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Mais dos botos de Novo Airão
E vou ser sincero, fui enfeitiçado. Não sei se é “ambientalmente correto”, mas… é tudo de bom. Eles são realmente dóceis e se aproximam com facilidade. Na verdade não são tão desinteressados, pois a melhor forma de atrai-los é com um bom punhado de peixe, mas uma vez que o cheiro do peixe cai no rio, lá vem. Um, dois, três, quatro… contei até sete botos. E se você entra com o peixe dentro do rio eles vem “abraçá-lo” gentilmente, pedindo o peixe. O problema é que, embora gentis conosco, não são assim com os irmãos de espécie, e então, como dois botos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço, um pula por cima do outro, da focinhada e até morde, na tentativa de deixar claro que “este peixe é meu”.
Exceto por esta briga entre irmãos, que é possível de ser administrada com um bom estoque de peixes, a alegria é contagiante. A gente se sente meio Namor, Aquamen, Netuno ou qualquer uma destas criaturas meio humanas, meio aquáticas que habitam nosso imaginário. Com uma máscara você pode mergulhar abraçado a eles, com um peixe bem acima da linha d’água eles chegam a colocar as barbatanas de fora. E com um pouco de paciência, logo você tem fotos de toda família… pois cada boto já foi batizado e tem seu nome próprio, podendo ser identificado por diferentes sinais como um bico torto ou manchas na face.
Novo Airão, guardem este nome. Não dá vontade de ir embora. A sensação de integração a natureza é única. A plenitude maior ainda. Posso ter abraçado um boto, mas com certeza fui abraçado por Deus.
Add comment 12 Novembro, 2009
Os botos de Novo Airão
Poucos animais exercem tanto fascínio sobre nós quanto os golfinhos. Golfinhos são tudo de bom. Inteligentes como macacos, simpáticos como pandas, afetuosos como cachorros. Como eu disse… tudo de bom!
No Brasil há vários lugares onde os golfinhos podem ser vistos nas praias. Nos rios amazônicos encontramos duas espécies, aqui chamadas de botos: o cinza, conhecido como tucuxi e o cor-de-rosa. O cor-de-rosa é animal especial, mágico, que ganhou fama de lenda. Maior que o primo cinzento, é acusado de seduzir mocinhas, levando-as ao fundo dos rios para noites de amor, nas quais, invariavelmente, as engravidam. A fama é tão grande que em todo mercado mais popular, inclusive no famoso Ver-o-peso, de Belém, se encontra com facilidade (contrariando as nossas leis ambientais), tanto o “sexo do boto” quando o “sexo da bota”, ambos com propriedades afrodisíacas incomparáveis, segundo os locais.
Assim, seduzido pelos botos, cá estou eu em Novo Airão, município amazonense distante cerca de três horas de Manaus, para mergulhar com os botos cor-de-rosa. Sim, aqui eles são tão habituados com a presença humana que se pode mergulhar com eles – sem o perigo de ser levado para o fundo das águas.
Entrada da cidade. No símbolo tem um boto cor-de-rosa e um peixe-boi. Do segundo, nem sombra…
Três botos brincam bem próximo a nós.
1 comment 1 Novembro, 2009
Viagem Boa Vista x Manaus
Estou indo para Manaus de carro. É a primeira vez que faço esta viagem, que, de acordo com o mapa, rasga a Amazônia, saindo do lavrado roraimense para a região de floresta fechada, cruzando rios magistrais e terras indígenas, e atravessando a linha do Equador.
A estrada é boa e a viagem, de mais de 700km corre tranqüila. Só tem uma coisa errada. Logo me vem a mente a mesma sensação que tinha quando viajava de Redenção a Belém (e que, por me deprimir um pouco, nunca enviei aos amigos)… onde está a floresta? Na medida que escurece percebo que a vegetação começa a se formar. Já vão dar seis horas quando vejo as primeiras árvores maiores, que prenunciam a entrada na área indígena Waimiri-Atroari. Seguimos, passando por um posto de controle da receita estadual e… não podemos seguir. Nosso direito de ir e vir é impedido, pois na área indígena, ninguém circula depois das seis horas da tarde – salvo ônibus e caminhões com carga perecível.
Não vou mentir. Fiquei bravo, sensação que só passou no dia seguinte, quando r etomei a estrada e percebi que as restrições tem motivo de ser. Esta é a única região da estrada onde a floresta vem nos visitar, e árvores altivas margeiam a pista nos dois lados. No caminho cruzamos igarapés, uma passarela natural de macacos (identificada por placas, e onde as copas das árvores dos dois lados da estrada se abraçam gentilmente) e muitas placas alertando para termos cuidados com animais e para o fato de estarmos em área indígena, não podendo parar.
Trecho onde as árvores da floresta de ambos os lados da estrada se abraçam, formando a “passarela” para os macacos.
Outra placa, constantemente atualizada indica o número de animais atropelados por ali até aquele mês. Quando passamos, a cifra beirava as 5000 vítimas, por si só um bom motivo para que não haja circulação de carros a noite, quando os animais saem de suas tocas.
Ao fim da reserva, onde devido as chuvas que acontecem diariamente devido a floresta tornam a estrada esburacada e de direção lenta, encontramos novamente com a estrada careca. As árvores se despediram de nós, dando a certeza de que, apenas sob os cuidados dos indígenas a Amazônia se manteve neste trecho.
A floresta segue ao lado da estrada dentro da Reserva, como em nenhum outro trecho da Estrada. Favorecido pela vegetação, a maior umidade proporciona um maior índice pluviométrico… aí, veja o que acontece com o terreno da rodovia…
1 comment 31 Outubro, 2009
Específico Pessoa – Ame-o ou Odeie-o
Em minhas andanças na Amazônia pude conhecer o Específico Pessoa, considerado antídoto eficaz contra acidentes com cobras, aranhas, escorpiões e taturanas. Muitas vezes é a única opção de uso para quem está a kilômetros de distância de um grande centro, onde estará disponível o soro antiofídico – único tratamento que eu, como médico, prescrevo.
Durante o tempo que o blog está no ar, o Específico provocou o maior número de correspondências. Muitos o amam, muitos o odeiam. Coisa de picareta? Panacéia para os desassistidos? A comunidade científica também se encontra dividida. Alguns trabalhos evidenciam que contra alguns venenos, ele não faz efeito algum. Outros demonstram que contra outros venenos ele pode ser muito eficiente.
Para quem gosta do assunto, alguns links interessantes:
http://cienciahoje.uol.com.br/controlPanel/materia/view/2983 – para quem quer ver boas notícias
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0037-86821999000600005 – para quem quer ver quando não funciona
Boa leitura e continuem a escrever. O blog está cheio de posts sobre o Específico. Continuem dando sua opinião.
Para quem não conhece… olha aí o Específico Pessoa:
E já tem genérico…
Infelizmente (ou felizmente) não consigo acreditar em um produto que se diz funcionar para inflamações, dores, alergias, cólicas, cicatrização e para distúrbios de coagulação, tudo ao mesmo tempo.
1 comment 5 Setembro, 2009
Até avestruz tem por aqui!!!
Na feira, como em outros mercados públicos na cidade e em alguns restaurantes, a opção para manhã é um “café regional”. Tapioca com ou sem recheio, bola (pronuncia-se bôla, como um feminino de bolo e não como em bola de futebol), bolo de leite, queijo coalho assado, cuscuz de milho (aliás, nestas andanças descobri que só no Rio mesmo que o cuscuz é doce de tapioca com coco). Neste mundo globalizado, a opção favorita para este café regional é feito por um suíço! Ele tem um haras onde se pode provar as delícias locais e depois andar a cavalo ou simplesmente passear vendo a criação de búfalos, os avestruzes, sobreviventes de uma tentativa de criação local e as antas. Antas para criação comercial? Segundo o capataz local estas estão lá somente “pela boniteza”, mas como disputam a comida com os avestruzes, chegaram e ficaram. São muito simpáticas e gostam de carinho, o que as faz favoritas do pessoal em relação aos engraçados mas anti-sociais avestruzes.
1 comment 15 Abril, 2009
Vigilância Nutricional
Na vigilância nutricional temos que aproveitar toda oportunidade para conferir o peso de todos que encontramos nas aldeias e que tenham menos de cinco anos.
Desde que eles nascem…
e antes que eles voem…
1 comment 9 Agosto, 2008
Vovô viu a Onça
Aldeia Kriny
que se relacione a natureza, insisto em ignorar o perigo das onças.
Sempre que me dizem que viram uma onça penso logo em jaguatirica,
aquele gato vitaminado, com a pelagem igual as pintadas. No máximo
penso em uma parda, bem maior, mas mais urbana que sua prima e
portanto mais facilmente avistável. Onça perto de casa? Acho difícil,
pois onça é inteligente, não gosta de proximidade com gente, sabe que
o perigo que corre é ainda maior do que o perigo que oferece. Além
disso onça gosta mesmo é de mata, onde pode caçar veados, antas,
preguiças, pacas e capivaras, que por motivos óbvios de sobrevivência
não chegam nem perto das casas.
Hoje tudo mudou. As seis horas fomos acordados no posto de saúde da
Aldeia Kriny por uma moto buzinando insistentemente. Trazia um senhor,
o Seu Filó, com a calça rasgada por uma suposta mordida de onça que
ele abateu a golpes de machado. Você acreditaria? Enquanto fazíamos o
curativo chegou uma senhora que, curiosa como todo Kaiapó quis saber o
que havia acontecido. Logo cerca de quarenta indígenas cercavam o
posto para ouvir a história. Embora não entendesse o que diziam, pelo
gestual e expressões era clarão que as mães alertavam os filhos quanto
ao perigo da onça. Já os mais velhos olhavam tão desconfiados quanto
eu… Um kubenget (ancião) matando uma onça com machado? Sei não.
Fui atrás e consegui uma carona de moto até a casa, a três quilômetros
da aldeia. E não é que a tal onça era onça de verdade, com pelo menos
uns 80 kg? A onça havia matado o cachorro da família, quebrando o seu
pescoço e passeado na varanda (as pegadas não deixavam mentir) as
cinco da manhã. O barulho da luta acordou a família que correu armada
para fora (tutti buona gente!) e meteu dois tiros na onça, que então
caiu. Acreditando que estava morta, seu Filó chegou perto e a bichona
deu último bote, sendo finalmente abatido com o machado. Baita susto.
Paguei a língua mas fiquei triste. Apesar disso sei que eu também não
deixaria um bichão daqueles na minha varanda. Triste é ver que, pela
degradação da natureza os contatos aumentam cada vez mais.
O pior é que agora nem sei mais como fazer para sair no meio da noite
para o velho xixizinho no meio do mato…
Olha como a onça estava perto de casa… e com criança.
E seu Filó exibe o ferimento orgulhoso… vovô viu a onça!
1 comment 5 Agosto, 2008
Quati, viagra animal!
Alimentação. Comer,comer… como isso é influenciado pela cultura, não é mesmo? Minha amiga Maria Lucia recentemente escreveu um texto delicioso sobre as deliciosas tanajuras comidas no nordeste (http://www.slowfoodbrasil.com/content/category/5/31/95/ ), e que lembro de caçar na praia com meu irmão para mamãe preparar farofa. Os Kaiapó, ao menos modernamente, não comem nada assim “diferente”, mas tem muitas restrições e crenças. Por exemplo: preguiça não pode ser comida de jeito nenhum, senão… quem come fica preguiçoso. Crianças pequenas de colo não podem comer macaco… ou vão querer ficar agarradas com as mães o tempo todo. Depois que crescem um pouco macaco já faz bem, especialmente macaco-prego. A parte mais importante é o cérebro, que a criança deve comer para ficar ágil. Tamanduá mirim é bom para cair da árvore e não se machucar.
Já os pais jovens precisam comer bastante tripa. Não descobri o porque. E quati faz bem para a potência, é o viagra local. Inclusive o homem que já não está lá estas coisas pode passar o myr do quati no seu próprio myr. Acho que nem preciso explicar o que é myr, né? Ah! Para sua segurança, se for tentar a técnica, lembre que o bichinho não pode estar vivo…
Fiquem na paz,
Protejam os quatis,
Add comment 15 Junho, 2008
Fotinhos de "por aqui"
Add comment 14 Fevereiro, 2006







