Impressões Uruguaias 85

AGOSTO DE 2011

Aproveitei uma folga e fui conhecer o Uruguai. Quatro dias nesta terra que já foi portuguesa, mas que hoje tem maiores afinidades com a antiga coroa espanhola, que acabou dominando as terras ao oriente do rio que batiza o país.

Povo simpático. Não tão extrovertido como os argentinos, mas acolhedor. Come-se bem. Bebe-se melhor ainda. O vinho é mais barato do que o refrigerante e as refeições são sempre acompanhadas de pão e água com gás.

O frio deixa Montevidéu meio anestesiada, mas é uma cidade viva, com gente para todo lado e muitos turistas que tiram fotos ao lado da Fonte dos Cadeados, no meio da avenida principal – e que eu, inexplicavelmente bobeei e não registrei. Dizem que o casal que escreve as iniciais no cadeado e prende na fonte ficará junto e voltará até lá.

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Mega frente –fira, deixa tudo meio “congelado”

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Até para correr tem que ser com máscara…

Fonte dos Cadeados – Imagem do blog http://waissfouder.wordpress.com/2011/07/16/role-suceo-no-uruguai/

A capital é repleta de monumentos e estátuas. Na rambla (avenida litorânea) sinuosa o vento faz com que a água do mar chegue até os carros (cheguei em plena frente fria polar, com a temperatura próximo ao zero a noite e ventos de filme de terror – fortes, gelados e assobiantes). Os prédios são uma mistura do moderno com igrejas imponentes e gigantes da arquitetura de ontem, mistura que lembra o centro do Rio e mais ainda o de Buenos Aires. Tudo elegante e charmoso. Como os moradores. Sobretudos, casacos, cachecóis, ponchos e botas são usados com discrição e bom gosto. Sempre. Para acompanhar, as inseparáveis cuia de chimarrão e garrafa térmica.

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Nossos vizinhos são tradicionalistas. Carros com mais de cinqüenta anos rodam no meio dos modernos em uma mistura que nunca vi em lugar nenhum. Velhos aero-willis, sinca chambords e outros “rabos-de-peixe”, caminhões antigos, muitos fuscas e até calhambeques trafegam com desinibição e muito bem cuidados pelas ruas.

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E só a tradição para explicar a fama de Punta del Este, principal balneário dos bacanas uruguaios. A praia é feia, fria e com muito vento. Nada de coqueirinhos tropicais, enseadas recortadas, águas transparentes ou peixinhos coloridos. No passado tinha o charme de ser longe. Hoje tem o charme de ser rico. Aliás, muito rico, com mansões para todos os gostos. Coloridas ou sóbrias, em forma de castelo, de palácio, com enormes janelas de vidro de frente para o mar, vários andares e… sem muro nenhum, me deixando com uma inveja saudável de nossos hermanos que se encontram entre os países com menores índices de crimes do mundo.

11 08 (562) A Mão de Punta del Este

11 08 (547) Punta é bem urbana, repleta de prédios.

Fui conhecer Colônia Sacramento, testemunha de um passado onde todos éramos um só país sob domínio português. Se Punta é como Campos de Jordão ou Búzios, Colônia é como Tiradentes ou Visconde de Mauá: acolhedor, bonitinho e “bacana”. Um imponente farol domina a cidade e vigia o mar inquieto. Ruelas estreitas com restaurantes e museus que contam histórias do período português, da colonização, da história natural e até dos povos indígenas, hoje totalmente eliminados do país e relegados a um pequeno museu de três salas. Muito pouco para um povo que superou frio, vento condições adversas e ainda lutou contra os portugueses. Lutaram tão bem que o governador local se preocupou e resolveu matá-los todos. De uma vez eliminou os portugueses e os indígenas.

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Cabo Polônio
O vento assobia entre as frestas e balança telhados. É o único barulho além do crepitar do fogo em nosso quarto. Estou debaixo de três cobertores em um quarto onde mal cabem a cama, uma cadeira e uma mesinha, menor do que aquelas de bar. A iluminação é de velas. O banho, antes de dormir, consistia em cinco filetes de água, ralos como o cabelo do Cebolinha, que antes de chegarem ao meu corpo já não estavam quentes como quando haviam saído do chuveiro. Tudo na vida tem seu preço e este é o que pagamos para ver os Lobos Marinhos no Parque Nacional de Cabo Polônio, no Uruguai.

11 08 (523) Chegar em Cabo Polônio, só nesse veículo.

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O quarto, com vista para a praia, mostra que o mar não está para peixe, com fortes ondas provocadas pela massa de vento polar que atingiu mais de 40 km/hora, segundo os meteorologistas. Se isso é muito? Eu senti na pele que é, pois os sete graus não são nada perto da sensação térmica negativa que experimentamos.

11 08 (516) Vista do quarto e o símbolo da pousada… uma teve na areia… O único canal que pega é a natureza.

11 08 (320) Vai um friozinho aí?

11 08 (321) Aquecedor no quarto.

Acordamos cedo e as sete e meia já estamos no vento. A pequena vila dorme. Na verdade hiberna, pois como estamos fora de temporada, das muitas pousadas apenas duas estão abertas. Nenhum restaurante. Fora alguns gansos e dois cachorros que nos acompanham – certamente também buscando companhia – não há viva alma na vila. Nem mesmo o dono do hostel acordou antes de sairmos, o que fez com que saíssemos em jejum.

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11 08 (351) Apenas os passarinhos e as flores estavam acordados tão cedo…


Apesar do vento seguimos pelo litoral e… uma cabecinha! Você viu? Vi! Não vi! Outra! Está lá sim! Agora um rabo! É um lobo-marinho! Ou melhor, dois! Três! Vários! São cabecinhas que surgem aqui e ali, disputando peixes com as gaivotas que mergulham no mar revolto.

Continuamos contra o vento, sempre escoltados por Cão (ou melhor, Perro, já que estamos no Uruguai), até que ouvimos um latido diferente. Agora um gemido. Outro latido. Algo que soa como um “arroto estranho”. Outro latido. E lá estão eles pegando um mormaço (já que esta hora nem o sol se dignou a aparecer) sobre rochas que se erguem do mar pouco abaixo de um grande farol. E eles brigam, namoram, pulam, se espreguiçam, tomam banho com as ondas mais agitadas. Se sentem em casa ao contrário de nós que já estamos quase congelando. Hora de seguir para um belo café da manhã.

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