa, netos e… quando vejo já tem umas vinte pessoas no consultório (o recorde ainda foi de 35). Por trás de mim crianças se dependuram nas janelas, e novamente escuto… “Dr. Tamira” “Dr. Tamiri”.
A Aldeia Kikretum é uma das mais organizadas. Lá também o consultório é menor, então é difícil ter muita gente no consultório. Normalmente lá é assim, um agente de saúde, que ajuda nas traduções e uma mãe com seu(s) filho(s).
3 comments 3 Setembro, 2008
Orelha de Peixe e as Nira sem roupa
Atendi uma índia com nome bem diferente. Tepamak. Sim, vocês vão me dizer, “mas todo índio aí tem nome diferente”. Eu sei, eu sei, mas tep quer dizer peixe. Amak quer dizer orelha. Então ela chama-se Orelha de Peixe. Só não sei que espécie de peixe orelhudo é este.
Hoje também aconteceu uma história engraçada no consultório. Como sempre, haviam uns vinte indígenas dentro. Estava atendendo uma senhora que se queixava de “miomio” – a coceira sem fim dos Kaiapó. Querendo dar ênfase as suas queixas de que havia coceira por todo o corpo, sacou o vestido, ficando só de calcinha, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Isto nunca havia acontecido. Atendi mais umas quatro pessoas e eis que outra senhora, que havia presenciado a cena, faz a mesma coisa. Eles nem ligam e eu fingia ser a coisa mais normal do mundo. Atendi mais dois e… outra senhora. Temi o pior, e exatamente como previ, lá foi ela tirar o vestido. Só que esta era mais “cheinha” e, com o vestido mais justo, não era tão fácil retirá-lo. Argumentei que não precisava, que já tinha entendido, mas não houve jeito: enquanto não ajudei a tirar seu vestido, a consulta não prosseguiu. A forma como eles encaram o corpo é sem dúvida muito mais saudável do que a nossa.
Add comment 10 Março, 2008
Problema de Árnis!
Add comment 23 Março, 2006
Atendimento na Aldeia
Add comment 12 Outubro, 2005
Não venta do meu lado que te espoco o bucho!
Add comment 1 Setembro, 2005
Você já machucou comprimido?
Add comment 6 Agosto, 2005
Mais histórias de pacientes
Add comment 6 Agosto, 2005







