Posts filed under 'Saúde'
Pele… ponto fraco na selva
Os problemas mais corriqueiros com os quais tenho que me deparar são as irritações de pele. Especialmente no verão, a incidência aumenta muito, e não consigo imaginar o que possa dar jeito. É um problema histórico, já relatado nas primeiras pesquisas sobre saúde Kayapó, da década de 70. Eu também, após poucos dias nas aldeias, também fico ruim… mesmo sem ser alérgico. Na época de chuvas há muitos puté iaká (carapanã/mosquito/pernilongo/muriçoca) e muuuuuito pium. Por mais que o organismo esteja habituado e a pessoa se proteja,um ou outro inseto consegue vencer ao mesmo temo nossas proteções e resistência e… coceira! Acho que tem inseto que usa máscara para passar por cima dos repelentes, e outros que usam broca para picar por cima da roupa. Assim logo temos a equação: Feridas = coceira + unhas sujas ou terra. Embora alguns falem mal dos hábitos de higiene, distintos dos nossos, o problema, na verdade está relacionado ao dia-a-dia. Casas sem piso, convívio com animais e pouca roupa, aliás, nos casos de criança pequena: nenhuma roupa. Impossível não haver coceira e feridas.
1 comment 12 Setembro, 2008
Emergência noturna
Noite em Kikretum, hora de dormir. Chega um índio dizendo que sua avó estava passando muito mal e pedindo para irmos no Acampamento Arara, onde sua família cuidava da roça. Daqui p/ lá são 15 minutos de voadeira. Foi como um sonho. Noite muito estrelada, com um fiapo de lua crescente enfeitando o firmamento. Além de mim e da auxiliar, três indios viajando em silêncio. O grande rio Fresco, tributário do grandioso Xingu refletia o brilho dos céus em uma noite agradável. Ainda que eu soubesse estar trabalhando, nada tirava o encanto. Luzes ao longe, estávamos chegando. Luzes estranhas, não eram o que eu esperava. Em plena floresta a iluminaçâo mostrava o rosto de Fátima Bernardes no jornal nacional. É, já não se fazem mais acamamentos de índios como antigamente. A índia? Ficou melhor, mas sofreu bem com uma crise de vesícula.
1 comment 11 Setembro, 2008
Doença de Índio, doença de branco
As doenças como em todo consultório médico, se repetem. Crianças têm infecções de pele (muito), febre, dor de ouvido, bronquite (asma), diarréia, verminose, vômitos e… queixa universal, estão “iiiiiiiire! Kupran ket!” ou seja… “maaaaaagras! Não comem nada!”
Adultos tem dor nas costas e musculares de modo geral, problema de vesícula, gastrite, fraqueza. Os Kaiapó são hipocondríacos. Adoram vitamina, adoram pomadas e cremes, adoram xaropes. Mas usam tudo do jeito deles, independente da forma que eu prescreva.
Temos problemas com as gestantes. Tudo bem, concordo que gestação não é doença, mas… elas não está nem aí. É tão natural que não existem nem parteiras na comunidade. Uma faz o parto de outra sem estresse, como um procedimento normal, que de fato é. Eu já estive em aldeias várias vezes em que mulheres deram a luz e nunca fui nem chamado para assitir.
Para “doença de branco, nossa farmácia na aldeia e…
o time de Agentes de Saúde. Estes são da aldeia Kikretum, a segunda maior.
Aliás, se eles acham que o problema não é comigo, que é “doença de índio”, nem adianta eu chegar perto. Temos que respeitar a cultura, então nada mais posso fazer do que observar, e, caso perceba que o problema é grave, aconselhar. Recentemente precisei prescrever uma transfusão de sangue para um indiozinho e o pai não queria de jeito nenhum. Ele estava ruim. Para os colegas da saúde.. hemoglobina de 3,9g%. Para os de outras áreas… da cor de uma folha de papel. O pai só se convenceu após o pajé autorizar e dizer, ele também, que a criança estava bem ruim.
2 comments 6 Setembro, 2008
Noivos Kaiapó com a "corda no pescoço"
Aldeia Las Casas – Município Pau d´Arco
Como todas as demais, Las Casas segue o padrão circular. Ao centro a Casa do Guerreiro.
Estive pela terceira vez na aldeia de Las Casas, e esta foi diferente porque pela primeira vez dormi por lá. Esta é a aldeia mais próxima a Redenção – embora fique em outro município – e é a única onde vamos de carro e o celular funciona. Muitos indígenas chegam aqui, na época de pagamento de aposentadoria, de táxi. Apesar da aparente tecnologia, e sendo a única aldeia onde temos uma “cacica” que realmente manda, nem tudo são flores por aqui. Não há energia elétrica e a água é precária. O banho para muita gente é feito em uns chuveiros coletivos, no meio da aldeia, daquele mesmo tipo que se vê nas praias. O mais engraçado é que o banho por lá é feito ou de calcinha ou, como na maior parte dos casos, com o velho e tradicional vestido de nira. Elas passam o sabão – quando tem – por cima dos vestidos… e depois não entendem porque tem tanto problema de pele. Aliás, falando em banho… já contei como elas secam os longos cabelos?? Balançam o cabelo de um lado para o outro, com uma violência sem igual. É até engraçado. E falando em cabelo, agora conto da falta deles. A gente não se dá conta de como os cílios protegem os olhos, não? E as sobrancelhas? Pois todo dia atendo crianças e adultos com irritação nos olhos. Lembrem-se que eles, desde novos tem os cílios e sobrancelhas arrancados meticulosamente.
Avaliação de altura. O indígena é o agente de saúde, Bepore, com as enfermeiras Renata e Thatiane.
E há outro hábito interessante que já presenciei. Por volta dos 13 anos os meninos são comprometidos como noivos. Há toda uma cerimônia que ocorre e após esta cerimônia os jovens usam uma corda em volta do pescoço que atesta o seu novo estado. Esta foi a melhor forma que já vi do que representa um noivado… A corda já está no pescoço e a qualquer momento pode enforcar…
4 comments 13 Julho, 2008
Atendimento noturno e luzes do Jornal Nacional
Noite em Kikretum, hora de dormir.
Chega um índio dizendo que sua avó estava passando muito mal e pedindo para voltarmos no Acampamento Arara, onde sua família cuidava da roça. Daqui p/ lá são 15 minutos de voadeira. Foi como um sonho. Noite muito estrelada, com um fiapo de lua crescente enfeitando o firmamento. Além de mim e da auxiliar, três indios viajando em silêncio. O grande rio Fresco, tributário do grandioso Xingu refletia o brilho dos céus em uma noite agradável. Ainda que eu soubesse estar trabalhando, nada tirava o encanto.
Logo, luzes ao longe mostravam que estávamos chegando. Luzes estranhas, não eram o que eu esperava. Em plena floresta a iluminaçâo mostrava o rosto de Fátima Bernardes no jornal nacional. É, já não se fazem mais acamamentos de índios como antigamente. A índia? Ficou melhor, mas sofreu bastante com uma crise de vesícula.
Add comment 6 Julho, 2008
No Regatão do Sacaca conheci o Batatão Hypólito
Quando forem a Macapá, guardem este nome: Museu Sacaca. Não é nome de japonês, mas de um famoso pesquisador de ervas.
O museu é bastante interativo, e quase todo a céu aberto, sem “cara” de museu. Embora um pouco largado, tem muita coisa interessante e as curiosas pedra-fones. O que são pedra-fones? Na verdade nem sei se o nome é este, mas para sonorizar o ambiente sem tirar o aspecto de natureza e os cenários amapaenses que são reproduzidos, há pedras que na verdade são caixas de som, que podem até passar desapercebidos.
Um dos ambientes mais legais de visitar foi o “Regatão”. No Sacaca há um Regatão autêntico, no meio de um rio onde vemos tambaquis e pacus nadando.
Regatões eram os barcos que desciam os rios amazônicos, comprando produtos da floresta e vendendo os industrializados. Era mais ou menos assim: eles compravam ouro a preço de sal e vendiam sal a preço de ouro. Muito legal eram os remédios vendidos. Haviam os infalíveis “específicos” capazes de proteger qualquer pessoa contra cobras, aranhas e outros animais peçonhentos. A bula alertava quer era infalível desde que se conseguisse acertar a dose pelo tempo suficiente, o que não devia ser tão fácil, afinal, uma garrafinha só nunca era suficiente, e quem tinha mais que uma? Além disso medicações como o depurativo Batatão Hypolito – “Aprovado pela Exma. Junta de Higiene do Estado do Pará” e que prometia curar reumatismo, diarréia e até problemas ginecológicos “em geral”.
O Sacaca também tem uma bela estátua que homenageia as parteiras deste que é o estado onde existe a maior porcentagem de partos domiciliares do Brasil. As parteiras são ativas e reconhecidas pela população, sendo bastante valorizada. Aliás, é impressionante o que uma boa parteira consegue fazer, sabendo até virar o bebê que está sentado, antes do parto.
1 comment 10 Março, 2008
Orelha de Peixe e as Nira sem roupa
Atendi uma índia com nome bem diferente. Tepamak. Sim, vocês vão me dizer, “mas todo índio aí tem nome diferente”. Eu sei, eu sei, mas tep quer dizer peixe. Amak quer dizer orelha. Então ela chama-se Orelha de Peixe. Só não sei que espécie de peixe orelhudo é este.
Hoje também aconteceu uma história engraçada no consultório. Como sempre, haviam uns vinte indígenas dentro. Estava atendendo uma senhora que se queixava de “miomio” – a coceira sem fim dos Kaiapó. Querendo dar ênfase as suas queixas de que havia coceira por todo o corpo, sacou o vestido, ficando só de calcinha, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Isto nunca havia acontecido. Atendi mais umas quatro pessoas e eis que outra senhora, que havia presenciado a cena, faz a mesma coisa. Eles nem ligam e eu fingia ser a coisa mais normal do mundo. Atendi mais dois e… outra senhora. Temi o pior, e exatamente como previ, lá foi ela tirar o vestido. Só que esta era mais “cheinha” e, com o vestido mais justo, não era tão fácil retirá-lo. Argumentei que não precisava, que já tinha entendido, mas não houve jeito: enquanto não ajudei a tirar seu vestido, a consulta não prosseguiu. A forma como eles encaram o corpo é sem dúvida muito mais saudável do que a nossa.
Add comment 10 Março, 2008
Comunicação nas aldeias
Add comment 2 Abril, 2007
Problema de Árnis!
Add comment 23 Março, 2006
Primeiras impressões paulivenses
Add comment 6 Março, 2006







